sábado, 7 de março de 2015

Filhofobia

Diz-se que, nos velhos tempos, em cidades pequenas e tranquilas, as crianças saíam para brincar sozinhas aos cinco anos. Eram muitas, muito mais crianças que adultos, brincando juntas, com espaço pra correr, árvores para subir. A assistência do adulto não era tão necessária; elas se criavam.

Daí vêm as cidades grandes, os perigos, dar a mão para atravessar a rua, ter de ficar o tempo todo de olho na criança, o medo da violência. E a falta de opções de lazer adequadas, crianças em apartamentos pequenos, áreas públicas insuficientes. Muitas vezes é necessário pegar o carro para ir a um parque. Ter filhos ficou mais trabalhoso, mais caro, mais complicado, e com isso as pessoas têm cada vez menos filhos.

Ter filhos hoje significa brincar com eles, pois nem sempre há outras crianças por perto. Quando as há, cabe ao adulto acompanhar a brincadeira, mais de perto ou mais de longe, conforme a idade e a maturidade da criança. Por questões de segurança física, mas também por questões de segurança emocional. O coleguinha do parquinho muitas vezes é um desconhecido; não é aquele vizinho da cidade pequena, que a criança via todos os dias, que era quase um primo. Às vezes eles formam vínculos, e o coleguinha nunca mais aparece. Coisas de cidade grande. Mas é sabendo disso que nos tornamos pais.

Então a gente é pai, e daí vem uma preguiça enorme de ser pai. Porque também nós não sabemos mais brincar, subir numa árvore, enterrar o pé na areia, cantar enquanto empurramos o balanço. Aí vem o pai, a mãe, e empurra distraidamente o balanço enquanto manda um whatsapp. Olha pra tela, enquanto a criança olha pro nada, apática, ou tenta chamar a atenção do adulto de alguma maneira. Ou então o pai, a mãe, senta num banco do lado de fora do parquinho e fica touchscreenzando, enquanto a criança se vira dentro do parquinho. "Mãe, me empurra no balanço?"; "Pai, me ajuda a subir nesse brinquedo?" "-Vai naquele outro que você consegue ir sozinha."

As babás, as mães, os pais que estão dentro das grades, ao lado de suas crianças, acabam cuidando como podem da criança desassistida. Porque a criança desassistida, que sabe que o adulto que a levou ao passeio não vai dar a atenção que ela deseja, sempre pede atenção dos outros adultos. Esses que, a criança desassistida observa, estão efetivamente cuidando das suas crianças.

Às vezes não tem jeito: a criança desassistida cai, leva um tombo, ou quer sair pra passear com o colega que tem cuidador. Daí a mãe, o pai do celular, olha com aquela tromba, levanta o traseiro do banco como se pesasse uma tonelada, e vai se arrastando pra dentro das grades, buscando a primeira oportunidade para cair fora.

Em parquinhos, em restaurantes. Genitores que parece que têm uma preguiça enorme de cuidar dos filhos. E deixam os moleques soltos pros estranhos cuidarem. Ou não.

Considero que o celular por si só já foi uma desgraça pra interação pai-filho. O celular com internet, whatsapp e o escambau, uma desgraça maior. O que será de uma geração de crianças criadas por adultos abobalhados que não conseguem tirar o olho de uma tela? Parece uma alergia coletiva às crianças, e que belo refúgio nós encontramos!

Quando formos cuidar das crianças, melhor desligar o celular - ou pelo menos o wifi.

 

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