terça-feira, 16 de setembro de 2014

Einstein não fazia prova sábado

Sempre me antecipo. Gosto de conversar com adolescentes, porque logo (10 anos não são nada quando se tem filhos) minhas filhas serão adolescentes também. Outro dia peguei de conversa a filha de uma amiga. Está no segundo ano do ensino médio e faz prova todos os sábados.

- Quer dizer, tia. Quase todo sábado. No fim do período – ela me explicou: agora são cinco períodos de um mês e pouco, em vez dos quatro bimestres do meu tempo –, no fim do período a gente tem um sábado de folga.
- E pra quê isso, Mari?

- Ué, tia. É porque eles não querem cancelar a aula pra ter prova durante a semana.
- Mas pra quê tanta prova?

- É porque são cinco avaliações por ano. E são muitas matérias.
- Mas não dá pra colocar tudo num sábado só por mês?

- Não tia! A gente só consegue fazer três provas de cada vez.
- Sinceramente, Mari... você acha que precisa disso?

- Não, tia. Não precisa.

Mariana é boa aluna, alegre, responsável. Vai à igreja todos os domingos de manhã, de modo que não tem uma manhã sequer livre para, sei lá, ir ao clube, dormir até mais tarde, tomar a fresca.

Quando cursei o ensino médio, minhas aulas começavam às 7h15 e iam até 12h45. Agora eles entram às 7h e saem às 13h, com a diferença que têm dois intervalos de 15min em vez de um só. De todos os modos, o período diário cresceu em 15min. “Isso quando não tem o sétimo horário, tia!”. Todas as semanas eles têm um dia com horário estendido.

Fico me perguntando qual o objetivo de tudo isso. Einstein não fazia prova sábado. Einstein não estudava em escola bilíngue. Einstein não foi alfabetizado aos 4 anos de idade.
Quais os resultado de uma carga horária de estudos sempre crescente? Os jovens estão ficando mais inteligentes? Mais humanos? Mais preparados para lidar com os problemas sociais que vão estourar nas suas mãos? Aptos a desenvolverem mecanismos para a sustentabilidade do planeta? Para que tenhamos água daqui a 20 anos? Aptos a construírem um país menos desigual, menos violento, menos injusto?

Nada me convence de que essa corrida escolar não é senão um estapeamento coletivo pra ver quem chega primeiro. Seu filho tem te estudar na escola X, com a maior carga horária da cidade, para não ficar pra trás. Para ter um emprego melhor, para ter sucesso pessoal, para ter dinheiro. Não existe qualquer preocupação com a coletividade, com o jovem enquanto um servidor social, um colaborador ativo na construção de uma sociedade livre, pacífica e justa.
Fazer prova todo sábado serve somente (se é que serve) a mim, enquanto adversário do outro. Quem estudar mais, passa.

É urgente questionar, mais uma vez, nosso sistema escolar. É urgente visitarmos a nós mesmos e sondarmos as motivações que nos levam a escolher esta ou aquela atividade para os nossos filhos. Não digo que haja opções; nem sempre as há. E pode ser que, daqui a dez anos, minhas filhas estejam todas fazendo prova aos sábados. Mas que eu não desista de ensinar a elas, todos os dias, que não estamos aqui para nós mesmos, e que não somos ninguém senão na nossa relação com o outro.

Isso nunca é cedo pra ensinar.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Discutindo a formação de leitores: onde estão as mães?

Estudando para minha dissertação, estive analisando a última edição da pesquisa Retratos da Leitura do Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro. O dado que mais me chamou a atenção foi que, pela primeira vez, as mães deixaram de ser a figura mais influente nos hábitos de leitura dos indivíduos, tendo sido superadas pelos professores.

Não se aprende mais a ler em casa. Ler, não no sentido de ser alfabetizado, de decifrar uma sequência de códigos gráficos; mas de tornar-se leitor, leitor de literatura, da "arte das palavras", como define Ana Maria Machado.

Quando saem da escola, conclui a pesquisa, os jovens param de ler. Ou passam a ler muito menos, sobretudo quando falamos em literatura. Sobrevive apenas a leitura de jornais, revistas e internet. Quando não tem ninguém mais mandando ler, não se lê mais.

Interessante que, mesmo com essa conclusão, a maior parte dos especialistas que comentam a pesquisa menciona que seus resultados são muito importantes para conduzir políticas públicas e para auxiliar professores e gestores de escolas a delinear projetos para a penetração da leitura do Brasil. E as mães, onde estão?

Claro, se olharmos para o país pelo nível macro, veremos todas as questões decorrentes do desequilíbrio de renda e da precariedade econômica de muitas famílias. Mães que trabalham fora o dia todo, que estão cada vez menos em contato com as crianças e que têm pouca relação com os livros.

Mas parece que as mães não têm nada a ver com isso. Que são apenas uma vítima do sistema. E que, portanto, não são um caminho relevante para que enfrentemos o problema do baixo número de leitores no Brasil. É claro que existem iniciativas nesse sentido, como o programa "Mãe, lê pra mim", que distribuiu em São Paulo 4 mil livros para mães em comunidades carentes. E nós mães blogueiras também conhecemos o programa do Itaú Cultural que tem distribuído há alguns anos livros infantis para qualquer um que se cadastrar no programa.

Mas penso que seja a hora de convocar as mães a fazerem algo por seus filhos, por suas famílias, sem esperar que o Governo ou a escola façam por ela. Porque estamos incorporando a ideia de que o papel de criar nas crianças o "hábito" da leitura é da escola. E não é. É meu. É da mãe, é do pai, é da vó, é da família. Não faltam livros; as bibliotecas públicas estão nos municípios mais remotos, o acervo do PNBE é absolutamente espetacular. Faltam mediadores que tenham gosto pelo livro.

O comediante Louis C.K., na série Louie, faz uma piada aparentemente de péssimo gosto em uma reunião de pais e mestres em que se discute uma crise na escola, e o que fazer para melhorar a instituição. Ele não entende o rebuliço e comenta: "School is supposed to suck". Claro, uma afronta a todos os pais e educadores que têm lutado por um ambiente escolar prazeroso, criativo e livre para nossas crianças.

Mas a piada traz algo de importante para nossa reflexão: queiramos ou não, a escola está historicamente associada à obrigação, ao dever, enquanto que o lar dá a ideia de prazer, de liberdade, de lazer. Por menos tradicional que seja a escola, ali os deveres são mais frequentes que em casa. Por mais que se goste da escola, existem horários, existem obrigações, existe um esforço maior do que o que é exigido no seio da família. E aí está o pulo do gato.

Embora a escola tenha um papel importantíssimo em cultivar o hábito da leitura, é muito mais difícil para ela desenvolver o gosto pela leitura que para uma mãe. A leitura no colo, com atenção individual que os professores dificilmente podem dar, com tempo para a contemplação, para a pausa, para a repetição, encontra ambiente muito mais favorável em casa.

Mas é necessário que a mãe esteja lá. Que haja tempo, muito tempo. E se isso é uma questão social, política, econômica, também é uma questão individual, das minhas decisões, da minha vontade, do que estou disposta a abrir mão para estar com meus filhos. E se para a população carente o buraco é mais embaixo, eu não tenho desculpa.

A leitura de livros em papel me parece uma tradição que está se perdendo. Embora estejamos falando da palavra escrita, a leitura começa como parte da tradição oral, da contação de histórias, da leitura em voz alta antes de dormir. É algo que tem de ser passado de geração em geração, no seio da família.

Essa tarefa tem sido delegada para a escola, que tem se mostrado incapaz de fazer resistência aos apelos mercadológicos das propostas passivas de estímulo aos alunos, menos desafiadoras e mais aquietadoras das numerosas crianças em sala de aula. É necessário trazer a leitura também para fora da escola, como parte da rotina de lazer, do tempo livre. É necessário resgatar o prazer da leitura compartilhada, humana, o lado relacional da leitura.

Só aí se criarão memórias afetivas fortes o suficientes para sustentar a leitura individual, silenciosa, contemplativa, sem hipertextos, botões ou luzes.



quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Ela vai dormir fora

Uma mala pequena e jeitosa, com uma fita cor-de-rosa atada à alça. Embalo em sacos transparentes os conjuntos de roupas que ela mesma escolheu. As roupas de frio tiveram de ir em outros sacos, maiores, todos cor-de-rosa. Ela vai saber, as roupas de frio nos sacos rosas. Tudo identificado com marcador permanente.

Todos os anos, a igreja promove um "acampadentro" para as crianças a partir de cinco anos. Chegam sexta à noite e ficam até domingo de manhã, duas noites amontoados em colchões no chão, dormindo tarde, comendo cachorro-quente e crescendo na fé. Cinco anos, só ano que vem. Mas achei que Emília poderia aproveitar a programação diurna.

- Posso trazê-la durante o dia, para ela participar de algumas atividades?
- Não é bom que as crianças fiquem chegando e saindo...

Murchei. Só ano que vem então.

- ...mas você pode inscrevê-la. Ela fica, não fica?

Inscrevê-la? Para dormir e tudo? Mas ela ainda não tem cinco anos...

- Outras crianças da idade dela vão participar também.

Ora, claro que ela fica. Foi só olhar pra ela, que me acompanhava. Os olhos brilhando, o sorriso de orelha a orelha, e a cabeça subindo e descendo, fazendo que sim. Eu disse que ia pensar.

Não precisei de muito tempo para decidir. Mando um feijão para substituir o estrogonofe, o cachorro-quente ela já está acostumada a comer sem a salsicha. E a hora de dormir... bem... domingo ela capota às 19h. Resolvido, ela vai.

Desde então, contagem regressiva. Faltam três dias para o acampadentro! Dois dias! E é amanhã.

Fecho a mala, tão linda, tudo organizado de modo que ela possa se virar - que ela sabe se virar. O potinho com X para xampu, com C para condicionador. Duas toalhas, uma para o chuveiro e outra para o banho de mangueira. Pantufas para não sujar as meias na hora de dormir. E nem precisa de mais recomendações.

Beijo na mamãe e até domingo!

terça-feira, 27 de maio de 2014

Alfabetização precoce: qual o problema?

Esta semana topei com um texto que muito me emocionou, do escritor, ilustrador e pesquisador Ricardo Azevedo. Azevedo conta suas primeiras experiências literárias, não com textos escritos, mas com imagens. Eram livros que ele encontrava na estante dos pais e folheava, bebendo daquelas imagens, sem compreender nada daquelas letras, ainda indecifráveis, que acompanhavam as ilustrações.

As imagens ficaram em suas lembranças, indeléveis. Pensando bem, talvez eu também tenha gravadas na memória muito mais lembranças visuais que verbais ou sonoras. Se tento me lembrar de uma frase, um verso de um poema, qualquer coisa textual que me tenha marcado na primeira infância, nada me vem que não tenha sido repetido muitas e muitas vezes ao longo da vida.

Cheiros, lembro também dos cheiros. O cheiro de esgoto e peixe podre que tem Fortaleza. Não tinha quatro anos completos quando saí de lá, mas guardo alguns quadros. A casa e seus espaços, as colunas redondas, as camas de alvenaria pintadas de verde. A vez em que quis tirar uma foto de dentro de um cesto de peixe, e o odor que me fez mudar de ideia assim que entrei.

As palavras, os sotaques, se foram. Talvez acabem aparecendo por aqui, ou revivendo quando trato com minhas filhas.

Ao ler o depoimento de Azevedo, pensei: "ele se lembra tão bem dessas imagens! Quantos anos será que tinha?" Não podia ser uma criança tão pequena, pra guardar uma memória tão viva. Azevedo se lembra de quando ainda não sabia ler.

Então algo estalou em mim. A partir do momento em que lemos as palavras, não lemos mais as imagens da mesma forma. Não precisamos mais adivinhar a história que as ilustrações contam. E não precisamos mais perguntar, buscar o adulto, aquele mediador que torna a leitura afetuosa. Quanto antes a criança lê sozinha, antes ela se liberta da leitura compartilhada. Bastante conveniente num tempo em que tudo o que queremos é que as crianças dispensem nossa assistência o quanto antes.

E pensei que gostaria que minhas filhas se lembrassem dos dias em que eram analfabetas. Que em seu analfabetismo, aprendam a ler as imagens. Que não as vejam apenas como decoração, mas apreendam seu potencial estético e narrativo. Que as imagens ainda emocionem. Ainda contem, ainda provoquem.


E pensei que gostaria que minhas filhas se lembrassem dos dias em que eu lia por elas. Que guardassem em suas células a música da minha voz, o calor do meu colo, o odor da minha respiração.

Elas terão toda a vida para lerem sozinhas os códigos da nossa escrita. Que, por enquanto, sejam ágrafas. E sejam todas sentidos: olhos para fotografar, ouvidos para beber o som, pele para sentir o outro, nariz para aspirar minha voz, e boca para perguntar. 

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Relato de parto da Ana

A cabeça dela na minha mão. “É tão pequena”, eu disse. Descia, voltava um pouco. Com umas três ou quatro forças, anunciei: “Nasceu a cabeça!”. A parteira pediu calma antes que eu continuasse fazendo força para fazer nascer o corpinho.

“Agora, o Rafael vai receber seu bebê”, disse a parteira. Eu, mesmo com o tronco voltado para frente, numa posição em que certamente ela sairia por trás, pensei: “Até parece”.

+++

Dia 24 de julho. Às vésperas de completar 39 semanas, começo a perder o tampão. É dia de consulta com a parteira. A cabeça do bebê ainda está flutuando, mas minhas filhas sempre nasceram dentro das 24h seguintes à perda do tampão.

Vamos todos jantar fora, Rafael, eu e as meninas. Chegamos em casa exaustos, e marido tem a brilhante ideia de assistir à final da Libertadores. Vou dormir. Levanto à meia-noite, ele ainda está na sala. Prorrogação, pênaltis, e não consigo dormir até que ele venha pra cama, já mais de meia-noite e meia.

Às 4h do dia 25, acordo com contrações intensas, a cada 8 minutos. Peço ajuda pro Rafael, que mal consegue se manter acordado. Me sinto sozinha, a cabeça cheia de coisas: precisamos encher a piscina, preciso que o Rafael pressione minhas costas, mas ele dorme. Ligo pra doula, pra amiga (que também é doula) que prometeu cuidar das meninas durante o TP e pra fotógrafa. Logo descubro que minhas parteiras estão atendendo outro parto, e que a doula oficial também terá de atender outra pessoa que estava, aparentemente, com o TP mais avançado. O sol nasce, e meu TP vai embora. Mando todo mundo embora. “Vão descansar, depois eu chamo vocês.”

Dia 25 de julho. O TP não foi embora de fato, continuo com contrações ritmadas, só que agora um pouco mais espaçadas. Acho que não fui mesmo feita pra parir de dia. Emília vai pra escola, Margarida dorme e Rafael e eu conseguimos dormir um pouco pela manhã. Recoloco as ideias no lugar, me acalmo. É uma chance de recomeçar.

Depois do almoço, vamos fazer um piquenique no parque com minha amiga doula, a filha dela e as minhas. Já sinto vontade de vocalizar durante as contrações, que ainda estão a cada 9 minutos mais ou menos.

Perto das 17h o cansaço começa a bater. Vamos pra casa, colocamos as meninas pra dormir bem cedinho, 19h.

Não consegui mais dormir de fato, mas deu pra descansar até umas 22h, quando, com as contrações já mais intensas e bem ritmadas, entrei no chuveiro, eu e a bola. Não acompanhei as horas, não cronometrei as contrações. Achei que estava na hora de chamar todo mundo e pedi pro marido ligar. Ele hesitou, não sabia se estava na hora mesmo, já que eu tinha tido um TP que foi embora, mas a parteira ouviu meu gemido pelo telefone e insistiu em vir logo.

Lá pelas 22h30, 23h eu acho, estavam todas aqui – parteira, parteira auxiliar, amiga-doula-babá e a fotógrafa, que chegou um pouco depois das outras. Minha doula oficial não pôde vir, estava em outro parto; mas como eu tinha mais duas doulas em casa (a fotógrafa também era doula), não foi problema. Aliás, disseram que eu não precisava de doula nenhuma. Se ocuparam com a piscina enquanto eu permanecia sozinha no chuveiro.

Estava tudo muito fácil. Eu cantava, como fiz no parto da Margarida, mas desta vez consegui continuar cantando por muito mais tempo. Eram músicas de louvor ao meu Deus. Às vezes mesmo durante as contrações eu conseguia continuar cantando, claro que com uma entonação bem diferente. Às vezes eu parava de cantar e vocalizava um gemido longo. Gritar, eu não gritava. Também não precisava de ninguém pra me ajudar com a dor (que nem dava pra chamar efetivamente de dor, tão bem eu a estava administrando). Convidei o Rafael pra entrar no box mais pra me fazer companhia (ou para que eu fizesse companhia a ele). Conversávamos, ríamos, era bom. Quando a coisa começou a apertar um pouco mais, pedi que ficasse atrás de mim, pressionando minhas costas. “Mas sem interromper o fluxo de água do chuveiro, viu?”

De repente, comecei a urrar e fazer força. Assim, naturalmente, sem que eu tivesse tido aquela sensação de que não ia acabar nunca, sem que eu me sentisse cansada. Não me senti cansada em nenhum momento durante este parto – diferente de quando Margarida nasceu, quando eu tive de deitar entre as contrações; e bem diferente de quando Emília nasceu e eu quase apaguei no expulsivo. “A piscina já está pronta?”, perguntei. Estava. Me enrolaram num roupão, perguntaram onde estavam meus chinelos. “No tanque. Estão imundos de terra, por causa do passeio de hoje à tarde.” Fui até a sala descalça mesmo, meu piso é de madeira, aconchegante.

A água estava uma delícia, mas não era funda como eu esperava. O que me deu de alívio foi uma pausa um pouco maior entre uma contração e outra, mas não por muito tempo. Era a hora de pirar. “Ai, agora tá doendo!”.

Essa parte foi insana. Clamei pelo sangue de Jesus, pedi a Deus que não me deixasse só. Pensei – só pensei: “Onde eu fui amarrar minha égua? Cadê minha cesárea?”. No meio disso tudo, a piscina furou, a água começou a vazar, todos tentando resolver a questão, inclusive o Rafael. “Ei, tem gente demais resolvendo isso! Vem alguém aqui ficar comigo!”. Marido obedeceu. Entre as contrações (se é que existia entre as contrações) ele procurava outra posição que não fosse atrás de mim: “NÃO TIRA AS MÃOS DAS MINHAS COSTAS! É pra ficar com as mãos aí o tempo todo!”. Marido obedeceu.

Daí já surtando, perguntei pra parteira: “Cadê esse bebê?”. “Olha aí”, ela respondeu. Cabe notar que, como no parto da Margarida, não tive nenhum exame de toque. Eu sabia que o bebê estava baixinho pela posição do coração na ausculta, quase na minha sínfise púbica. Mas não sabia sequer se eu já estava totalmente dilatada. Coloquei dois dedos lá embaixo, e quando estava no segundo nó dos dedos senti uma coisa dura. “É a cabeça”. E aí eu não tirei mais a mão de lá, só queria fazer força e colocar meu bebê pra fora.

Daí comecei a senti uma coisa diferente, parecia um balãozinho partido em dois. Era a bolsa, que rompeu na minha mão. Com uma ou duas contrações, a cabeça já começava a sair. E assim como foi com minha segunda filha, eu mesma recebi minha caçula.

Momento para nunca mais esquecer. Seu corpo no meu, cheio de vérnix. “Deixa eu ver se é você mesma”. E ri. “Taíza, você errou!”. Era ela. Ana.

+++

Taíza, minha amiga-doula-babá, que no último trimestre da minha gestação começou a achar que era um menino, foi acordar as crianças. Emília, ferrada no sono. Margarida, acordadíssima e rindo na cama. Emília me apareceu com a maior cara de fascínio do mundo e cortou o cordão, como havíamos prometido que faria. E aí se seguiram aqueles momentos gostosíssimos do pós-parto imediato: sanduíche delicioso preparado pela parteira, avaliação gentil do bebê sobre um cobertorzinho aquecido, muito chamego nas filhas mais velhas. E na avaliação da mamãe ganhei de presente um períneo íntegro (ou levemente “ralado”, nas palavras da parteira auxiliar).

Aninha nasceu à 01h05 do dia 26 de julho de 2013, pesando 3,525kg e medindo 50cm.



Salmos 126

1. Quando o SENHOR restaurou a sorte de Sião, ficamos como quem sonha.
2. Então, a nossa boca se encheu de riso, e a nossa língua, de júbilo; então, entre as nações se dizia: Grandes coisas o SENHOR tem feito por eles.
3. Com efeito, grandes coisas fez o SENHOR por nós; por isso, estamos alegres.
4. Restaura, SENHOR, a nossa sorte, como as torrentes no Neguebe.
5. Os que com lágrimas semeiam com júbilo ceifarão.
6. Quem sai andando e chorando, enquanto semeia, voltará com júbilo, trazendo os seus feixes.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Parteira: profissão serviço

A diferença entre uma assistência obstétrica padrão e uma assistência humanizada está no coração. Médicos e médicas, enfermeiras obstetras e parteiras humanizados vão além de um mero acompanhamento clínico protocolar. Importa o relacionamento pessoal entre profissional de saúde e paciente, importam as experiências da família que está sendo acompanhada, importam não apenas os resultados clínicos do parto (se bem que esses tendem a ser bem melhores quando a assistência é humanizada), mas também a satisfação da mulher, do casal, do bebê, da família. E aí é impossível não falar em amor. Difícil misturar profissionalismo com amor, mas é o que é. E é o que funciona.

No dia seguinte ao parto, tive uma intercorrência que me assustou um pouco. Liguei pra minha parteira, ela veio na hora. Como estava na dúvida sobre o que era exatamente, ligou pra parteira auxiliar e pra minha médica. Tudo parecia bem, mas como eu tinha ficado nervosa, ela me ligou mais tarde pra ver como eu estava. No dia seguinte (ontem), minha médica me ligou e se ofereceu pra passar aqui e me ver. Minha médica acompanhou todo o meu pré-natal e ficou de sobreaviso caso eu precisasse ser transferida para o hospital. Mas não foi ela que assistiu meu parto, e não recebeu nada por isso. Ainda assim, veio voluntariamente me fazer uma visita domiciliar. Estava tudo bem, foi uma visita rápida, mas que fez toda a diferença para que eu ficasse tranquila. Profissionais humanizados se importam com a nossa tranquilidade.

Ontem estava pegando uma calcinha e lembrei da parteira auxiliar mexendo nas minhas gavetas e procurando "uma calcinha preta grande". Parteiras nos vestem, nos secam os cabelos, mexem na nossa gaveta de calcinha. Assim que Ana nasceu, tive fome. Minha parteira foi à geladeira e preparou um delicioso sanduíche pra mim. Eu me satisfaria com um pão com requeijão, mas ela preparou um sanduíche com salada e tofu, bem temperadinho.

São gestos, pequenos, mas significativos. No parto de uma amiga, soube que minha médica secou os óculos dela, que estavam molhados e embaçados pela água do chuveiro.

Óbvio que não preciso nem falar das doulas, cujo métier é justamente a ternura. Mas o que me impressiona nesses profissionais, médicos e parteiras, de formação científica, inteligentes, cautelosos, aptos para lidar com intercorrências, aptos a conduzir uma transferência para o hospital, no caso das parteiras, e a executar uma cirurgia salvadora, no caso dos médicos, é a sua humildade. Humildade para aprender com as gestantes que acompanham, crescer e mudar. Humildade para não se achar importante demais para "perder" seu tempo em uma visita a uma puérpera inquieta. Humildade para ajoelhar-se e calçar uma meia em uma parturiente, como um servo faria com sua Senhora. Humildade, enfim, para servir.

Dou graças a Deus pela assistência que tive e sigo tendo. É um privilégio sem tamanho. Estar cercada de amor durante a gestação, o nascimento e as primeiras semanas de um bebê é grande parte do que me deu coragem para chegar até aqui.

Obrigada a todas as pessoas que têm nos acompanhado, e que a graça de Deus recompense esse amor.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Nasceu Ana!

Salmos 126

1. Quando o SENHOR restaurou a sorte de Sião, ficamos como quem sonha.
2. Então, a nossa boca se encheu de riso, e a nossa língua, de júbilo; então, entre as nações se dizia: Grandes coisas o SENHOR tem feito por eles.
3. Com efeito, grandes coisas fez o SENHOR por nós; por isso, estamos alegres.
4. Restaura, SENHOR, a nossa sorte, como as torrentes no Neguebe.
5. Os que com lágrimas semeiam com júbilo ceifarão.
6. Quem sai andando e chorando, enquanto semeia, voltará com júbilo, trazendo os seus feixes.


Hoje, à 1h05, Deus nos deu Ana, um pequeno milagre. Nossa gratidão é imensa.

Obrigada a todos que oraram por nós e por esta criança. Que Deus nos torne dignos da tarefa que Ele nos confiou.

Lia, Rafael, Emília e Margarida (e agora, Ana).

(fotos e mais detalhes em breve)

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