sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Relato de parto da Ana

A cabeça dela na minha mão. “É tão pequena”, eu disse. Descia, voltava um pouco. Com umas três ou quatro forças, anunciei: “Nasceu a cabeça!”. A parteira pediu calma antes que eu continuasse fazendo força para fazer nascer o corpinho.

“Agora, o Rafael vai receber seu bebê”, disse a parteira. Eu, mesmo com o tronco voltado para frente, numa posição em que certamente ela sairia por trás, pensei: “Até parece”.

+++

Dia 24 de julho. Às vésperas de completar 39 semanas, começo a perder o tampão. É dia de consulta com a parteira. A cabeça do bebê ainda está flutuando, mas minhas filhas sempre nasceram dentro das 24h seguintes à perda do tampão.

Vamos todos jantar fora, Rafael, eu e as meninas. Chegamos em casa exaustos, e marido tem a brilhante ideia de assistir à final da Libertadores. Vou dormir. Levanto à meia-noite, ele ainda está na sala. Prorrogação, pênaltis, e não consigo dormir até que ele venha pra cama, já mais de meia-noite e meia.

Às 4h do dia 25, acordo com contrações intensas, a cada 8 minutos. Peço ajuda pro Rafael, que mal consegue se manter acordado. Me sinto sozinha, a cabeça cheia de coisas: precisamos encher a piscina, preciso que o Rafael pressione minhas costas, mas ele dorme. Ligo pra doula, pra amiga (que também é doula) que prometeu cuidar das meninas durante o TP e pra fotógrafa. Logo descubro que minhas parteiras estão atendendo outro parto, e que a doula oficial também terá de atender outra pessoa que estava, aparentemente, com o TP mais avançado. O sol nasce, e meu TP vai embora. Mando todo mundo embora. “Vão descansar, depois eu chamo vocês.”

Dia 25 de julho. O TP não foi embora de fato, continuo com contrações ritmadas, só que agora um pouco mais espaçadas. Acho que não fui mesmo feita pra parir de dia. Emília vai pra escola, Margarida dorme e Rafael e eu conseguimos dormir um pouco pela manhã. Recoloco as ideias no lugar, me acalmo. É uma chance de recomeçar.

Depois do almoço, vamos fazer um piquenique no parque com minha amiga doula, a filha dela e as minhas. Já sinto vontade de vocalizar durante as contrações, que ainda estão a cada 9 minutos mais ou menos.

Perto das 17h o cansaço começa a bater. Vamos pra casa, colocamos as meninas pra dormir bem cedinho, 19h.

Não consegui mais dormir de fato, mas deu pra descansar até umas 22h, quando, com as contrações já mais intensas e bem ritmadas, entrei no chuveiro, eu e a bola. Não acompanhei as horas, não cronometrei as contrações. Achei que estava na hora de chamar todo mundo e pedi pro marido ligar. Ele hesitou, não sabia se estava na hora mesmo, já que eu tinha tido um TP que foi embora, mas a parteira ouviu meu gemido pelo telefone e insistiu em vir logo.

Lá pelas 22h30, 23h eu acho, estavam todas aqui – parteira, parteira auxiliar, amiga-doula-babá e a fotógrafa, que chegou um pouco depois das outras. Minha doula oficial não pôde vir, estava em outro parto; mas como eu tinha mais duas doulas em casa (a fotógrafa também era doula), não foi problema. Aliás, disseram que eu não precisava de doula nenhuma. Se ocuparam com a piscina enquanto eu permanecia sozinha no chuveiro.

Estava tudo muito fácil. Eu cantava, como fiz no parto da Margarida, mas desta vez consegui continuar cantando por muito mais tempo. Eram músicas de louvor ao meu Deus. Às vezes mesmo durante as contrações eu conseguia continuar cantando, claro que com uma entonação bem diferente. Às vezes eu parava de cantar e vocalizava um gemido longo. Gritar, eu não gritava. Também não precisava de ninguém pra me ajudar com a dor (que nem dava pra chamar efetivamente de dor, tão bem eu a estava administrando). Convidei o Rafael pra entrar no box mais pra me fazer companhia (ou para que eu fizesse companhia a ele). Conversávamos, ríamos, era bom. Quando a coisa começou a apertar um pouco mais, pedi que ficasse atrás de mim, pressionando minhas costas. “Mas sem interromper o fluxo de água do chuveiro, viu?”

De repente, comecei a urrar e fazer força. Assim, naturalmente, sem que eu tivesse tido aquela sensação de que não ia acabar nunca, sem que eu me sentisse cansada. Não me senti cansada em nenhum momento durante este parto – diferente de quando Margarida nasceu, quando eu tive de deitar entre as contrações; e bem diferente de quando Emília nasceu e eu quase apaguei no expulsivo. “A piscina já está pronta?”, perguntei. Estava. Me enrolaram num roupão, perguntaram onde estavam meus chinelos. “No tanque. Estão imundos de terra, por causa do passeio de hoje à tarde.” Fui até a sala descalça mesmo, meu piso é de madeira, aconchegante.

A água estava uma delícia, mas não era funda como eu esperava. O que me deu de alívio foi uma pausa um pouco maior entre uma contração e outra, mas não por muito tempo. Era a hora de pirar. “Ai, agora tá doendo!”.

Essa parte foi insana. Clamei pelo sangue de Jesus, pedi a Deus que não me deixasse só. Pensei – só pensei: “Onde eu fui amarrar minha égua? Cadê minha cesárea?”. No meio disso tudo, a piscina furou, a água começou a vazar, todos tentando resolver a questão, inclusive o Rafael. “Ei, tem gente demais resolvendo isso! Vem alguém aqui ficar comigo!”. Marido obedeceu. Entre as contrações (se é que existia entre as contrações) ele procurava outra posição que não fosse atrás de mim: “NÃO TIRA AS MÃOS DAS MINHAS COSTAS! É pra ficar com as mãos aí o tempo todo!”. Marido obedeceu.

Daí já surtando, perguntei pra parteira: “Cadê esse bebê?”. “Olha aí”, ela respondeu. Cabe notar que, como no parto da Margarida, não tive nenhum exame de toque. Eu sabia que o bebê estava baixinho pela posição do coração na ausculta, quase na minha sínfise púbica. Mas não sabia sequer se eu já estava totalmente dilatada. Coloquei dois dedos lá embaixo, e quando estava no segundo nó dos dedos senti uma coisa dura. “É a cabeça”. E aí eu não tirei mais a mão de lá, só queria fazer força e colocar meu bebê pra fora.

Daí comecei a senti uma coisa diferente, parecia um balãozinho partido em dois. Era a bolsa, que rompeu na minha mão. Com uma ou duas contrações, a cabeça já começava a sair. E assim como foi com minha segunda filha, eu mesma recebi minha caçula.

Momento para nunca mais esquecer. Seu corpo no meu, cheio de vérnix. “Deixa eu ver se é você mesma”. E ri. “Taíza, você errou!”. Era ela. Ana.

+++

Taíza, minha amiga-doula-babá, que no último trimestre da minha gestação começou a achar que era um menino, foi acordar as crianças. Emília, ferrada no sono. Margarida, acordadíssima e rindo na cama. Emília me apareceu com a maior cara de fascínio do mundo e cortou o cordão, como havíamos prometido que faria. E aí se seguiram aqueles momentos gostosíssimos do pós-parto imediato: sanduíche delicioso preparado pela parteira, avaliação gentil do bebê sobre um cobertorzinho aquecido, muito chamego nas filhas mais velhas. E na avaliação da mamãe ganhei de presente um períneo íntegro (ou levemente “ralado”, nas palavras da parteira auxiliar).

Aninha nasceu à 01h05 do dia 26 de julho de 2013, pesando 3,525kg e medindo 50cm.



Salmos 126

1. Quando o SENHOR restaurou a sorte de Sião, ficamos como quem sonha.
2. Então, a nossa boca se encheu de riso, e a nossa língua, de júbilo; então, entre as nações se dizia: Grandes coisas o SENHOR tem feito por eles.
3. Com efeito, grandes coisas fez o SENHOR por nós; por isso, estamos alegres.
4. Restaura, SENHOR, a nossa sorte, como as torrentes no Neguebe.
5. Os que com lágrimas semeiam com júbilo ceifarão.
6. Quem sai andando e chorando, enquanto semeia, voltará com júbilo, trazendo os seus feixes.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Parteira: profissão serviço

A diferença entre uma assistência obstétrica padrão e uma assistência humanizada está no coração. Médicos e médicas, enfermeiras obstetras e parteiras humanizados vão além de um mero acompanhamento clínico protocolar. Importa o relacionamento pessoal entre profissional de saúde e paciente, importam as experiências da família que está sendo acompanhada, importam não apenas os resultados clínicos do parto (se bem que esses tendem a ser bem melhores quando a assistência é humanizada), mas também a satisfação da mulher, do casal, do bebê, da família. E aí é impossível não falar em amor. Difícil misturar profissionalismo com amor, mas é o que é. E é o que funciona.

No dia seguinte ao parto, tive uma intercorrência que me assustou um pouco. Liguei pra minha parteira, ela veio na hora. Como estava na dúvida sobre o que era exatamente, ligou pra parteira auxiliar e pra minha médica. Tudo parecia bem, mas como eu tinha ficado nervosa, ela me ligou mais tarde pra ver como eu estava. No dia seguinte (ontem), minha médica me ligou e se ofereceu pra passar aqui e me ver. Minha médica acompanhou todo o meu pré-natal e ficou de sobreaviso caso eu precisasse ser transferida para o hospital. Mas não foi ela que assistiu meu parto, e não recebeu nada por isso. Ainda assim, veio voluntariamente me fazer uma visita domiciliar. Estava tudo bem, foi uma visita rápida, mas que fez toda a diferença para que eu ficasse tranquila. Profissionais humanizados se importam com a nossa tranquilidade.

Ontem estava pegando uma calcinha e lembrei da parteira auxiliar mexendo nas minhas gavetas e procurando "uma calcinha preta grande". Parteiras nos vestem, nos secam os cabelos, mexem na nossa gaveta de calcinha. Assim que Ana nasceu, tive fome. Minha parteira foi à geladeira e preparou um delicioso sanduíche pra mim. Eu me satisfaria com um pão com requeijão, mas ela preparou um sanduíche com salada e tofu, bem temperadinho.

São gestos, pequenos, mas significativos. No parto de uma amiga, soube que minha médica secou os óculos dela, que estavam molhados e embaçados pela água do chuveiro.

Óbvio que não preciso nem falar das doulas, cujo métier é justamente a ternura. Mas o que me impressiona nesses profissionais, médicos e parteiras, de formação científica, inteligentes, cautelosos, aptos para lidar com intercorrências, aptos a conduzir uma transferência para o hospital, no caso das parteiras, e a executar uma cirurgia salvadora, no caso dos médicos, é a sua humildade. Humildade para aprender com as gestantes que acompanham, crescer e mudar. Humildade para não se achar importante demais para "perder" seu tempo em uma visita a uma puérpera inquieta. Humildade para ajoelhar-se e calçar uma meia em uma parturiente, como um servo faria com sua Senhora. Humildade, enfim, para servir.

Dou graças a Deus pela assistência que tive e sigo tendo. É um privilégio sem tamanho. Estar cercada de amor durante a gestação, o nascimento e as primeiras semanas de um bebê é grande parte do que me deu coragem para chegar até aqui.

Obrigada a todas as pessoas que têm nos acompanhado, e que a graça de Deus recompense esse amor.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Nasceu Ana!

Salmos 126

1. Quando o SENHOR restaurou a sorte de Sião, ficamos como quem sonha.
2. Então, a nossa boca se encheu de riso, e a nossa língua, de júbilo; então, entre as nações se dizia: Grandes coisas o SENHOR tem feito por eles.
3. Com efeito, grandes coisas fez o SENHOR por nós; por isso, estamos alegres.
4. Restaura, SENHOR, a nossa sorte, como as torrentes no Neguebe.
5. Os que com lágrimas semeiam com júbilo ceifarão.
6. Quem sai andando e chorando, enquanto semeia, voltará com júbilo, trazendo os seus feixes.


Hoje, à 1h05, Deus nos deu Ana, um pequeno milagre. Nossa gratidão é imensa.

Obrigada a todos que oraram por nós e por esta criança. Que Deus nos torne dignos da tarefa que Ele nos confiou.

Lia, Rafael, Emília e Margarida (e agora, Ana).

(fotos e mais detalhes em breve)

segunda-feira, 20 de maio de 2013

As últimas de Emília

Da Margarida não vou falar porque passei manteiga nela, botei uma maçã na boca, assei no forno e comi na janta. Ô, mas que dá vontade...

Margarida ainda não fala, e Emília há tempos vem falando como adulto, então as pérolas têm rareado. Mas ultimamente ela soltou umas que eu tive de registrar.

Ela anda numa fase girlie total. Tudo rosa, só gosto de meninas, não gosto de meninos, mamãe, eu não gosto do papai porque ele é homem e coisa e tal. Daí ela me chega:

- Mamãe, quando eu crescer, vou casar com o fulano.
- Ah, é? O fulano lá da sua escolinha?
- É.
- Ele é legal, né?
- É.
- E me diga uma coisa: ele sabe que vai casar com você?
- Ele fala todo dia que gosta de mim.
- Ah, é? Que legal... ...mas então quer dizer que agora você também gosta dos meninos?
- Não, só do fulano.

+++

Margarida e Emília brigando pela garrafinha da Minnie. Na jogada, a garrafinha preterida - a da Moranguinho. Emília, com todos os argumentos do mundo, põe fim à discussão:

- Margarida, olha só. Você tem blusa da Minnie e chinelo da Minnie. Você tá toda vestida de Minnie. Eu não tenho nada da Minnie, só essa garrafinha. Então você vai ter que aprender a gostar da Moranguinho.

+++

Emília veste uma blusa com uma menininha estampada e uma flor de aplique, super amassada. Ela apalpa a flor e grita pra empregada:

- Ô fulanaaaaaa!
- Oi!
(e aí ela começa a falar com educação)
- Sabe, essa blusa, quando ela sujar e precisar lavar, aí você passa essa florzinha aqui, porque ela está meio fechadinha, olha.

Juro que não fui eu que mandei ela dizer isso.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Quando o vínculo acontece - Guest post

QUANDO O VÍNCULO ACONTECE
Respeito à espontaneidade do binômio mãe-bebê

Que cada mãe e cada bebê são únicos todos nós sabemos. Que a relação entre eles é algo espetacular, também.
Mas, mesmo trabalhando e convivendo intensamente com estas e outras questões relacionadas à maternidade, hoje me peguei refletindo profundamente sobre este espetacular relacionamento, e percebi o quanto que ele é cercado de mistérios.
Defendemos o vínculo espontâneo, o parto natural, o contato pele-a-pele desde o nascimento, o aleitamento materno, a criação com apego.
Levantamos a bandeira contra a cesareana desnecessária, o desmame precoce, a terceirização dos cuidados.
Entendemos que há muitos rituais e costumes impostos por nossa sociedade ocidental, utilitarista e materialista, e que estes costumes e rituais tiram a leveza e a espontaneidade da maternidade.
Entretanto, entre tantas certezas sobre o que é bom para a criação do vínculo e de um relacionamento saudável para a mãe e seu bebê, ainda restam muitos mistérios.
Quando este vínculo se forma é um deles.
Aliás, o grande mistério, nem é quando o vínculo se forma. É o que é normal.
O normal é ter uma mãe apaixonada por seu bebê ainda na barriga? Chamá-lo pelo nome, imaginar como ele será quando nascer, atribuir a ele, ainda feto, personalidade e especular reações intrauterinas?
Ou o normal é se apaixonar pelo bebê ao olhar para ele pela primeira vez? Naquele momento maravilhoso de “quase-transe”, quando, num passe de mágica, toda a dor do parto desaparece junto com um choro fino e a sensação tátil de um corpinho pele quente e úmido que é colocado sobre seu peito?
E se eu disser que não senti este tão-grande-maravilhoso-espetacular vínculo durante minha saudável gravidez nem durante meu tranquilo e espontâneo parto natural?
E se eu confessar que, nos primeiros dias e meses, o bebê era apenas um bebê que precisava de cuidados, de ser amamentado, limpo e embalado?
Por que o vínculo só veio depois?
Procurando por respostas, entre o consultório do meu terapeuta e minhas livrarias prediletas, encontrei muitas opiniões.
Há muito escrito sobre isto. Pediatras, educadores perinatais, psicólogos, mães e toda a espécie de curiosos escrevem sobre a maternidade. Blogs, então, são inúmeros. Aliás, depois de toda esta revolução blogosférica materna, é difícil não encontrar soluções para seus dilemas maternais.
Mas hoje, depois de uma profunda reflexão sobre os últimos eventos no relacionamento entre eu e ele, juntei os retalhos das idéias construídas entre idas e vindas às páginas dos best sellers maternos contemporâneos, e construí minha própria conclusão sobre este misterioso vínculo.
Olhando para meu bebê, e percebendo o olhar dele fixado em meus olhos, meu coração se acelerou. “Que coisa maravilhosa” – pensei. “É isto. É isto o vínculo. Como é bom sentir isto, como é bom se sentir apaixonada por um bebê!”  E então me senti uma completa idiota: “Como pude não sentir isto desde que o senti mexendo na minha barriga pela primeira vez?”
Hoje, meu bebê fez 11 meses. E é com saudosismo que me lembro de tantas emoções maravilhosas que ele me trouxe. E me orgulho de ter aberto minha vida para a maternidade. E de ter aceitado de peito aberto as situações inesperadas a que fui exposta, quando decidi ter filhos.
Quando decidi -- aliás, decidimos -- ter filhos, nos abrimos para a história que iria acontecer a partir daí. E ela aconteceu.
E hoje eu entendo que, a maneira como se formou o vínculo com nosso bebê de 11 meses, foi profundamente influenciada pelas situações acontecidas antes da chegada dele.
A gestação, parto e despedida de um bebê anencéfalo, dois meses antes de novamente engravidar de um bebê que, saudável, viveria mais que quarenta minutos, foi uma história verdadeira, que marcou nossos corações para sempre.
Bem, esta foi a minha história. Nossa história. A história do meu vínculo com meu bebê de 11 meses não poderia não ser influenciada pela história de meu vínculo com sua irmã mais velha, que partiu rapidamente minutos após ter nascido.
Assim como eu, cada mulher tem a sua própria história. Sua história de amores, de gênero, de prazeres e desprazeres. O vínculo? Este depende.
Depende de muita coisa.
Mas ele vem. Ah, se vem...
E nós, como agentes de apoio a mulheres nesta vivência fantástica da maternidade, o que mais podemos fazer, se não incentivar práticas saudáveis para a construção de uma relação mais afetiva, feliz e prazerosa entre mães e bebês?

Por Quésia Villamil.
Médica obstetra do Instituto Nascer.

Mãe de Esther Villamil, que teve anencefalia e viveu 40 minutos e Paulo Villamil, que teve apenas uma orelha torta e vive intensamente cada dia de seus 11 meses
.
Autora do livro "Os últimos quatro meses: Diário da gravidez de um bebê com anencefalia"

Belo Horizonte, 27 de abril de 2013.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Carros - mães de três ou mais, me ajudem!

Quem achava que mãe de terceira viagem sabia tudo, se enganou. Sempre existe um meandro desconhecido na maternidade, à medida que a prole vai aumentando. E o meandro em questão é o transporte.

Como colocar 3 cadeirinhas em um carro? Lembrando:

1) Ou o carro tem de ser largo o suficiente para que caibam as três cadeirinhas lado a lado (tenho um Logan e não cabe; meu sogro tem um Corolla, mais largo, e não cabe) ou tem de ter uma terceira fileira de bancos.
2) Tem de haver cinto de três pontos disponível para prender todas as cadeirinhas - o que não é o caso da maioria dos carros, que no meio só têm cinto abdominal.
3) No caso de carros com três fileiras de bancos, é necessário que sobre algum porta-malas, se não fica impossível viajar. A maioria é ou banco, ou porta-malas.
4) Ainda no caso de carros com três fileiras de bancos, a terceira fileira tem de ser acessível o suficiente pra gente colocar uma criança e afivelar o cinto.

Lembrando ainda que não estou trabalhando, logo não tenho grana pra bancar uma 4x4 cabine dupla. Tem de ser um carro que custe até R$60mil, no máximo.

Em agosto deste ano terei duas crianças em idade de cadeirinha e uma no bebê conforto. Quando o/a caçula for pra cadeirinha, Emília ainda terá 4 anos e meio, então ainda precisará usar a cadeirinha.

Até agora, me parece que a Dobló é a única opção, já que é o único carro que ainda fica com algum porta-malas quando colocamos os bancos adicionais. Mas se alguém tiver outra sugestão, please, me ajudem! Se não, só de Mercedão!




terça-feira, 19 de março de 2013

O que toda gestante deveria saber sobre a translucência nucal

Quando as pessoas conhecem minhas escolhas sobre pré-natal e parto - fazer só os exames necessários, não saber o sexo do bebê, ter o parto em casa -, muita gente supõe que, digamos, não cuido da minha gestação. Depois que Margarida nasceu, uma prima minha perguntou se fizemos tudo sozinhos (sem assistência). Nesta gravidez, já me perguntaram se eu tomei ácido fólico, se faço ecografia... até se estou tendo algum acompanhamento pré-natal já me perguntaram. Não fico brava, não - até porque grávida de 3a viagem já aprendeu a não se irritar com essas coisas. Mas existe um estereótipo sobre quem sai do esquemão.

Sou daquelas bem certinhas, que vai ao GO antes mesmo de engravidar e faz um checkup geral para ver se está tudo certo. Antes de liberar, tomei meu ácido fólico. Demorei a ter um diagnóstico de gravidez porque, sinceramente, não faria diferença nenhuma. Eu estava com todos os meus exames em dia, tomava ácido fólico, me alimentava bem, não bebia, não usava drogas, não praticava fisiculturismo. Então, fui empurrando o Beta com a barriga, quase que literalmente.

Choca um pouco as pessoas que eu só faça uma ecografia, a morfológica do 2o trimestre (com 22, 24 semanas, por aí). Mas garanto a vocês que não vou matar meu bebê por causa disso (e minha GO também garante). Ecografia não previne malformação fetal. Incrível, não é mesmo?

Existem, de praxe, três ecografias que são recomendadas para mulheres com uma gestação normal: aquela primeira, pra identificar se a gestação é tópica (dentro do útero) e estimar a idade gestacional; a translucência nucal; e a morfológica do 2o trimestre. Caso haja alguma indicação (sangramento, crescimento anormal da altura uterina, pouca movimentação fetal, etc.), poderão ser indicadas outras ecografias.

Por que eu faço a morfológica do 2o trimestre? Nessa idade gestacional, já pode ser verificado se o bebê tem alguma condição que requeira um atendimento especial no nascimento (uma malformação cardíaca, por exemplo). Isso melhora os resultados perinatais.

Por que não faço aquela eco no comecinho? Porque confio na minha DUM. Contudo, se alguém tiver ciclo irregular ou medo de uma gestação ectópica, é bom fazer.

E por que não faço a translucência? Agora, sentem, que lá vem a história.

Na minha primeira gestação, a médica me explicou (corretamente) que esse exame estimava a probabilidade de o bebê ter alguma síndrome cromossômica, embora não seja conclusivo. Eu perguntei: "E se tiver, o que eu vou fazer?" Ela disse: "nada, mas é bom pra ir se preparando". Aceitei o argumento e fiz. Deu normal.

Ocorre que, o que eu não sabia, é que esse exame é muito mais limitado do que eu pensava. Conheço três amigas próximas que tiveram translucência muito alterada e bebês normais. E o bebê da secretária da minha obstetra teve transluência normal e nasceu Down.

Tá, mas e daí? Não é só fazer outro exame pra confirmar?

A única maneira definitiva de saber se o bebê tem alguma síndrome cromossômica é fazendo um exame que se chama biópsia de vilo, ou amniocentese. Uma agulha é inserida na cavidade do útero para coletar uma amostra de líquido amniótico, a partir da qual será feito o cariótipo do bebê. Normal é 46XX ou 46XY (23 pares).

Estima-se que a amniocentese tenha uma taxa de morbidade fetal de 1%. Após o exame, a mulher tem de ficar alguns dias de repouso pra diminuir as chances de perda fetal.

Mas como eu sou muito louca e podicrê... eu jamais me submeteria a esse risco.

E tem mais. Convênio não paga. O SUS faz, mas demora um mês. Que tal esperar um mês pra saber se seu bebê vai nascer vivo? E isso depois que o delicadíssimo médico da ultra te disse que ele tem 1% de chance de sobreviver?

Mas, claro, você pode pagar. Para resultados em 30 dias, custa X. Para resultados em 15 dias, custa 2X. Para resultado em uma semana, custa 10X. É um mercado, e ninguém se dá conta.

"Mas eu fiz a TN, deu tudo normal...." Glória, glória, a da Emília também. Mas a da minha amiga não deu. E ela passou maus bocados nos 12 dias em que esperou o resultado da biópsia. Não vou entrar em detalhes para não expor a intimidade dela, mas não recomendo isso pra ninguém. E ela é só uma das três que eu citei.

E não nos esqueçamos do acompanhamento que vamos receber. Os médicos têm extrema dificuldade para lidar com mulheres que carregam fetos malformados. Decida carregar e parir um e veja a cara do seu obstetra. O apoio emocional nessas horas é muito escasso, especialmente vindo dos médicos. 

Os gráficos de resultados da translucência nucal são alimentados com dados de um banco mundial. A maioria dos fetos que apresentam translucência até 2,5mm são normais. Passando disso, vai aumentando a incidência de síndromes. Mas se 95% dos bebês com translucência 4mm, digamos, têm uma síndrome, o que isso significa pra uma mulher que teve este resultado? Nada, a não ser que ela faça a biópsia.

O que eu recomendo às grávidas:

- que se informem sobre a translucência nucal, e vejam o que significam seus resultados;
- que se informem sobre a biópsia de vilo e avaliem se estariam dispostas a passar por ela caso tenham uma translucência alterada.
- que pensem no que fariam caso tivessem um bebê sindrômico. Se aborto não é uma opção pra você, aí eu recomendaria fortemente que sequer começasse esse tipo de investigação.

Eu diria: só faça a TN se 1) você estiver disposta a passar pela biópsia de vilo e 2) se você é daquelas que precisa saber, ou se jamais levaria adiante uma gestação com um feto malformado.

E é por isso que eu não faço. Repetindo: ecografia não previne - nem corrige - malformação. Ecografia também dá (muito) resultado equivocado. E, finalmente: não sei se fomos preparadas pra lidar com esse tipo de dor numa esfera tão abstrata. Uma coisa é você ter um filho morto nos braços; outra é você ter uma barriga linda, um bebê que se mexe e cujo coração bate, e receber a notícia de que ele não vai viver. E que não há nada pra fazer a respeito.

Acredito na liberdade de escolha, uma escolha esclarecida e informada. O direito de saber, mas também o direito de não saber. Especialmente porque, neste caso, saber não vai salvar o feto.

E acredito também no acolhimento à mulher e à sua dor. É muito mais fácil receber de um médico um conselho para ler e se informar sobre as sídromes, junto com o contato para a clínica de aborto, que uma palavra de consolo ou de esperança.

E, por fim: um pouco mais de amor na nossa assistência obstétrica.

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