terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Sobre anemia, gestação e vegetarianismo

Entre as mil coisas que queria falar, resolvi começar por um boletim “Emi-Lia”. Mamãe está bem, bebê está bem.

Durante todo o pré-natal, a Emília não apresentou nada de anormal. Muito pelo contrário, sempre recebeu elogios tanto da minha obstetra quanto da médica que faz minhas ecografias. Mesmo assim, sempre fiz questão de garantir que eu não estava fazendo nada que viesse a prejudicar minha filha.

Como a maioria dos meus leitores já sabe, tenho uma dieta restritiva. Basicamente, não como carne. Como, muito esporadicamente (nem é todo mês), um salmãozinho grelhado. Isso significa duas coisas:

1) Minha ingestão de vitamina B12, presente exclusivamente no reino animal, é bem menor que a média da população. Assim como o ácido fólico (vitamina B9), ela é importante para a manutenção do sistema nervoso. Sua carência também pode gerar anemia, porque ela participa na formação da hemoglobina. No meu caso, a B12 vem só dos laticínios e dos ovos.

2) Minha ingestão do ferro heme é praticamente nula. Esse é o ferro presente na carne que, segundo os médicos, é mais biodisponível e mais facilmente absorvido pelo organismo.

Então, eu teria tudo para ser anêmica, especialmente durante a gestação. Certo? Mais ou menos.

Seu quadro nutricional depende de toda a sua dieta. Você pode comer picanha, riquíssima em ferro, mas não ingerir vegetais verde escuros e leguminosas. É por isso que o percentual de vegetarianos e de onívoros anêmicos é exatamente o mesmo.

Gostaria de falar para aquelas pessoas que 1) namoram a ideia de não comer carne mas têm medo de deficiências nutricionais ou 2) têm filhos que rejeitam carne, especialmente a vermelha, e ficam preocupados com seu desenvolvimento.

Confesso que tinha medo, sim, de deixar faltar alguma coisa pra minha filha. Toda mãe tem. Assim, comuniquei meus hábitos alimentares à minha obstetra e tratei de buscar acompanhamento nutricional. A médica logo descartou a necessidade de incluir carne na alimentação e simplesmente manteve o acompanhamento pelos hemogramas. Me passou um polivitamínico que toda gestante toma, e mais nada de especial. A nutricionista também não alterou minha dieta, mas bolou um plano pra prevenir a anemia – comum em gestantes. Montou um cardápio que separasse refeições ricas em cálcio de refeições ricas em ferro, me orientou a sempre consumir alimentos ricos em vitamina C junto com o ferro e passou um suco de couve com limão para ser tomado diariamente.

Mesmo com todos esses cuidados, meu hemograma apontou um número de hemácias um pouco abaixo do limite. E agora? Fígado nela?

Por cautela, a obstetra me encaminhou pra um hematologista para investigar. Como a hemoglobina estava normal, ela não se desesperou e disse que verificaríamos com calma se realmente haveria a necessidade de alguma suplementação. Minhas reservas de vitamina B12 também estavam um pouco abaixo do normal (o que era esperado, depois de 10 anos sem comer carne).

Primeira visita ao hemato. Ele já diz: “Duvido que você esteja anêmica. Sua hemoglobina está ótima. Aliás, pra alguém na sua idade gestacional, seus exames estão excelentes. Por precaução, você vai tomar duas doses de vitamina B12 injetável e vamos verificar sua ferritina.” A ferritina é a reserva de ferro. Ela e a hemoglobina são os melhores indicativos de anemia. Ele também explicou que é normal que no hemograma de gestantes as hemácias pareçam um pouco baixas, porque o sangue se “liquefaz”. Com a retenção de líquidos, ele fica mais dissolvido, e a concentração de hemácias por volume cai. É uma falsa anemia.

Pois bem. Tomei as injeções e mais nada. Nenhum suplemento de ferro. Continuei com o suco de couve e fiz os exames.

Hoje voltei ao hemato e ele disse: “Não há absolutamente nada a ser feito. Todos os seus índices estão excelentes. Se você quiser, pode voltar daqui a uns seis meses só para vermos se houve alguma queda nas suas reservas de B12; então podemos fazer reposições periódicas.”

Nem preciso dizer que fiquei feliz da vida, né? Então, pessoal, dá pra ser vegetariano e perfeitamente saudável, inclusive durante a gestação. No meu caso, precisei de suplementação de B12 por causa da gestação. Mas que gestante não faz suplementação de ácido fólico?

E acrescento que meu marido, vegetariano há 15 anos, aproveitou a deixa pra ir ao hemato também. O ácido fólico dele é absurdamente alto, o que corrobora a informação que li por aí de que gestantes vegetarianas que seguem uma dieta balanceada não precisariam de suplementação de ácido fólico. A B12 dele está normal. E ele não come ovo. Anemia também passou longe do exame dele, mas homem é covardia, né?

É verdade que quem adota a dieta vegetariana tem de tomar alguns cuidados; mas o mesmo vale pra quem tem uma dieta onívora. Se me preocupo com vitamina B12 e ferro, muita gente tem de cuidar do colesterol e da glicose. Não defendo que o vegetarianismo seja a melhor opção pra todos. Preciso apenas dizer que é uma opção saudável e responsável para qualquer pessoa – mesmo gestantes e crianças. E se alguém quiser tentar, vá atrás de informações e faça um acompanhamento como eu. É seguro.

10 comentários:

Nina Fiuza disse...

Menina, meu marido é vegetariano desde sempre. Meus sogros estavam numa dieta da moda no início dos anos oitenta... e minha sogra não comeu nada de carne durante toda a gestação dele. Meu marido nasceu e logo nos primeiros meses minha sogra desencanou da tal dieta. Bateu carne na papinha e quem disse que ele aceitou? Ela e a vó dele contam toda as estratégias e ele nunca, ninquinha aceitou nada de carne. Ele come ovo, toma leite... mas não come nem peixe. Hoje ele tem 26 anos, é alto, forte, saudável e super inteligente. Nunca teve nenhum problema de anemia.
Agora eu, que também nunca liguei pra carne, acabei ficando uns dois meses sem comer. Depois de um tempo comecei a ter tonturas, muita dor de cabeça... e tudo só passou depois que comi um bifão bem grande!
Portanto, tem que ser como vc falou: tem que pesquisar e fazer um acompanhamento, principalmente pra organismo que não tá acostumado com a ausência dessas vitaminas.
=)

Patricia disse...

Lia,
eu como pouquíssima carne, mais porque não gosto do que por outros motivos. Acho sua escolha saudável e segura. As pessoas mais cheias de saúde e longevas que conheço são vegetarianas ou semi-vegetarianas. A avó do meu marido, que tem 100 anos, é como você, só um peixe de vez em nunca. E tá aí, firme firme.
beijos

.justlow disse...

Achei seu blog no de uma amiga minha , amei !quero te seguir e quero q me siga , visite meu blog :]
Assim poderei compartilhar da sua vida atráves do blog vc da minha !
bjos espero vc lá ok
;*

Tchella disse...

ameiiii o post!
nunca gostei de carne vermelha nem peixe, frango mais ou menos... só se for peito, e eu souber quem preparou... sou meio nojentinha... hehe mas amooooooo ovo cozido e leite! nossa leite é quase 1 litro por dia.... meu nescauzinho sagrado hehehe

meu pai sempre dizia qdo eu era solteira que teria que comprar uma vaca pra me sustentar hahaha

amei teu post! hehehe

Ro Souza disse...

Oi, bem legal seu jeito de escrever. Adorei conhecer suas idéias. Temos muito em comum. Brasília, primeira gravidez, nada realmente pronto, fraldas de pano, ser mãe em 2010(serei em fevereiro). Tb sou praticamente vegetariana e estamos só de olho nas taxas mas por enquanto tudo tranquilo sem maiores alterações das q já se teria por estar grávida.
Ah, sim parabens tb pelo seu companheiro.
:)
http://roshouse.com.br

Mariana disse...

Lia, eu também estou grávida (agora com 26 semanas) e também sou vegetariana. Mas não como nem peixe. Só ovos e laticínios.
Te digo que compartilho contigo as mesmas angústias. Meu médico, no entanto, nunca deu a menor bola para minhas restrições alimentares. Nunquinha me mandou tomar nenhum suplemento até agora (somente ácido fólico no início da gestação). Meus exames sempre deram uma taxa mais baixa da série vermelha e mais alta da série branca - que ele classifica como normal em gestantes. Claro que eu capricho na alimentação e na combinação da comida(também tomo suco de couve, só que com laranja. Além de muita linhaça, grãos e castanha do pará).
Mas será que terei que tomar algum outro complemento? Fiquei um pouco preocupada...
beijos

Lia disse...

Oi, Mariana,
Não esquenta a cabeça, não. Se você tiver alguma inquietação quanto à B12, pede pro seu médico te pedir esse exame. Se as reservas estiverem baixas, você pode tomar essa vitamina por via injetável. Não dói nada e resolve o problema na hora (ah, e não há risco de hiperdosagem). Outra opção é tomar Nutren, Sustagem, esse tipo de coisa. Eles têm numa porção metade da necessidade diária de B12! E como eu disse no post: provavelmente você nem precisaria ter tomado ácido fólico (assim como eu). Os médicos receitam como procedimento de praxe. Se todo mundo fosse vegetariano, o procedimento padrão ia ser receitar B12 às gestantes.

Lia disse...

Ro, Adorei sua visita! Seu blog é lindo, pena que não consegui comentar lá!
Beijão!

Thatá disse...

Oi Lia!
Sempre leio seu blog e adorei ler este post aqui..Infelizmente eu só consegui ser vegetariana por 1 ano, daí engravidei e meus 2 obstetras me proibiram de me manter sem carne, mesmo com os suplementos. Como eu já tinha perdido minha primeira gestação, não arrisquei e voltei a comer, pouco, porque meu paladar já estava enojado, mas comi.
Hoje estou semi-vegetariana, pois ainda não consegui cortar os peixes..e até criei um blog sobre isso, onde pretendo escrever mais sobre o vegetarianismo.
Sugestão:Por que não escreve um blog sobre???Vc escreve tão bem, seria tão bom termos mais informações sobre o assunto, ainda mais vindo de uma mãe...
Mesmo não comendo carne, dou ao meu filho, pois tb não encontrei pediatra que apoiasse...vc vai contra as pediatras e só segue a nutricionista?Estou quase fazendo assim...Ou a pediatra aceita?
Grande beijo e fica com Deus!

Thatá disse...

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