sábado, 31 de dezembro de 2011

Em vez de feliz ano novo, simplesmente boa noite

Pela segunda vez desde que me entendo por gente, passarei o ano novo dormindo. Assim que acabar de escrever este post, vou escovar os dentes, me deitar e só acordar em 2012 com Margarida resmungando no berço. Sim, porque, assim como no ano passado, os fogos da meia-noite não me acordarão. E viva o ouvido seletivo!

Ano passado eu tinha um bom motivo pra virar o ano adormecida. Este ano, tenho dois.

Se eu fosse supersticiosa, em vez de calcinha colorida pra dar sorte, recomendaria a todas vocês que passassem o ano novo na cama. Porque 2011 foi porreta demais.

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E pra fechar 2011, as últimas da boneca falante.

Depois de acordar da soneca da tarde, com o cabelo todo desgrenhado e uma cara de pouquíssimos amigos. Emília vê então Margarida no tapete, dá-lhe um beijo e um carinho e solta: - Madarida, você tá bunita dimais!

Em frente ao parquinho, eu e Rafael sentados no banco e ela sai andando por aí. Rafael vai atrás:
- Não, papai! Fita aí nu banto tom a mamãe (fica aí no banco com a mamãe). Vô toprá toisas. (Vou comprar coisas).
Ela segue andando, e o Rafael continua atrás:
- Não, papai! Fita aí tom a mamãe! Eu já volto.

Na loja de brinquedos, ela pega um brinquedinho de bebê da estante e oferece à irmã:
- Toma Madarida, Emi toprô pá você.

Ao ver um calendário que minha cunhada mandou fazer com a foto do meu sobrinho:
- Ti dacinha (que gracinha)! Adorei!

O Rafael é quem normalmente coloca Emília pra dormir. Quando ela pede pra ficar comigo, ele argumenta: "Pôxa, Emilinha, papai trabalhou o dia inteiro, está com saudades de você". Dia desses ela estava com ele e me queria:
- Mamãe voltô du tabaio, papai! Tá tum saudadi da Emília.

E hoje eu ia levá-la pro banho, quando Margarida começou a chorar.
- Emilinha, vou ter de ficar com a Margarida.
- Não, mamãe! A mamãe tomá banho junto a Emília!
- Emilinha, a Margarida precisa da mamãe.
- A Emília também picisa da mamãe.

Posso morrer?

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Estatuto do irmão mais velho e do irmão mais novo (e da mãe, né?)

Todo irmão mais velho tem direito a:

- ser carregado no colo de vez em quando;
- continuar mamando (se ele ainda mamava quando a mãe engravidou e se a mãe topa o desafio);
- ter regressões;
- explorar os brinquedos do bebê;
- ter um cantinho onde possa brincar e fazer barulho mesmo que o caçula esteja dormindo;
- beijar, abraçar, pegar no colo (se ele for grande o suficiente) e fazer carinho no irmão;
- ser ninado para dormir.

Todo irmão mais novo tem direito a:

- ser carregado no colo como se fosse filho único;
- mamar em livre demanda;
- brincar com os brinquedos do mais velho;
- ter um cantinho sossegado onde possa dormir enquanto o mais velho brinca;
- ser protegido dos carinhos mais estabanados do mais velho;
- ter pelo menos algumas coisinhas (roupas, brinquedos e utensílios) novas.

E a mãe de dois (ou mais) tem direito a:

- reaproveitar roupinhas, brinquedos, berço, bebê-conforto e outros itens do mais velho para o mais novo;
- atrasar o almoço do mais velho pra amamentar o mais novo;
- atrasar o banho do mais novo para alimentar o mais velho;
- atrasar o desfralde e o desmame do mais velho;
- deixar as crianças com o marido pra tirar uma soneca;
- E a melhor parte: comer muuuito doce. É pro leitinho das crianças.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Fofa

Uma das perguntas mais frequentes para uma recém-mãe-de-dois é: "Como o mais velho está reagindo?"

A reação mais esperada pela maioria é ciúmes. E muita gente me pergunta se Emília está com ciúmes. Minha resposta é: não, pelo contrário. Ela tem ciúmes, mas não de mim: da Margarida. Se uma criança chega perto do carrinho, ela esbraveja: "Não, é minha imãzinha!" Se um adulto pega Margarida no colo, Emília protesta: "Não podi pedá a Maida nu tolo, moça! Só a mamãe!".

Enquanto estou sozinha com as duas (durante as tardes), ela normalmente se comporta muito bem. Claro que tem aqueles dias de cão, mas eu diria que eles não chegam a 20%. Nos outros 80, ou talvez 90% do tempo, estamos bem tranquilas.

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Digo à Emília pra ir buscar um livro para lermos juntas. Enquanto ela corre pro quarto, Margarida começa a reclamar e esfregar os olhos. Deito na rede com ela para colocá-la pra dormir. Pouco depois chega Emília, com o livro na mão:

- A mamãe lê pá Emília.

Ela me olha e nem espera a resposta:

- Não. Emi lê sozinha. A mamãe tá tom a Maida. (Raaasga coração!).

Ela senta no chão, com o livro virado pra mim. Começa a fazer um gesto com as mãozinhas e cantar:

- Telelê, talalá, ximbum, xalalá. Hitoinha bunita vamo tontá. Olha só.

E começa a folhear o livro. Sozinha.

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Emília ainda mama, e uma das mamadas acontece de manhã, assim que ela acorda.

Dia desses Margarida acordou um pouco mais tarde que de costume e, quando Emília abriu os olhos, me viu dando o mamá pra Margarida na poltrona. Vi Emília sentada na cama e fiquei esperando como ela ia reagir.

Ela levantou, fez carinho na cabeça da Margarida, deu um beijo nela, sentou de novo e disse calmamente:

- Té mamá.
- Depois que a Margarida terminar, tá, meu amor?

Pediu mais umas duas vezes, sem choramingar, compreendeu e esperou.

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Fico estarrecida com a maturidade e a doçura de Emília. O único trabalho que ela tem dado recentemente é compartilhar os brinquedos. Está naquela fase de tudo é meu. Dia desses estava contando a história do Natal numa Bíblia para crianças e ela queria roubar a manjedoura do menino Jesus. "Pô favô, neném". Eu perguntei se ela ia dar a cama dela pro menino Jesus e obviamente ela disse que não.

Fora isso, de vez em quando ela apronta alguma para chamar a atenção: riscar a mesa com giz, beber a água do banho ou sentar no bouncer da Margarida. Mas isso rarissimamente acontece quando estou sozinha com as duas.

E é por isso que vivemos dizendo:

- Emília, você é linda!

E ela responde:

- Não, é fofa.
- Linda e fofa.
- Linda não. Só fofa.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

E ela continua falando...

Eu ou a vaca?

Toda vez que volta da creche, a primeira frase que Emília diz é "Té mamá pêto mamãe". Mas ontem foi diferente. Ela entrou pelo corredor pedindo:

- Té lêti di vata! Tê cial (cereal) lêti di vata!


Cabeleireira


Depois do banho, eu penteando os cabelos de Emília:

- Deixa eu pitinhá seu tabelo, mamãe.
...
- Tabelão!
...
- Tá bunita, mamãe!

(Se eu não tivesse Margarida pra cuidar, tinha ficado ali a noite toda... tava tão gostoso que eu quase dormi ali.)


Gorda?


Emília sem blusa, aperta uma dobrinha da barriga:

- Bãinha, mamãe!

Ainda se fosse a minha...


Não dá certo


Toda vez que Emília inventa uma moda maluca, a gente diz: "não dá certo".

Eu dando o mamá da Margarida, ela arrasta uma cadeirinha pra perto de mim, segurando um livro na outra mão:

- Té lê. Té lê sentada assim. - e senta com a barriga virada pro encosto. E conclui:

- Num dá ceto.


Feio?

Rafael vai buscar Emília na creche de camiseta e bermuda de skateiro. Emília olha praquilo e dá sua opinião mais sincera:

- Papai não tá bunito.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

marGarida

A roupa é a mesma. O pai e a mãe são os mesmos. Os peitos são os mesmos. Mas o tamanho, quanta diferença...

Emília com 10 meses e 10 dias:


Margarida com 2 meses e 19 dias:

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Pré-desfralde – uma lenta introdução à vida sem fraldas.

Se eu não conhecesse a experiência da Paloma, se não tivesse lido Carlos González e Laura Gutman e se não tivesse aprendido com a malsucedida introdução de alimentos à Emília a não ter pressa, talvez eu agora estivesse tentando desfraldá-la. E provavelmente estaria arrancando meus cabelos.

Recapitulando: Emília tem 1 ano e quase 11 meses e uma irmã que ainda não completou 3 meses. Ela frequenta a creche de manhã e à tarde eu fico sozinha com as duas. Momento nada oportuno para uma empreitada que promete muito chão molhado e roupas sujas.

Ocorre que, há algum tempo, Emília vem manifestando interesse pelo sanitário e pelo penico. Ela tem um livro, O que tem dentro da sua fralda?, que ela adora. No fim da história tem um monte de animaizinhos sentados no penico, e ela ficava batendo no livro loucamente e dizendo: “Tetê nito, tetê nito!” (sentar no penico. Hoje ela fala “té sentá no penito”). Eu perguntava pra ela se ela queria um penico e ela fazia que sim. Eu ainda estava grávida, e fui enrolando. Primeiro porque ela era muito nova; depois porque eu ia parir em breve. Além disso, os sinais que ela manifestava eram naturais da idade e não indicavam preparação pro desfralde.

Depois que Margarida nasceu, comentando com uma amiga sobre essa história, ela me ofereceu um penico emprestado. A intenção era só familiarizar Emília com o objeto. Mantivemos as fraldas, mas antes do banho, quando ela já estava pelada, perguntávamos se ela queria sentar no penico. Logo nos primeiros dias ela fez uns três cocôs e uns dois xixis, o que eu achei impressionante.

Mas não demorou muito e ela perdeu o interesse. Ficava sentada, não fazia nada, depois levantava e começava a zanzar pelada por aí. Se ela tinha vontade de fazer cocô, pedia pra pôr a fralda de novo. Daí liguei o alerta vermelho e nunca mais ofereci o penico ou o vaso (compramos também um redutor).

O tempo foi passando e, recentemente, ela tem pedido com frequência pra ficar sem fraldas. Eu nunca nego, especialmente porque acho bom que o bumbum respire um pouco. Eu falo pra ela me avisar se quiser fazer xixi ou cocô, mas eu sei que ela não vai avisar e que vai fazer xixi no chão mesmo. Mas eu deixo, porque a iniciativa de ficar “pilada” veio dela. No começo eu tinha um pouco de medo de ela não querer nem fazer as necessidades no lugar certo, nem recolocar as fraldas. Mas, não: ela normalmente faz xixi no chão uma vez, eu troco a calcinha, ela passa mais um bom tempo pelada, e quando quer fazer de novo, sempre pede “tê pô a fada di volta”. Nunca aconteceu de ela querer ficar cagando e andando o dia inteiro.

O que eu tenho percebido é que ela tem desenvolvido um controle bem maior dos esfíncteres. Às vezes ela passa duas, três horas com a mesma fralda e, quando eu vou tirar, está seca. Quando isso acontece antes do banho, eu faço xixi no box e sugiro: “quer fazer xixi junto com a mamãe?” E ela faz. Mesma coisa no número dois (não no box, obviamente). Eu digo que vou ao banheiro e ela diz: “Té i também!”. Daí ela me vê, se inspira e faz cocô também (ainda na fralda, mas já com um esforço voluntário).

Então eu diria que estamos numa fase de introdução ao desfralde, sem prazos, sem compromisso. Ela já conhece o penico e o vaso e já tem consciência de quando faz xixi ou cocô (ela sempre avisa quando faz cocô: “Emi tá di fofô. Té tatá a fada”). Quando vejo aquela carinha de quem tá fazendo algo, sempre pergunto: “Tá fazendo xixi?”. É pra reforçar a impressão que ela está tendo, pra que ela saiba que aquele quentinho molhado se chama xixi e que ela logo será capaz de controlá-lo.

Percebo que, aos poucos, ela começa a se incomodar com o fato de estar suja. Ela já não quer mais ficar com cocô no bumbum e parece estar preferindo fazer xixi no banho a fazê-lo na fralda (ela faz bastante xixi durante o dia, mas em intervalos cada vez maiores. E é bem comum ela fazer xixi no box assim que tira a fralda).

Estou tentando deixá-la o mais preparada possível antes de tirar as fraldas, de modo que eu não tenha muito estresse com acidentes. Porque com um bebê pequeno em casa, é complicado ficar o tempo todo limpando xixi e cocô por aí.

Na verdade, na verdade, cá entre nós: esse negócio de desfralde me dá preguiça só de pensar. Ficar o tempo todo perguntando se quer fazer xixi, se preocupar com a higiene de banheiros públicos... Acho que, quando ela não aguentar mais (ela já tira a fralda sozinha, e uma vez disse da descartável: “tá intomodando”), vou falar igual à Roberta: “Ah, não, filha... vai dar muito trabalho pra mamãe!”.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Pra quem quer ver minha cara...

Tem um videozinho meu lá na Colcha de Retalhos do Mamatraca, indicando livros pra crianças pequenas. Quem quiser conferir a dica, ou simplesmente ver como são a cara e a voz desta blogueira que vos escreve, passa lá.

O vídeo está lá desde sexta-feira, mas o tempo pra vir aqui avisar as leitoras, cadê? (ou, como diria Emília: Tadê?!?!?).

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

No sossego do lar - e sobre o medo

Muitos já conhecem o blog A Hora é Agora, projeto de conclusão do curso de Comunicação Social de duas estudantes da UFMG. Algumas mães blogueiras já deram sua contribuição, e agora foi a minha vez. Passem .

E como eu sou verborrágica e as meninas estão se formando em jornalismo - que gosta de concisão -, deixo aqui na íntegra a resposta a uma das perguntas que me foram feitas na entrevista:

A Hora é Agora: Em algum momento você teve medo ou pensou em desistir?

O medo faz parte de qualquer gestação, seja a primeira ou a décima, tenha você decidido parir em casa ou agendar uma cesárea. Gestar é uma experiência cheia de mistérios, e o desconhecido sempre dá medo. Medo de seu filho ter alguma má formação, medo da dor, medo de não ter leite, medo de não ser uma boa mãe.

O nascimento é também um momento de crise, assim como a morte. A vida contém a morte, e eu gostaria de saber de todas as mães do mundo quem jamais teve um pensamento ligado à morte durante a gravidez. Para ser mãe, morre-se um pouco. E é porque essa verdade mora em nós, mesmo que sem ter consciência dela, que temos medo.

No entanto, nunca deixei que esse medo me paralizasse. É claro que eu tinha medo de parir em casa, especialmente porque essa decisão implica trazer para si toda a responsabilidade sobre o que acontece naquele nascimento. No entanto, eu tinha mais medo ainda de parir no hospital.

O fato é que aquele bebê precisava nascer, de um jeito ou de outro. Eu tinha de vencer o medo. E precisava morrer mais um pouco para me tornar mãe novamente.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Conversas com Emília

Era uma casa muito engraçada

Com Emília na janela, mostrando a chuva a ela. Ela aponta para um prédio qualquer:

- Tasa moço.
- Isso, é a casa do moço. O que tem na casa do moço ?
- Tapete.
- Muito bem, tapete. E o que mais?
- Chuva.
- Chuva, muito bem. E o que mais?
- Teto.
- Muito bem. E o que mais?
- Auau. - hesitou e mudou de ideia. - Não, não tem auau. Tem dato. (gato)

Chapeuzinho vermelho

Contando a Emília a história da Chapeuzinho vermelho:

- A mamãe da chapeuzinho fez uma cesta de...
- Doces.
- E pediu pra chapeuzinho levar para a...
- Vovó.
- A vovó morava lá do outro lado da...
- Paneta! (planeta)*

* Minha sogra viajou pra Tailândia mês passado e o Rafael dizia que ela estava do outro lado do planeta. Faz todo o sentido, né?

(...)

- O que que o lobo fez com a vovó?
- Tomeu.
- Isso, depois ele pegou e vestiu a...
- Tôta.
- Isso, vestiu a touca da vovó. E o que mais?
- A busa. A taça. (a blusa e a calça. Era pra ser a camisola...)

Emília e Margarida

De manhã:

Dia 1
- Demais! Demais! A Maida é demais!

Dia 2
- Emilinha, vem ver a Margarida!
- Todô! A Maida todô!
- É, a Margarida acordou...
- Oi, Maida! Tainho. Beijo. Maidá, Maidáaa! Minha fô!

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

E eu descobri qual era a música!

Para meu terror e pânico, descobri que a música que Emília canta no primeiro vídeo do meu último post é de ninguém mais, ninguém menos que a XUXA!!

Assistam: http://letras.terra.com.br/xuxa/760208/

Eu sempre estranhei que ela começava com esse negócio de "neném chola ué ué ué" depois de fazer os gestos pra roda do ônibus roda roda e a porta do ônibus abre e fecha. Me digam, meu povo? O que esse neném está fazendo dentro do ônibus?

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Qual é a música?



quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A defensora dos parquinhos

Houve um tempo em que eu via as pessoas fazendo coisas sem noção, depredando a cidade, e não fazia nada. Alguém jogava um papel no chão e eu me limitava a resmungar uns impropérios. Jamais pensaria em abordar o porquinho e lembrá-lo de que o lixo entope os bueiros e ajuda a cidade a ficar inundada nesse época de chuvas. E que há uma lixeira logo ao lado.

Até eu virar mãe.

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Para quem não conhece Brasília, no Plano Piloto os prédios são organizados em quadras (Superquadra é o nome oficial), que são mais ou menos como uma rua, só que quadrada. "Fulano mora na minha quadra" equivale mais ou menos a "fulano mora na minha rua", como se diria em cidades normais.

Cada quadra tem um espaço reservado para um parquinho infantil, público. Por isso eu ousaria dizer que Brasília é a capital dos parquinhos. Onde quer que você more sempre haverá um, dois, três, diversos parquinhos por perto. Alguns estão meio capengas, mas não é difícil achar boas opções caminhando um pouquinho.

Além disso, os condomínios de alguns prédios decidem construir seu próprio parquinho, no terreno destinado ao jardim. Mesmo estando na área do prédio, o espaço é de circulação pública e qualquer pessoa pode frequentar - não precisa ser morador.

Quando Emília nasceu, o parquinho da minha quadra era um banco de areia abandonado, com alguns brinquedos de madeira caindo aos pedaços. Tínhamos apenas o parquinho de um dos prédios para frequentar, pequeno, com o chão de cimento, mas ajeitadinho.

Mas ela ainda estava com poucos meses quando os moradores da quadra começaram a se organizar para reconstruir o parquinho. Criaram uma comissão, arrecadaram fundos, e nem bem Emília teve idade pra frequentar brinquedos maiores, lá estava o parque novinho à nossa disposição.

Paralelamente, pra nossa sorte, mais um dos prédios da quadra construiu um parquinho próprio, com o piso de grama, perfeito para crianças pequenas. Ficamos, então, com três parquinhos: um com chão de cimento, outro de areia e outro de grama, tudo a pouquíssimos metros do meu apartamento.

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Eis que consigo reunir minhas duas bebezucas num fim de tarde para irmos ao parquinho de grama - o meu preferido. Só levo Emília ao de areia - o preferido dela - quando o pai está junto, porque posso ficar com Margarida do lado de fora.

No caminho, passamos pelo parquinho de areia, que estava vazio - à excessão de três marmanjos que escalavam os brinquedos. Não pensei duas vezes:

- Ei, esse parquinho é das crianças!

Um dos rapazes se desculpou, quase me chamando de tia:

- Mas eu estou só subindo na grade!
- É, mas o seu colega ali está subindo no brinquedo. Esses brinquedos não suportam o peso de vocês. Tem uma placa aí na frente dizendo que é só pra crianças até 12 anos.

Eu ia acrescentar que se eles tivessem entrado no parquinho pela porta, em vez de pular a grade, eles teriam visto a placa. Mas achei melhor não pentelhar demais os moleques, já que eles obedeceram direitinho e desceram dos brinquedos.

Segui orgulhosa.

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E no fim de semana, fomos ao parquinho de areia. Emília se esbaldando, quando o Rafael resolve pegá-la no colo bruscamente e trazê-la pra fora do parquinho, onde eu estava com Margarida.

- Amor, vamos pro outro parquinho. Esse aqui está com cheiro de cigarro.

E a bichinha, balançando a cabeça:

- Não, ôto patinho não! Té esse patinho!

Do lado de fora da grade, mas praticamente dentro do parquinho, o pai de uma menina fumava tranquilamente seu cigarro, como se não houvesse umas dez crianças pequenas ali por perto.

- De jeito nenhum. Não vamos pro outro parquinho. Emília passa a semana inteira pra vir nesse, e no dia que você pode vir conosco um fumante nos expulsa?
- ...mas você vai lá falar com ele?

Óbvio, né?

- Oi, você pode fumar um pouco mais longe? A fumaça está indo toda pra perto das crianças...

O cara apagou o cigarro na mesma hora, já sabendo que não deveria nem ter acendido.

E eu, novamente orgulhosa, gostando dessa desinibição que a maternidade me deu.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Cuidando de duas

Técnicas para cuidar de dois bebês - um quase recém-nascido, o outro quase criancinha - ao mesmo tempo:

- CD infantil tocando com a música mais pedida no repeat.
- Visitas esporádicas à casa da vovó.
- Linha de montagem: deita a meninada na cama e troca as fraldas ao mesmo tempo. Diversão garantida e maior controle sobre a hora da troca. Método a ser adotado também para o banho e a hora do sono - deixa só Margarida crescer mais um pouquinho.
- Trabalho infantil: você dá de mamar à mais nova e solicita à mais velha que traga a fraldinha de ombro. Método a ser upgraded; deixa só ela crescer mais um pouquinho que eu peço também um copo d'água.
- Faça você mesmo: na hora de sair pro passeio, você arremessa o tênis na frente da criança e diz: "Emilinha, calça o tênis aí!". E torce pra ela não pedir: "mamãe ajuda".

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Primeiro filho x segundo filho

O tema é batido, mas sempre aparece um ponto de vista novo sobre a maternidade depois do segundo filho.

Gravidez


Primeira filha: Você faz caminhada todos os dias, pilates, recebe massagem do marido, trabalha até o último dia.
Segunda filha: Você faz caminhadas enquanto empurra o carrinho de bebê, isso quando sua filha não se rebela contra o carrinho e resolve sair andando desordenadamente por aí. Você faz pilates sozinha em casa depois que sua filha dorme, quando você aguenta. Você recebe massagem do marido quando ele não está quebrado de por a criança pra dormir. Você dá perda total e tem de antecipar a licença-maternidade.

Parto

Primeira filha: Você sente as primeiras contrações, liga pra obstetra e vai pro hospital.
Segunda filha: Você tem uma contração tão forte que te faz vomitar, limpa a boca, toma uma água e sai com a filha mais velha pro parquinho.

Amamentação

Primeira filha: Você chama desesperada a enfermeira da maternidade pra te ajudar com a pega, enquanto chora.
Segunda filha: O bebê pega o mamilo sozinho, no ar, enquanto você tenta administrar a irmã mais velha com a outra mão.

Banho

Primeira filha: Você espera o marido chegar em casa para que os dois dêem, juntos, o banho no bebê.
Segunda filha: Você dá banho sozinha na filha mais velha com o bebê no sling. Você dá banho sozinha no bebê enquanto tenta impedir a mais velha de bater na cabeça da irmã com o termômetro.

Quarentena

Primeira filha: Você passa um mês sem sair pra lugares fechados por recomendação do pediatra.
Segunda filha: Quando ela tem 20 dias, você vai com a família toda pro hipermercado. Quem fazia as compras depois que Emília nasceu? Mistério.

Eu poderia continuar ad infinitum... Mas a ideia é essa. Eu me considerava uma mãe super desencanada com uma filha só, mas sempre dá pra desencanar mais.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Falatório matinal

Muitas mães já devem ter reparado que os filhos parecem mais inteligentes depois do sono. É impressionante: eles vão dormir e acordam com novas habilidades motoras ou novas palavras. E isso vale até pras sonecas diurnas.

Hoje de manhã Emília acordou tão falante (será que encontrou o Dr. Caramujo nos sonhos?) que quase arrumei um palanque pra ela fazer um discurso:

- A Maida tá cholando não. A Maida tá filiz.
- Mamãe tá tum sede. Mamãe tomá ábua. A Maida não toma ábua. A Maida toma leite mamãe.

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E o que é melhor que o sorriso de um bebê?

O sorriso de um bebê acompanhado pela fala da irmã:

- Ah, soíso! A Maida deu soíso!

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"Mamãe tem dois nenéns!"

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Minhas adoráveis visitas

Está aberta a temporada de visitação a Margarida. Dizem que segundo filho recebe menos visitas. Não sei se é verdade, porque a coisa tem estado bem animada por aqui. E quando eu digo animada, é animada mesmo.

Agora as visitas vêm com crianças. Nada daquele silêncio sacral e mãos higienizadas com álcool gel. Agora são bebês e mini-crianças compartilhando copinhos de transição, babando na mesa de centro, pisoteando muffins orgânicos e pães-sem-queijo e chacoalhando os bichinhos do bouncer do bebê visitado.

As visitas não permanecem aquela meia horinha protocolar, mas se deixam ficar até que a puérpera ou a anfitriãzinha de 1 ano e 9 meses permitam que elas as abandonem ao tédio dos dias chuvosos. Ou pelo menos até que o papai chegue.

As visitas de Margarida não se limitam à sala de estar. Emília as leva ao seu quarto, ou elas seguem destemidamente para a cozinha enquanto suas mães correm atrás fechando as portas que dão acesso a facas e líquidos venenosos. E a puérpera não se sente na obrigação de ficar no sofá fazendo sala, mas convida seus hóspedes a molharem as plantas (e comerem terra) no hall da área de serviço, enquanto ela esfrega algumas fraldas e bate papo com a amiga, mãe do terrófago.

As amigas da mamãe de Margarida trazem presentes em dobro. Elas se deixam levar pela mão pela irmã mais velha de Margarida e atendem seus pedidos de ouvir uma historinha ou desenhar um auau. As visitas de Margarida se oferecem, sem cerimônia, pra passar um pano na sala e limpar as migalhas esmagadas do lanche.

Um obrigado sincero aos meus mini-visitantes Alice, Rafa, Cali, Benjamin, Tetê, às minhas amigas queridas com ou sem filhos e a todos aqueles que vieram ou ainda virão nos visitar nos próximos meses.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Quando sou cheiro, me chamo pum.

Emília e o pai:

- Tatá fada.
- Quer trocar a fralda?
- Fofô.
- Você fez cocô? Deixa eu ver... Emilinha, não tem cocô aqui!
- Pum!

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E esses dias não pude levar Emília à aulinha de música porque a chave do carro sumiu. Hoje, quando vou pegar as galochas dela pra levar pra creche, tã-dam! Adivinhem?

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E Margarida está cada dia mais ótima. Estou sem tomar leite e derivados e agora minha filha virou uma anja.

Todos os bebês são santos, mas alguns têm dor de barriga.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

"Mimi tanda" (ou: nenenzinho e nenenzão)

Depois dos 9108092830 caracteres de relato de parto, reapareço aqui rapidinho pra contar as últimas de Emília.

Emília nenenzinho:
- Té mamá.
- Té mamá junto. (Quero mamar junto com a Margarida)
- Té ué nenenzinho. (Quero a colher de nenenzinho - aquelas de silicone que ela não usa há meses).

Emília nenenzão:
- Sissi vaz. (Xixi no vaso. Ela fez um cocô no penico, mas ainda estamos a anos luz do desfralde. Depois eu conto mais detalhes).
- Tatá fada. (Trocar a fralda. Agora ela avisa sempre que faz cocô ou quando a fralda está transbordante de xixi).
- Té mimi tanda. (Quer dormir na cama).

Esse último é o mais notável. Emília nunca dormiu sozinha, nem nunca fizemos questão disso. Por mais de um ano ela dormia no peito, era conveniente, fácil, gostoso, e assim ficou. De uns meses pra cá, ocasionalmente ela mamava e não dormia. Então ia pra rede com o pai.

Depois que Margarida nasceu, antecipei o mamá de Emília pra antes do banho. Assim, ela passou a dormir sempre com o pai na rede. Era conveniente, fácil, papai gostava, e assim ficou.

Até que... ela pediu: "Mimi tanda." O pai a levou pro quarto, colocou-a na cama e ficou ao lado dela até ela dormir. Ela corre de um lado pro outro, deita, levanta, mas eventualmente a pilha acaba e ela dorme.

Na segunda noite ela pediu de novo, mas não conseguiu relaxar e foi pra rede. Na terceira noite (hoje), deu certo outra vez. Mimiu na tanda.

Uma moça, não?

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E eu pensando: quem dá mais trabalho? Uma criança de um ano e nove meses ou um recém-(já não tão recém)nascido?

Aqui em casa, Margarida está ganhando... Motivos da minha ausência esclarecidos, lá vou eu me ausentar de novo e já volto!

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Sorria!

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Relato do parto de Margarida - Parte 5

Terceiro período

Depois que a cabeça sai, o resto é fichinha. Até aquele corpão gorducho escorrega com facilidade. Aliás, eu não senti aquele círculo de fogo, aquela ardência do coroamento. Senti arder o períneo quando a cabeça começou a sair, mas foi só. Acho que era tanta adrenalina que eu me auto-anestesiei.

Ali estava eu, no momento mais precioso do parto, que dura uma fração de segundos e do qual a gente sente saudades pra sempre. Pegar minha filha, levá-la ao colo, sentir o calor do seu corpo pela primeira vez. Margarida nasceu ótima, corada, respirou logo e não precisou de aspiração ou qualquer outro procedimento para ajudá-la a entrar no mundo. Ofereci o seio, mas ela não quis já. Ficamos ali enquanto eu esperava a placenta sair – o que levou só uns 10 minutos e foi totalmente indolor. Daí eu me lembrei do cordão (com a placenta fora de mim, o cordão começou a me incomodar) e eu pedi: “Corta logo! Parto de Lótus, não!”. Rafael cortou então o cordão. Acho que ofereci o seio de novo, não lembro bem.

Depois de toda essa glória, chegou a polícia. Aparentemente, os vizinhos se assustaram com a gritaria e acionaram a segurança pública. Eu tinha ouvido toques de interfone e campainha durante o expulsivo, mas consegui abstrair. O Rafael ficou bem irritado. Depois de nascida Margarida, autorizei meus escudeiros a se ausentarem pra atenderem a porta. “Nasceu um bebê, todos estão bem”, explicou a doula. Eram dois. Um deles ficou meio desconfiado e pareceu querer entrar pra checar a história, mas o outro preferiu nos deixar em paz.

Por volta das 6h30, minha irmã apareceu no quarto com Emília no colo. Essa parte foi fantástica. Mesmo com a gritaria no quarto ao lado, Emília dormiu a noite inteira e acordou mais tarde que de costume. Nas últimas noites, ela vinha despertando uma ou duas vezes durante a madrugada e levantava de vez às 5h30. Foi perfeito.

Emília recebeu a irmã com um olhar de fascínio e quis mamar junto com ela. Amamentar duas ao mesmo tempo não é nada fácil; faltam braços pra ajudar na pega. O momento foi mais pra elas duas, porque Margarida ainda não tinha pegado o jeito e ficou só mesmo recebendo os carinhos da irmã.

Logo depois que Emília terminou, Margarida pegou o seio de jeito e mamou muito bem. Parece que se inspirou na irmã. Ela tinha pouco mais de meia hora de vida. Só depois ela foi pesada e medida, ali mesmo ao pé da minha cama: 3,9kg e 52,5cm. Três centímetros e 700g maior que a irmã. Impossível não se sentir poderosa depois de parir um bebê desse tamanho (tenho 1m57).

Emília recebeu o presentinho da irmã – um carrinho com uma boneca – e foi toda serelepe empurrá-lo pelo corredor. Brincou com o projeto de piscina que jazia semi-inflada na sala, enquanto o Rafael telefonava para os parentes. Depois, Rafael e a doula foram dar banho em Margarida no Tummy Tub, enquanto a parteira checava como eu estava.

Tive uma pequena laceração, que não precisou de pontos. O que protegeu meu períneo: a posição do expulsivo, de cócoras sustentada; as compressas mornas com azeite que a parteira fazia. Eu tinha feito também aqueles exercícios de Kegel e massagem no períneo durante a gestação, sem muita disciplina. Não sei se fez diferença. Em todo caso, acho que lacerou porque a gente precisou fazer Margarida sair logo e porque a mocinha era graúda. Pra quem já tinha tido uma episiotomia no parto anterior, foi uma maravilha. Incomodava um pouco, mas nada que me impedisse de sentar ou caminhar. Com dez dias de parida eu já não sentia absolutamente nada, estava perfeitamente cicatrizada. Com a episio, eu tinha ido pra casa com duas caixas de anti-inflamatório (um deles tarja preta), analgésicos e um spray chamado Aldolba (não sei o princípio ativo; preferi não saber). Desta vez, fiz apenas compressas geladas com um chá próprio para o períneo durante três dias e lavagens alternadas com iodo e chá. Fiz também um banho morno de assento com o chá pro períneo e tomei arnica homeopática. Sem drogas no leitinho das crianças.

E depois da polícia, dá-lhe mais campainha. Primeiro a diarista, que ficou impressionada com as roupas sujas de sangue e quase passou mal. Depois, o entregador de orgânicos. E mais tarde, a família. Um sábado como outro qualquer, só com um pouco mais de sangue e autoridades policiais que o normal.

Uma das coisas que costumo ler em relatos de partos domiciliares e que pude viver nesse parto foi a continuidade da vida. Não há rupturas, não há quebras. Não saímos do nosso ninho, não há grandes produções, grandes resguardos. Simplesmente o sol nasce e há mais uma criança em casa. Tomamos nosso chá, damos café da manhã ao filho mais velho, recebemos o entregador de orgânicos. Assim, como um dia qualquer.

Mas um dia perfeito.


Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam;

se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela.

Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão de dores,

pois assim dá ele aos seus amados o sono.

Eis que os filhos são herança do Senhor, e o fruto do ventre o seu galardão.

Como flechas na mão de um homem poderoso, assim são os filhos da mocidade.

Bem-aventurado o homem que enche deles a sua aljava;

não serão confundidos, mas falarão com os seus inimigos à porta.

Salmo 127

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Relato do parto de Margarida - Parte 4

Em trabalho de parto

Sua ira dura um momento; seu favor a vida inteira; de tarde vem o pranto, de manhã gritos de alegria.

Sl 30:5

Aquela sexta-feira terminou como sempre: Rafael deu banho em Emília e eu a levei pra completar o ritual do sono. Sequei, passei óleo, vesti, escovei os dentes e dei o mamá dela. Ela dormiu e fui tomar banho. Como costumava acontecer nas últimas semanas, seguiram-se algumas contrações depois da mamada.

Fiquei observando essas contrações até irmos pra cama, e ali pelas 21h resolvi ligar pra minha irmã. Tínhamos decidido não contar à família para não gerar tensões desnecessárias, mas precisávamos de alguém pra ficar com Emília. Então escolhemos a Bel para assumir a tarefa.

Liguei também pra parteira e pra doula para deixá-las de sobreaviso, mas disse que eu ainda iria dormir e que as coisas poderiam demorar um pouco pra acontecer. Se não me engano, nessa hora as contrações estavam a cada 13 minutos mais ou menos. A doula ficou super feliz e depois me contou que saiu correndo do evento onde estava para ir dormir também. A parteira disse que deixaria suas coisas prontas (depois eu vi a bagagem que ela traz... impressionante como ela conseguiu subir com tudo aquilo sozinha, parecia que estava de mudança).

Por volta das 00h30 acordei, não me lembro se com uma contração ou com a bexiga cheia. Fiz xixi e acho que tentei deitar de novo. Não lembro exatamente a sequência dos eventos. Sei que tive fome, comi pão com geléia e requeijão e tomei um copo de suco de uva. Depois, fui pro banho, pra conferir se era mesmo trabalho de parto. Saí do banho e vi que as contrações continuavam firmes e, aparentemente, regulares. Era mais ou menos 1h30 quando acordei o Rafael. Conseguimos contar algumas contrações e o intervalo era de uns 10, 8 minutos, e ia diminuindo. Continuei deitada de lado, e a cada contração o Rafael fazia pressão nas minhas costas. Ainda conseguíamos cochilar entre as contrações, estava tudo ótimo.

Ali pelas 2h, a coisa começou a incomodar um pouco mais. É engraçado que, do nada, vem uma contração bem mais dolorida que a anterior. Corri pro chuveiro e mandei o Rafael ligar pra doula. Assim que ele terminou a ligação, mandei ele chamar logo a parteira também. Sei lá, segundo filho... eu que não queria um parto desassistido. Pedi também que ele acendesse as velas, mas achei que era cedo pra armar a piscina. (Só depois eu vi como a casa ficou linda à luz de velas. Comprei várias especialmente pro parto).

Eu tinha levado minha bola suíça pro banheiro. Balançava suavemente e, durante as contrações, quicava na bola. Eu cantava o tempo todo, e isso me ajudava a passar por cada contração. Com a água quente nas costas e a presença do Rafael, foi tranquilo esperar pela doula. Ela chegou pouco antes das 3h e, uns vinte minutos depois, chegou a parteira.

A doula ficou comigo no box, apertando uns pontos na minha mão a cada contração. Eu ainda cantava, mas não conseguia mais emitir palavras durante as contrações; só cantarolar a melodia, abrindo a boca no pico das contrações. A partir desse momento, não faço a menor ideia de quanto tempo durou cada uma das etapas seguintes. Sei que fiquei um tempo com a doula, enquanto o Rafael foi inflar a piscina. Depois o Rafael assumiu de novo seu lugar e ficamos só nós dois no banheiro.

Nesse meio tempo, a parteira chegou pra me avaliar. Só que como eu estava no meio de uma contração, ela só checou o coração do bebê e me deixou no banheiro, não lembro mais se com o Rafael ou com a doula (no meu plano de parto eu pedia a máxima discrição da equipe.) A um dado momento, eu, que estava conseguindo dominar bem as contrações, comecei a perder o controle. Então eu gritei pedindo ajuda e a doula veio me orientar sobre a melhor forma de respirar. Ela ficava na minha frente e o Rafael, nas minhas costas, pressionando a lombar. Foi alívio imediato, e voltei ao jogo.

Acho que nessa hora eu já tinha me livrado da bola e assumia a posição de quatro quando vinham as contrações. Já mais no controle da situação, chamei a parteira e disse que ela poderia me avaliar. “Não precisa. Está tudo indo muito bem.” Fiquei pasma. Como assim, não precisa? “Não precisa. Só se você quiser”. Trabalho de parto sem toques? Confiei, achando excelente não ter de sair dali para uma avaliação do colo. Eu já tinha percebido que da primeira vez em que ela tinha ouvido o coração do bebê ele estava à direita (dorso à direita). Da segunda vez, o coração já estava no centro da minha barriga, bem baixinho. Ou seja: o bebê já tinha girado pra descer pelo estreito inferior da pelve. E girou no sentido anti-horário, contrariando o mito de que bebê com dorso à direita tem de dar toda a volta pelo sentido horário até chegar ao meio, em partos longos e dolorosos. Pois minhas filhas giram ao contrário.

(Aliás, provavelmente por isso meu corpo pedia pra ficar de quatro. A força da gravidade ajudou as costas do bebê a irem pro meio da minha barriga.)

Ali, naquele chuveiro, com as contrações cada vez mais próximas, a sensação que eu tinha era a de estar num caminhão sem freio. Eu dizia pra doula: “Está indo rápido demais!” Ela dizia que estava ótimo, mas eu estava atordoada. Não estava acostumada com aquilo. O parto de Emília tinha sido tão forçado, tão arrastado...

A parteira já tinha decretado que não havia tempo de encher a banheira, a menos que alguém se ausentasse e ficasse só por conta disso. E eu não podia abrir mão de ninguém perto de mim, precisava de todo mundo ao meu lado. Também não deu tempo de chamar outra parteira muitíssimo experiente, que nos daria seu apoio (mais moral mesmo, porque ela já está bem velhinha). Mas mesmo sem banheira e sem a outra parteira, foi tudo perfeito, e me senti totalmente segura.

Ali naquele turbilhão, comecei a ficar exausta. Precisava deitar entre as contrações, então pedi pra ir pra cama. A doula e o Rafael me enxugaram; eu sentia muito frio. Deitei enrolada nas toalhas, enquanto eles terminavam de me secar, e continuei ficando de quatro nas contrações, deitando de lado no breve intervalo entre elas. Aos poucos, meu corpo foi pedindo pra ficar cada vez mais na vertical. Primeiro de joelhos; depois, fui tendo o reflexo de abrir uma das pernas, tentando me acocorar. Mas era muito difícil (fiquei de cócoras a gravidez inteira, muitos minutos seguidos, sem nenhuma dificuldade. Mas, naquele momento, eu já não tinha controle sobre meu corpo; ele trabalhava sozinho). Eu sentia dor o tempo todo, porque Margarida fazia muita pressão nas minhas costas. Então, se não era a contração, eram minhas costas.

A doula perguntou se eu não estava com vontade de fazer força. Eu achava que não, mas experimentei e achei que deu certo. A parteira sugeriu que eu usasse minha voz pra fazer sons mais guturais, como urros de um urso, pra dentro – em vez daqueles gritos estridentes que só fazem a gente se desesperar mais. Os urros ajudavam demais na força que eu fazia. Eles me faziam encaixar o quadril e jogar a pelve pra frente, num movimento que torna o caminho pelo qual o bebê desce menos tortuoso e mais fácil. Nisso eu sentia uma bola dura dentro de mim (a cabeça dela) girando e descendo cada vez mais. As contrações em que a cabeça descia eram as mais dolorosas.

Quando viu que eu estava tentando me acocorar, a parteira sugeriu a banqueta de parto, e a colocou ali mesmo, em cima da cama. Foi excelente. A banqueta deu ao meu quadril a abertura extra de que ele precisava pra passar minha meninona.

Em um dado momento, a parteira me disse que fizesse um esforço extra porque o bebê precisava nascer logo. Não ouvi os batimentos cardíacos desacelerando, mas eu sabia que agora era comigo. Sabia que minha filha estava bem, mas sabia também que havia trabalho a fazer. Essa etapa foi extremamente desafiadora, mas minha participação ativa ajudava a aliviar a dor. Eu me sentia muito cansada; dizia que não ia conseguir. A parteira dizia: “Vai, você vai conseguir.” Então ouvi um “ploc!”. Era a bolsa. Eu tinha o sonho de que meu bebê nascesse dentro da bolsa, mas a parteira e a doula ficaram tão felizes com a ruptura naquele momento que eu pensei que devia ser bom. Provavelmente porque, depois que a bolsa rompe, a cabeça desce mais rápido. E foi isso que aconteceu.

A parteira pegou o espelho e tentou me mostrar a cabeça. Eu não vi nada, mas acreditei e mandei mais força. Comecei a perceber um pedacinho da cabeça com as mãos e senti a parteira futucando meu períneo; acho que era pra dar uma alongada (nessa hora eu pensei: fosse no hospital, já estavam com a tesoura em mim). Quando ela tirou o dedo, eu mesma comecei a fazer isso também. Até que a cabeça saiu. Coloquei minhas duas mãos sobre ela e esperei a próxima contração. Passei o dedo no pescoço e avisei: “Não tem cordão!”. Acho que a parteira entendeu o que eu queria dizer. “Ela está girando”, avisou a parteira. E veio o corpo na contração seguinte. Enfiei meus dedos sob as axilas e peguei o que era meu. Levei aquele corpinho molhado pro meu seio, sabia que ela estava ótima. Ouvi seu choro suave, de quem nasceu sem violência e chora só pra limpar os pulmões. Então passei os dedos por entre suas pernas (não quis abrir as perninhas e olhar, pra ela não sentir frio) e anunciei: “É uma menina! É a Margarida!”.

Eram 5h58.

(continua...)

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