quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Oficinas sobre gestação, parto e desenvolvimento das crianças - Cláudia Rodrigues em Brasília

Para as grávidas e mães, uma excelente oportunidade para trabalhar as questões emocionais envolvidas nessas fases tão especiais da vida.

Cláudia Rodrigues estará em Brasília no início de dezembro ministrando as oficinas Gravidez, Parto e Simbiose e Inscrições Corporais.

Mulherada candanga, reserve a data e ajude a dilvugar! Quanto mais inscrições, menor será o custo por pessoa (são no máximo 20 vagas por pessoas, então garanta logo a sua!).


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Meus livros altamente recomendáveis - Vento

Antes de falar sobre o livro desta semana, trago alguns esclarecimentos sobre indicação etária.

Quando escrevi o primeiro post desta série, recebi a sugestão, devidamente acatada, de incluir para que idade os livros seriam mais indicados. Isso auxiliaria mães e pais a avaliarem se valeria a pena comprar ou pegar na biblioteca a obra para seus filhos. Mas chegar a essa definição não é tarefa simples.

Ainda antes de concluir minha explicação, mais uma divagação: o que seria um bom livro para crianças?

Para isso, primeiro precisaríamos saber o que seria um bom livro. Mas se nem os teóricos literários chegaram a um consenso, eu é que não me arriscarei a propor um método. Eu poderia dizer, como leiga, que um bom livro para crianças seria um bom livro, simplesmente, para qualquer pessoa. Adultos inclusive.

Os livros listados nesta seção são livros dos quais eu gostei. É pessoal. Claro, tenho alguma bagagem cultural, uma formação acadêmica modesta e uma familiaridade com os livros que talvez me dessem mais autoridade para julgar uma obra como boa ou ruim. Mas essa autoridade não é absoluta; é concedida pelos outros - no caso, vocês -, que esperam gostar também dos livros que eu indicar. Enfim, é uma crítica amadora.

Então, quando eu falar em faixa etária indicada, ela sempre será "a partir de". Porque se eu, com meus 30 anos não gostar, o livro está automaticamente fora da minha coluna. Se o livro fica bobo depois que a criança cresce, então não é um livro altamente recomendável (embora não se deva, necessariamente, descartá-lo).

A maioria dos livros será indicada para qualquer idade, já que minhas filhas são pequenas e quase todos os livros que tenho em casa ou pego na biblioteca são ricamente ilustrados. Assim, até um bebê pequeno pode ser apresentado a figuras. Obviamente que cada faixa etária "lerá" o livro de uma forma: um bebê de três meses passeará os olhos pelas páginas, e talvez estenda a mão para tocá-las; um bebê de seis meses tentará comer o livro; um bebê de um ano talvez queira amassá-lo ou rasgá-lo, mas já é capaz de passar as páginas e aprender a manuseá-lo com cuidado. Ele apontará para as figuras, perguntando seu nome. Com a aquisição do vocabulário, a criança poderá começar a nomear aquilo que nós apontamos, e logo poderá prestar atenção a pequenas histórias.

Emília, com menos de dois anos, já se concentrava em textos lidos, com o limite de mais ou menos umas 4 linhas por página (se as ilustrações fossem complexas o suficiente para manter seus olhos sobre a página e não querer passá-la antes de o texto terminar).

Depois de alfabetizada, a criança poderá continuar aproveitando os mesmos livros de seus primeiros anos, só que numa relação totalmente diferente.

Importante é não subestimar as crianças e seu potencial de leitura. Emília, com 2 anos e 8 meses adorou ouvir o Menino Maluquinho, um livro de 100 páginas, em preto e branco, e com palavras difíceis como "se escalavrava nos paralelepípedos" (que ela sempre ri quando ouve e tenta repetir daquele jeito lindo). E nunca é cedo demais para apresentar as crianças aos livros. Quanto antes elas começam a manuseá-los, maior sua habilidade para não os destruir. Margarida, com um aninho, lê pop-ups com auxílio.

Sugiro organizar os livros no quarto de modo a manter os cartonados, os de plástico e os de pano acessíveis aos bebês. Não há problema se eles roerem os cantos dos livros, pois a experiência das crianças com esse objeto é plenamente sensorial. É importante que elas não apenas possam lê-los, mas também tocá-los, cheirá-los, colocá-los na boca.

Os livros de folhas moles podem ser lidos para os bebês com a assistência de um adulto, que o orientará como tocar o livro sem danificá-lo. Se você percebe que a criança está com uma vontade incontrolável de amassar e rasgar, uma boa opção é dar a ela papeis de rascunho para extravasar essa energia. É importante permitir as experiências sensoriais, mas também ensinar o zelo.

Alguns livros, contudo, serão indicados para crianças um pouco maiores, que já têm a linguagem mais desenvolvida. São livros que eu peguei na biblioteca por serem escritos ou ilustrados por algum autor que eu já conhecia mas que acabaram se mostrando um pouco "avançados" para Emília. O critério é basicamente a relação entre a quantidade de informações textuais e visuais - ou, simplificando, como digo à Emília: "Esse livro tem muita letra e pouca figura".

Finalmente, não indicarei a faixa etária pela idade, mas pelas habilidades que a criança já tem (já fala bem, já se concentra diante de textos longos, já lê sozinho etc.) - que variam demais de criança para criança. Então, é preciso conhecer seu filho para saber se o livro lhe interessará. Mas mesmo quando achamos que ainda é cedo, às vezes eles nos surpreendem...

+++

Vento - Elma



O livro de hoje é um dos chamados livros-imagens, sem palavras.

Um dia estava visitando uma amiga que tem duas filhas pequenas e Emília agarrou na estante de livros infantis. Na hora de ir embora, minha amiga me sugeriu que eu levasse alguns para Emília ler durante a semana. Um deles foi Vento, de Elma.

Nunca tinha ouvido falar em Elma, ilustradora pernambucana. Algum tempo depois, coincidentemente, minha sogra deu à neta um livro ilustrado por ela - Como começa?, de Silvana Tavano, premiado com o selo de Altamente Recomendável pela FNLIJ. Como começa? é muito bom, mas Vento me deu vontade de chorar.

O livro começa com uma mulher carregando três bebês em um balaio na cabeça. Vem o vento e leva as crianças, que flutuam alegremente, se agarram nas árvores, são carregadas por passarinhos e passeiam montadas em elefantes. Finalmente, vão parar no varal da mãe, penduradas por pregadores.

Obviamente não existe uma leitura única, mas a maternidade, o cuidado e o deixar ir certamente estão em pauta.

As ilustrações são lindas e a narrativa é emocionante.

Vento
Elma
Ed. Global
Faixa etária indicada: livre

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Culpa zero, menos mãe e outras asneiras

Demorei a me manifestar, mas não podia ficar calada diante das matérias mercantilistas e destruidoras da família que vêm pululando pela grande mídia, com conselhos que vão desde deixar o bebê chorando sozinho para dormir até alimentar seu filho com papinhas industrializadas no dia-a-dia (ou exclusivamente, por que não?).

Para quem quiser ler mais, estou hoje no Minha Mãe que Disse.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Livros altamente recomendáveis - por Lia Miranda

O motivo do quase falecimento do meu blog - meu anteprojeto de mestrado - é o mesmo motivo que agora o faz reviver. É com muito orgulho que inauguro a primeira coluna da vida deste blog: Meus livros altamente recomendáveis.

Vários blogs legais têm indicados bons livros infantis. A Revista Crescer também tem uma listinha bacana e a melhor referência de todas é a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, que premia várias categorias da literatura destinada a jovens e crianças.

Pra não chover no molhado, minha proposta é um pouco diferente. Como não estou sendo patrocinada por nenhuma editora e nenhum autor, simplesmente listarei, aleatoriamente, aqueles livros que caíram em minhas mãos, por acaso ou não, e me emocionaram. E, claro, agradaram ao público infantil daqui de casa.

Pode até ser que uma ou outra editora acabem aparecendo com mais frequência, simplesmente pelo fato de que eventuais promoções me fizeram comprar vários títulos de uma vez. Mas a ideia é divulgar os livros independentemente de terem sido publicados por editoras "grandes" ou não. E independentemente de terem sido premiados pela FNLIJ. Obviamente que o prêmio não é motivo para que não apareçam aqui, mas não é sequer determinante.

Livros bons, temos dezenas. Mas trarei aqui apenas aqueles muito, muito especiais. Não é qualquer livro, não. É livro porreta mesmo.

(Meu anteprojeto de mestrado, como vocês podem perceber, tratará de literatura infantil.)

Boas, excelentes, maravilhosas e emocionantes leituras.



+++

Meus livros altamente recomendáveis - A visita dos 10 monstrinhos (Ângela Lago)



Minha irmã trabalha em um órgão público que tem uma biblioteca infantil bem razoável. De vez em quando dou uma pesquisada nos autores que já conheço e peço que ela traga alguns títulos para Emília.

Conheci Ângela Lago pelo livro A Festa no Céu, que recebemos ano passado do Itaú. (A sinopse do livro no site do banco tem um equívoco. O texto de Ângela Lago não é uma tradução; o livro é de autoria dela.) É um livro fantástico, que Emília adora, com uma ilustração riquíssima em subnarrativas (a garça que come todos os docinhos; o papagaio que devora as frutas na cabeça do pato; o passarinho bêbado) e texto gostoso de ler. Cheio de folclore.

Com o nome da autora nas mãos, minha irmã me trouxe A visita dos 10 monstrinhos. Lemos na contracapa:

"Este é um livro para quem está aprendendo a contar, mas serve também para quem precisa lidar com algum monstro. Apresento-lhes o senhor Zero. Daí para a frente será moleza conviver com monstrinhos"

Realmente, é excelente para trabalhar os números. Cada algarismo tem dentro de si o número de monstrinhos correspondente a ele. Vão chegando um, depois dois, depois três de uma vez, e o menino vai trazendo, ao mesmo tempo, um, dois, três copos de bebidas... e à medida em que os monstros vão enchendo a casa, o menino vai ficando tenso, nervoso e enxota todos eles. O zero fica pra ser o fantasma, e assusta o menino. No final, todos acham graça, e o 4 acaba ajudando o anfitrião a lavar a louça.

Além da história gostosa, os detalhes são incríveis: ao mandar os números embora, o menino desenha os algarismos e cada um deles contém a quantidade de ângulos correspondente ao número. E quanto ele e o 4 estão lavando a louça juntos, fazem a sombra de um 5.

É mais que pedagógico. É literatura pra curtir.

Eu altamente recomendo:

A visita dos 10 monstrinhos
Ângela Lago
Companhia das Letrinhas
Faixa etária indicada: livre

+++

A coluna estará no ar, inicialmente, a cada duas semanas.Quarta sim, quarta não.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Resguardo - os tempos são outros; o corpo é o mesmo.


Recebi estas palavras maravilhosas em uma lista de discussão. O assunto era sangramento pós-parto. Não pude deixar de compartilhar esta sabedoria, então publico aqui as palavras da minha querida parteira (com pequenas adaptações)

Por Paloma Terra

Nas primeiras 6 semanas após o parto, o útero está voltando ao lugar (involução uterina) e fechando rapidamente, em apenas 40 dias, um processo que demorou 9 meses para fazer! Então é muito importante respeitar o periodo de resguardo. As lóquias (o sangramento após o parto) têm um processo natural: começam bem vermelhas e, gradualmente, com a involução, vão mudando de cor pra mais marron. Depois, ficam mais esbranquiçadas, um pouco como um corrimento vaginal espesso. 

Se dentro desses 40 dias você acaba fazendo algo de mais forçado do que antes, digamos, sair pra passear muitas horas, lavar louça durantes várias horas em pé, arrumar a casa toda que estava um bagunça, etc, é bem comum que a lóquia que estava já mais marron, ou até branca volte, a ficar vermelho vivo. É o corpo sinalizando que vc fez demais naquele dia! Se você voltar a descansar, o sangramento vai voltar à cor anterior. 

Sugiro realmente que se respeitem os 40 dias de resguardo, por respeito ao seu corpo e a todo o trabalho que ele demorou 9 meses para completar, que tão rapidamente fecha em seguida. Este trabalho da volta (involução) é um trabalho silencioso e escondido. Muitas vezes, conforme vamos recuperando energia no pós-parto, achamos que já acabou, que esta história de quarentena é algo das nossas avós que não serve mais pra mulher moderna. Mas nossas avós têm toda razão! Nosso corpo de mulher moderna não é diferente do delas! O processo natural de involução não mudou com a vida moderna. O que mudou é que não conseguimos mais respeitar e reverenciar o ciclo natural das coisas. 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Convivendo - e crescendo - com a bronquite asmática

Minha filha tem bronquite crônica. Ou asma, para simplificar. Há quem considere que a asma só se caracteriza em indivíduos com mais de dois anos, mas sendo os sintomas idênticos, assim como o tratamento, podem chamar como quiserem.

Para quem não é familiarizado com a coisa - como eu não era -, funciona mais ou menos assim: seja por um vírus, uma mudança no tempo, um estresse, a pessoa desenvolve broncoespasmos, ou a chamada "falta de ar" - que, na verdade, parece que é um "excesso de ar", que fica preso nos pulmões. É como uma asfixia. Eu prefiro chamar de falta de ar mesmo, porque a oxigenação fica prejudicada e o coração acelera.

O aspecto mais notável em um bebê com crise de bronquite é que ele fica com a respiração ofegante. A costela sobe e desce, a barriguinha parece uma gaita de fole e o pescoço afunda, deixando ver aquele ossinho entre as clavículas. Além disso, a criança tosse muito (começa com uma tosse seca, que depois vai ficando mais produtiva), o nariz escorre e pode ficar obstruído, ela vomita (pela tosse e por causa do catarro que engole), o intestino tende a ficar mais solto e com catarro nas fezes. Nas crises mais feias, o apetite vai embora e a criança fica molinha, às vezes com febre, e muito, muito cansada.

O tratamento alopático tradicional consiste em broncodilatador, inicialmente, para abrir os brônquios e tirar a criança do afogamento. Se o peito estiver chiando, é prescrito corticóide. Se houver febre persistente e suspeita de pneumonia (porque muitas vezes a bronquite evolui para um quadro de infecção bacteriana), passa-se um antibiótico. Os médicos recomendam aliar a esse tratamento sessões de inalação com soro fisiológico, lavagem do nariz também com soro, saunas no banho e muito líquido. Para os pais ou cuidadores da criança, pensem o que isso representa - especialmente porque durante uma crise de bronquite a criança costuma acordar a noite inteira e tossir mesmo enquanto dorme, nos deixando em constante estado de alerta.

Nossa primeira bronquite - ou bronquiolite, que é a bronquite de bebezinhos - aconteceu aos seis meses de Margarida, como contei aqui. Nós éramos totalmente inexperientes no assunto, tendo sido presenteados com uma primogênita que sempre teve uma saúde de ferro. Começou com um pequeno resfriado, que logo evoluiu para tosse e falta de ar. Ela foi internada e recebeu todo aquele pacote de medicamentos que eu citei acima.

Como a bronquiolite era a doença do momento, os médicos acreditavam que teria sido um episódio pontual. Pouco mais de um mês depois, ela teve nova crise. Não internamos nem demos antibiótico, mas ela precisou de cinco sessões de fisioterapia respiratória para expulsar o catarro. No mês seguinte, nova crise. E, pela terceira vez em dois meses, meu bebê tomou corticóide.

Convencidos de que era uma coisa crônica e determinados a não dar mais corticóide pra Margarida, procuramos a homeopatia. Comecei amadoristicamente, e no resfriado seguinte pesquisei no site da Weleda alguma medicação indicada para bronquite. Usei o remedinho antroposófico, mas quando ela chegou a ficar com a respiração curta levamos ao nosso pediatra (alopata). Para nossa alegria, ele disse que era necessário o broncodilatador mas que podíamos dispensar o corticóide dessa vez, já que o quadro não estava tão feio. Desde então, Margarida nunca mais tomou corticoide. Era um sinal de que estávamos no caminho certo.

Mesmo tendo dado mais ou menos certo minha experiência com a auto-medicação, procuramos um médico homeopata. E foi então que começou minha transformação.

A homeopatia tem uma proposta diferente da alopatia. Enquanto esta ataca o sintoma, aquela busca tratar o indivíduo como um todo, tentanto reequilibrar o que está causando o desequilíbrio. A doença não é um mal em si, mas deve ser compreendida. Para os mais céticos, pode parecer balela. Afinal, o que eu estava querendo era que minha filha ficasse boa. Mas a alopatia não estava resolvendo nada. Eram crises atrás de crises e eu era obrigada a usar sistematicamente um medicamento perigoso (corticóide, só por alto, pode afetar o crescimento, alterar o metabolismo de gordura, causando acúmulo de gordura em órgãos internos, além de inibir o funcionamento da glândula suprarrenal. Médicos, fiquem à vontade para acrescentar ou corrigir qualquer coisa). Então, acreditando ou não, tínhamos de tentar.

Na primeira consulta com o homeopata, ele perguntou várias coisas sobre a gestação, o parto e questões minhas que poderiam estar desequilibrando minha filha. Não há para onde fugir: a asma, talvez mais que a maioria das doenças, é emocional. Eu havia lido Laura Gutman, e aquilo teve eco em mim.

Veio então a primeira crise depois que já estávamos com um homeopata, e ele passou a medicação por telefone. Estávamos dando broncodilatador a cada 4h. Depois de umas 3 ou 4 doses da medicação, Margarida começou a respirar melhor e já pudemos espaçar a bombinha. Em dois ou três dias, havíamos suspenso totalmente o broncodilatador, e ao cabo de uma semana ela estava totalmente sem sintomas (nem um nariz escorrendo). Foi bastante animador.

Já na segunda crise pós-homeopatia, a medicação não funcionou tão bem. No fim de julho, viajamos pra Fortaleza com Margarida meio mais ou menos. Chegando lá, ela teve uma piora sensível e, em vez de ligar pro nosso homeopata, resolvemos levá-la em outro lá mesmo para uma avaliação completa. Levei-a ao mesmo médico que havia me tratado quando criança, e ele foi categórico: "Ela vai ficar boa. Suspenda o broncodilatador." Foi o tratamento mais eficaz que já experimentamos. Nosso homeopata de Brasília era da linha unicista (passa um remédio só). Esse de Fortaleza era da linha complexista, e passou logo três compostos com 7 princípios ativos para dar a cada meia hora. Margarida melhorou rapidamente e pudemos curtir muito nossa viagem.

Achávamos que tínhamos encontrado nosso médico e nosso remédio. Mas foi só pisar em solo brasiliense, com a umidade desértica, que Margarida começou a espirrar. Umas duas semanas depois, nova crise. Usamos a mesma medicação, mas dessa vez a crise foi mais teimosa e precisei chegar a intervalos de 15 minutos pra que ela melhorasse. Mas melhorou.

E aqui estamos nós, umas três semanas depois, e Margarida com uma crise braba. Usei os remédios do médico de Fortaleza a cada 15min e não fez nem cosquinha. Decidimos, então, procurar outro médico - o sexto da vida de Margarida, fora os do hospital.

Ouvindo a história sobre como os medicamentos funcionam uma ou duas crises e depois não resolvem mais, ele comentou que parece que nós a cercamos e ela foge. Perguntou sobre o temperamento dela (eu não sabia responder a muita coisa, ela ainda nem completou um ano), fatos externos que poderiam a estar deixando triste, ciúmes etc. E, claro, passou novos remédios. Que, claro, estão funcionando lindamente (Deus sabe até quando).

Mas toda essa ladainha não é pra me lamentar do fato de que minha filha tem asma, de que eu tenho gastado centenas de reais por mês com médicos e remédios, de que eu adiei o início do meu mestrado por causa disso. Toda essa ladainha é tudo, menos para me lamentar.

Todos os médicos a quem visitamos nessa época foram maravilhosos - inclusive os alopatas prescritores de corticóide. Eles trabalham com o que conhecem. Mas temos sido obrigados a peregrinar como nômades, porque cada crise nos desconcerta, nos desestrutura, e nos faz voltar à estaca zero. Então, não condenemos os médicos.

Tampouco condenemos a homeopatia. Homeopatia funciona, gente, e continuaremos nessa via. Mas os efeitos dela são menos previsíveis que os da alopatia, dependem muito da reação do indivíduo - daí vai a competência do médico pra acertar o remédio, porque a relação não é tão simples como na alopatia (analgésico pra dor, broncodilatador pra broncoespasmo, antiinflamatório pra inflamações, antibiótico pra infecções bacterianas e por aí vai).

O último médico a quem nós fomos (assim como o primeiro homeopata) nos provocou no sentido de procurarmos possíveis mensagens na doença da Margarida. O que ela está nos comunicando com isso? Não que isso vá resolver o problema. Se o problema dela é que ela tem crise de asma quando fica triste, fazer o quê? Impedir que ela fique triste?

Entramos na seara de não mais curar a asma, mas conviver com ela. E crescer com ela. A cada crise, repensar nossa vida, nossas escolhas, nossos dilemas e preocupações. E eu, como mãe fusionada a esse serzinho, estou mergulhada até o pescoço.

"Esses pequenos dão um show na gente", concluiu o médico. E dão mesmo.



Aos seis meses, mamando na UTI

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Para quem está com saudades de mim

Fui, voltei, mas não voltei. A coisa anda corrida, anteprojeto de mestrado para escrever entre uma e outra crise de asma e doses de homeopatia a cada 15 minutos, empregada nova... e, é claro, toda aquela delícia de sempre que é cuidar das minhas duas princesas.

Mas para quem está com saudades, recentemente dei uma entrevista para a TV Justiça, que pôs no ar semana passada uma matéria bem completa sobre parto. Há uma ou outra coisa de que eu não gostei, como o quadro que coloca "parto de cócoras" como um tipo de parto (cócoras é uma posição para parir), mas no geral a reportagem está boa e favorável ao direito da mulher de ter um parto humanizado. Eles mencionam inclusive o estudo inglês que conclui que não existem riscos aumentados em partos domiciliares planejados para gestantes de baixo risco.

Para quem quiser conferir:

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Vamos a Fortaleza! Quem quer palpitar?

Estamos de malas prontas (mentira, nem sombra de estarem prontas) para Fortaleza! E em meio a crises de bronquite mensais, mais um trabalho que arrumei pra completar o orçamento, não planejei absolutamente NADA.

Minha família é de lá, então parte da programação é mesmo visitar a parentaiada. Também já alugamos apartamento ali praquelas bandas Meireles/Aldeota.

Agora, a agenda está vazia e queria os pitacos de vocês.

Estamos levando duas crianças bem pequenas (uma de 2a6m e outra de 10 meses), então tem de ser coisa tranquila, sem muitas aventuras. Ficaremos 9 dias no total.

A maior parte das manhãs será passada mesmo na Praia do Futuro, então primeira enquete:

1) Na Praia do Futuro, quais as melhores barracas pros pequenos, que não sejam hiperlotadas (porque lotado, lá, tudo é) e que tenham uma mínima estrutura de banheiro?

Depois, estou pensando em reservar um dia pra visitar alguma praia nas redondezas. Não pode ser nada muito longe (1h30 de carro acho que seria o máximo), porque senão a gente chega já na hora do câncer e não aproveita. Também não dá pra ser um esquema que tenha que andar muito com menino no colo, porque Margarida já está com mais de 10kg e Emília também não aguenta caminhar muito tempo. E, finalmente: tem de ter empresa de turismo que nos leve, e aceite colocar as cadeirinhas das crianças na van, porque não vamos alugar carro. Se não acharmos nenhum lugar com essas condições, ficaremos só em Fortaleza mesmo.

Então, enquete número dois:

2) Qual a melhor praia nas redondezas de Fortaleza para ir com bebês, considerando a distância da capital e a estrutura do local?

A próxima enquete diz respeito a outras programações, pra fazermos à tarde, depois da soneca das meninas. Já temos o Dragão do Mar e a Beira Mar no roteiro, mas aceito mais sugestões. Alguém foi recentemente ao Parque do Cocó? Vale a pena?

3) Que programações a cidade oferece para o fim de tarde das crianças, incluindo passeios ao ar livre?

E, finalmente: onde comer? Como ficaremos num ap alugado, poderei cozinhar, mas não todo dia nem toda hora, né? Fortaleza é um lugar onde "verdura" significa salada de batata com cheiro verde. E nós somos uma família de vegetarianos, então temos um problema. Normalmente, quando vamos pra lá vivemos de baião de dois, mas como a cidade está ficando com uma estrutura cada vez melhor, acredito que vocês tenham dicas legais pra nós. Já conhecemos o Docentes e Decentes (ê, feijão bom!) e o Como Bambu.


4) Quais os bons restaurantes da cidade, que ofereçam opções saudáveis de alimentação?

A última enquete, espero eu, não me servirá de nada. Mas, por via das dúvidas:

5) Preciso de indicação de pediatra do bom (não precisa atender convênio) a quem eu possa recorrer em caso de crise. E também quero saber qual a melhor emergência pediátrica de Fortaleza. Podem mandar os nomes e os contatos dos médicos nos comentários que eles não serão publicados, ok?


Aceito sugestões até sexta-feira, que depois, pé na estrada!

terça-feira, 10 de julho de 2012

No MMqD, com ternura

Ontem, justamente ontem que um texto meu estava lá no Minha Mãe que Disse, minha internet me boicotou. Computador offline, a divulgação só sai agora. Antes tarde, que nunca.

É uma repostagem onde proponho uma educação com ternura, mesmo em momentos difíceis como a prévia dos terrible twos, mesmo com uma imensa barriga grávida.

Quem ainda não conferiu, passe .

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Dentes, pra que te quero?

video
E eu que andava dizendo que esses dentes aí só serviam pra deixá-la doente...

terça-feira, 3 de julho de 2012

Carta aberta ao Conar

Quase todo mundo já leu, mas deixa aqui eu fazer minha parte de formiguinha divulgando a campanha contra a publicidade infantil.

A audiência na Câmara está rolando agora, neste momento, e só não estou lá porque não tenho com quem deixar as meninas.

Mas assino embaixo.

Eu posso até tentar impedir que minhas filhas tenham acesso à publicidade durante a primeira infância. Mas e as crianças que não têm quem as protejam?


CARTA ABERTA AO CONAR

Duas recentes medidas do Conar referentes aos abusos da publicidade voltada para as crianças nos deixaram preocupados e ainda mais descrentes da atuação deste órgão com relação à proteção da infância.
A primeira foi a decisão de sustar a campanha da Telessena de Páscoa por anunciar para o público infanto-juvenil um produto que só pode ser vendido para maiores de 16 anos (de acordo com regulamentação da SUSEP). A segunda foi a advertência dada pelo Conar à Ambev, com relação ao ovo de páscoa de cerveja da Skol.

Ambas atitudes do Conar seriam dignas de aplausos – se tivessem sido tomadas quando as campanhas publicitárias estavam no ar, na Páscoa, em março. Mas o Conar só agiu em junho, quando as campanhas já não eram mais veiculadas.

Com isso, não houve nenhum impedimento para que a mensagem indevida da Telessena atingisse impunemente milhões de brasileirinhos e que a Ambev promovesse bebida alcoólica através de um produto de forte apelo às crianças. A advertência à Skol é ainda mais ineficaz, pois não impede que no próximo ano, produto semelhante seja oferecido.

O Movimento Infância Livre de Consumismo vê nessas decisões a comprovação de que o atual sistema de autorregulamentação praticado pelo mercado publicitário brasileiro é lento, omisso e ineficiente. Fato ainda mais grave quando se trata da defesa do público infantil.

Por isso, exigimos que a publicidade infantil sofra um controle externo como todas as atividades empresariais. Reiteramos nossa postura de que, sem leis e punição, jamais teremos uma publicidade infantil mais ética.

Nós, mães e pais, exigimos respeito à infância dos nossos filhos e solicitamos que estas duas atuações não constem dos autos do Conar como casos de sucesso. Contabilizar pareceres dados depois que as campanhas saíram do ar, como exemplo da firme atuação do Conar, é propaganda enganosa. E isso contraria o tal Código de Autorregulamentação que os publicitários insistem em tentar nos convencer que funciona.

***
 
[Este texto faz parte de uma blogagem coletiva proposta pelo Movimento Infância Livre de Consumismo juntamente com blogs parceiros. Este movimento é composto por pais e mães que desejam uma regulamentação séria e eficiente da publicidade voltada para crianças. Para saber mais acessehttp://www.infancialivredeconsumismo.com. br ]


quarta-feira, 27 de junho de 2012

Emília feminista e outras

Emília vendo fotos de quando eu era criança. Eu e meu irmão na foto:

- Olha, os dois! Não, os dois não purtê você é mulher. As duas.

E o pai:

- Emilinha, quando tem um homem e uma mulher, a gente fala "os dois".
- Pur tê?

...

+++

Fomos a uma loja baratex e compramos algumas roupas pra Emília.

- Emilinha, me diz quanto custou essa blusa?
- Dez Errais!

+++

E mais uma que não podia passar:

- Emilinha, você está muito cri-cri.
- Qui-quiança.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Procura-se uma escola

Quando minha primeira licença-maternidade terminou, decidi colocar Emília na creche. Para nós, era uma opção mais segura que babá. Na época em que visitei a escola, me apaixonei. O espaço era maravilhoso, o cardápio, impecável, e as educadoras pareciam cuidar bem das crianças. Todo o necessário para um bebê de apenas 7 meses. Além disso, Emília fazia aulinha de natação comigo lá mesmo na escola. Eles tinham aulas de música (simples, mas divertidas) e, para os maiorzinhos, artes. Lembro que observei os trabalhos colados nos murais e havia referências a artistas plásticos (na época, Van Gogh). Aquilo me cativou, já que eu amo arte.

Com o tempo, foram aparecendo os problemas (que sempre os há). Fomos vendo que a escola era um pouco mais tradicional do que parecia ser e que havia algumas dificuldades em lidar com a diferença - como quando Emília começou a morder os colegas e insinuaram que era porque ela tinha restrições alimentares. Autorizamos nossa filha a comer os lanches que ela não comia e não adiantou nada, ela continuou mordendo. Parou quando eu a tirei do integral.

Além disso, soube de pais que tinham filhos em outras salinhas que o troca-troca de professores estava grande. A professora de artes saiu e as crianças ficaram um tempo sem essa atividade. A coordenadora explicou que às vezes as educadoras pedem pra sair e que eles não podem fazer nada, mas todos sabemos que em lugar onde as pessoas são valorizadas e bem pagas há muito menos rotatividade de profissionais.

Começamos então a procurar uma instituição que fosse mais a nossa cara, menos padronizada, mais plural, e que valorizasse mais os professores. Visitamos uma que tinha uma proposta muito bacana, com enfoque na autonomia da criança, mas não nos convenceu. Achamos as salas com um aspecto de desleixo e ficamos inseguros quanto ao método. Como a escola da Emília passaria uma das educadoras para o nível seguinte junto com a turma, e ela permaneceria com a mesma professora e os mesmos colegas, decidimos mantê-la na escola antiga (até porque, com o nascimento da irmã, seria menos uma adaptação pra ela).

Com o início do ano letivo, estávamos relativamente satisfeitos. Eles estavam investindo na nutrição, com a introdução de alguns vegetais orgânicos, a troca dos pratos e talheres de plástico por outros de inox, e um cardápio cada dia mais bacana e variado. Contrataram uma nova professora de artes (apesar do que eu nunca mais vi nas paredes trabalhos que fizessem referência à história da arte) e fizeram uma salinha de leitura muito bonitinha. Na turma de dois anos começou também o projeto de leitura, e toda sexta-feira Emília traz um livrinho pra casa. Alguns são bem fraquinhos, mas outros são excelentes. Em todo caso, o simples fato de a escola incentivar a leitura desde cedo já vale o crédito.

O grande problema começou com a soneca. Essa era uma questão antiga, que vinha desde que passei a Emília pro turno matutino (com 18 meses). Ela ficou na escola em período integral até o fim do primeiro semestre do ano passado, quando emendei férias, licença médica e licença maternidade. Em julho, eu gravidíssima, fiquei as duas semanas de férias escolares cuidando sozinha dela. Eu a colocava pra dormir às 13h e ela ia até as 15h, o que me dava um bom tempo pra descansar (e eu precisava daquela soneca). Assim que as aulas recomeçaram, de repente ela passou a cochilar de manhã mesmo, na escola. Então ela chegava já dormida e eu perdi minha soneca da tarde. Até cheguei a me sentir mais cansada do que quando ela passava o dia em casa, e fiquei me perguntando se estava valendo a pena. Com a chegada iminente da Margarida, achei melhor não mexer. E ela ficou até o fim do ano letivo dormindo na escola.

Com o início deste ano, Emília já com dois anos e tendo passado as 5 semanas de férias cochilando no início da tarde, e não no fim da manhã, achei que era hora de ela não dormir mais na escola. E pedi pra que não a colocassem pra dormir depois do almoço (essa inclusive já era uma solicitação de vários pais cujos filhos estudam de manhã). No entanto, várias vezes ela dormia. Às vezes eu achava conveniente, até porque ela não mamava quando dormia na creche, mas a situação começou a ficar feia. Meu marido vinha pra casa, almoçava correndo e ia buscá-la às 13h30 (horário limite para o matutino). Chegando lá, muitas vezes ela ainda estava dormindo. Ele chegava a esperar meia hora para que ela acordasse. Com o tempo de vir deixá-la em casa, só conseguia chegar ao trabalho ali pelas 15h. Consequentemente, não conseguia voltar pra casa cedo no fim do dia, e eu ficava enlouquecida sozinha com as meninas na hora do nosso rush (jantar, banho e sono). Muitas vezes dei banho nas duas e coloquei Margarida pra dormir enquanto Emília esperava sozinha na sala.

Além disso, com Margarida crescendo, Emília acordada à tarde significava necas de soneca pra pequena. Margarida não conseguia mais dormir com a irmã em casa. E eu, muito menos.

Então fomos taxativos: Emília não vai mais dormir na escola. Não faz sentido nenhum uma criança que passa de 4 a 5 horas na escola ficar 2h dormindo. Não há necessidade, até porque, com dois aninhos, ela aguenta muito bem até o início da tarde pra dormir em casa. E eu pago uma escola é pra me ajudar, não pra me atrapalhar.

Eles resolveram a situação e, quando íamos buscar Emília (o Rafael começou até a buscá-la bem mais cedo, às 12h30, pra que ela não ficasse cansada demais), ela estava lindamente brincando no pátio. A vida ficou muito melhor: meu marido saía do trabalho, passava na escola (que fica no caminho) e vinha pra casa. Eu punha Emília pra dormir enquanto ele dava o almoço da Margarida e depois ele almoçava sossegado com as duas cochilando. E conseguia voltar pro trabalho às 14h, rotina que estamos adotando até hoje.

Até que... Rafael passou a encontrar Emília dormindo várias vezes em que ia buscá-la na escola. Duas vezes na semana, em média. Ele tinha de voltar pra casa, engolir o almoço e depois retornar à escola pra buscá-la. Começamos a contestar: por que ela está dormindo? Será que ela está lá no escorregador e dorme? Então descobrimos que, de 11h30 às 12h, TODAS as crianças ficavam deitadas no colchão, inclusive aquelas cujos pais pediram que não dormissem. Óbvio que, no escuro, deitada, sem nada pra fazer, eventualmente elas acabarão dormindo. E quando não dormem, ficam igual zumbis depois (e começou a ser o maior estresse pra fazer Emília dormir em casa, porque ela chegava nervosíssima). A desculpa da coordenação foi que eles não tinham ninguém pra ficar com as crianças que não dormem nesse período. E que eram poucas crianças. Ora, eu conheço pelo menos cinco. E cinco crianças dá um cuidador. Se fossem dez, precisariam de dois cuidadores.

E como se não bastasse, a coisa piorou. Alguns dias o Rafael chegava na escola às 12h30 e Emília estava dentro da sala. Perguntei a ela o que ela tinha ficado fazendo durante uma hora, no escuro, sozinha, sem poder fazer barulho pra não acordar os colegas: "Fiquei desenhando e empilhando cadeiras". Aquilo me cortou o coração. No mesmo dia comecei a ligar pra outras escolas e agendar visitas.

Como eu já tinha conversado pessoalmente com a coordenadora e ainda relatado a questão por escrito, só me restou deixar um recado na agenda da Emília para que as educadoras também conhecessem nossa insatisfação. Alguém poderia me dizer que, se a soneca é rotina da creche, eu deveria me adaptar. Mas aí, meus amigos, que a escola dissesse que só tem atividade até 11h, e não até 13h30. E mais: parece que você pode buscar seu filho em qualquer horário até 13h30, mas, não: você tem de buscá-lo na hora em que ele resolver acordar. Porque quem tem coragem de acordar às 12h15 seu filho que foi dormir às 11h45? E 13h30 é um horário péssimo pra buscar uma criança na escola, especialmente se muitas vezes você é obrigado a esperar até as 14h ou mais. Pros meninos do integral, a soneca no fim da manhã é ótima, indiscutível e indispensável. Mas não faz sentido nenhum que crianças de dois a três anos durmam na escola se estarão em casa à tarde.

Depois desse recado ameaçador, eles parecem ter resolvido a questão. Começaram a levar as crianças pra salinha de leitura. Ficamos bastante satisfeitos: quando chegávamos lá, Emília estava ouvindo historinhas, lendo ou brincando de massinha. E a mudança de escola ficou em banho-maria.

Até que surgiu a Galinha. Sim, aquela azul de pintinhas.

Foi numa dessas reuniões de pais. Reunião bacana, feita na própria salinha das crianças, em que as professoras mostraram como é a rotina do dia. Finda a reunião, vamos buscar Emília na salinha de leitura (num horário mais tarde que o habitual, por causa do evento). Então a encontro com uma cara de zumbi, o corpo todo voltado pra frente, escutando e vendo "Marcha soldado" em arranjos de teclado e animação em flash. Chamei-a várias vezes pra ir embora, e ela só me viu quando a amiga do lado lhe deu um cutucão. "Espela, deixa acabar."

Saímos de lá com um bico de todo tamanho, e eu dizendo ao meu marido: "Calma, deve ter sido uma exceção, já que todas as educadoras estavam ocupadas com a reunião." E, no caminho pro carro, uma surpresa nada agradável: tinham cimentado a horta.

No dia seguinte, meu marido foi perguntar à coordenadora com que frequência a dona Pintadinha vinha visitando a escola. Ela disse que eventualmente, para fins pedagógicos (oi?), as crianças viam televisão. Para as crianças até dois anos, às vezes isso acontecia nos plantões. Mas, para a turminha de 3 anos, existem dois horários na grade reservados para esse tipo de "atividade", que durava, no máximo, 40 minutos. Que os pais tinham sido consultados e concordaram, que o material era selecionado, que não tinha violência nem princesas. O Rafael disse que não gostava da Galinha Pintadinha, que era muito feio, que Emília mal via televisão em casa e que existe um estudo seríssimo condenando o uso de qualquer mídia eletrônica para crianças menores de três anos. Ela perguntou se gostávamos de Cocoricó.

Agora preciso respirar fundo.

Cocoricó é legal? É, muito legal. E existem muitas produções audiovisuais voltadas para crianças que são maravilhosas. Quando Emília tinha um ano e meio, levei-a ao cinema pra assisitir ao Pooh (que ela chama de Puff, ai, orgulho!), e nós duas amamos. De vez em quando também coloco desenhos do Snoopy pra ela ver (que são lindos, cenários de aquarela belíssimos e trilha sonora profissional), ou alguns filminhos no You Tube como O Caminho das Gaivotas e o gatinho Komaneko. Tudo com no máximo 20 minutos de duração. Mas a questão vai muito além da qualidade dos programas.

Digamos que você não vê problema nenhum em que seu filho veja Galinha Pintadinha. Digamos que você mesma tem alguns DVDs e coloca no carro, quando vai viajar, ou usa para deixar seu filho entretido enquanto precisa fazer outra coisa. Imagino que mesmo você não vai gostar de saber que os mil merreis que paga pro filho passar 4 ou 5h na escola está sendo gasto com cineminha. Se eu deixo Emília com minha mãe, que tem mais de 60 anos e acabou de passar por um tratamento de saúde super agressivo, e ela assiste com Emília um longa de animação, não posso reclamar. Mesmo sem receber nada por isso, fica o tempo todo ao lado da neta, comentando cada cena e respondendo às mil perguntas que ela faz o tempo todo. Agora, isso é a casa da vovó, ou até a sua casa. Mas isso não é uma escola.

Escola não é pra ser meramente um depósito de crianças, um lugar onde você deixa seus filhos para poder trabalhar. A escola é uma instituição onde se espera que as crianças sejam educadas e se desenvolvam, numa parceria com os pais. É verdade que, até os 4 anos, a escola não teria nada a acrescentar além do que oferece a presença materna. Mas são poucas as mães que podem (e querem) ficar integralmente com seus filhos durante esse período, razão pela qual a escola tem um papel social absolutamente crucial.

O que tem me deixado triste é o processo de sucateamento das instituições. É rodízio de professores, destruição da horta e substituição de atividades pedagógicas pela babá eletrônica. Televisão é entretenimento? Sim, de qualidade às vezes duvidosa, mas é. As crianças gostam? Sem dúvida. Agora, pedagógica? My ass. Na educação infantil, a televisão é usada para cortar gastos com pessoal, tampar buracos na grade e facilitar a gestão da escola. Só e somente só. Qualquer papo-furado sobre o papel educativo da mídia não cola comigo.


Já deve ter um monte de gente gritando em coro: "muda de escola! muda de escola!". E aí vem o problema: pra onde, meu Deus? Soube que uma creche considerada das melhores da cidade andou passando Shrek 2 para crianças de 3 anos. Outra escolinha muito simpática, montessoriana, com horta e jardim, instalou no ano passado projetores multimídia nas salinhas e deu boas vindas ao tal "Portal da educação". E amanhã visitarei mais uma escola, sem muita esperança.

E por que eu não tiro Emília da escola e fico com as duas, já que estou sem trabalhar? Olha, já fiquei tentada a fazer isso muitas vezes. Minha vida atualmente está perfeita, mas essa não é uma situação que se sustenta a longo prazo. Não cabe mais um filho na nossa vida atualmente (eu não teria grana nem pra pagar um pré-natal). E se eu não buscar outras alternativas profissionais neste período, daqui a três anos serei obrigada a retornar ao meu trabalho em tempo integral. E não é isso que eu quero pra minha família. Então, pretendo voltar a estudar no ano que vem, e Emília e Margarida serão cuidadas por outrem durante 4 horinhas do dia. Se bem cuidadas, fico tranquilíssima com o esquema.

E babá? Preciso respirar fundo de novo.

Como estou com as meninas a semana toda, sou frequentadora assídua do parquinho e conheço todas as babás da quadra. Eu teria coragem de deixar minhas filhas com apenas três delas. Entre as outras, uma guarda a chupeta do menino dentro do sutiã, outra fala com os meninos sempre ralhando, e todas ficam com a bunda colada no banco enquanto os moleques fazem xixi na grama do parquinho (por sugestão delas, aliás) ou fogem e vão parar no meio da rua. Só se Deus fosse muito misericordioso e me mandasse uma anja. Por enquanto, continuo procurando a escola dos meus sonhos...



Procura-se uma escola:


- onde eu não me sinta uma chata ao conversar com a coordenação, mas onde a participação dos pais seja mais que bem-vinda;
-  onde os professores sejam valorizados, recebam salários dignos, sejam bem tratados e capacitados continuamente;
- onde eu sinta que minhas filhas estão efetivamente aprendendo, e onde suas capacidades e potenciais sejam aproveitados.

E, principalmente, procura-se uma escola onde minhas filhas sejam felizes. E quando alguém perguntar a elas se gostam da escola, possam responder, igual uma menina que encontrei certa vez: "Adoro!"

(E, já ia esquecendo: procura-se uma escola que não tenha televisão.)

+++

Um adendo: obrigada a todas pelas sugestões de escola, mas esqueci de adicionar um item à listinha acima que desqualifica a Waldorf: a escola tem de ser laica (ou, se confessional, pelo menos cristã, que é a nossa religião). Realmente a pedagogia Waldorf tem mil coisas que são a nossa cara, mas eles têm uma origem mística bem diferente da nossa fé. E não quero nenhuma confusão na cabecinha das minhas filhas em relação à formação espiritual, especialmente nessa primeira infância. Então, lamentavelmente, é menos uma pra lista.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Mentiras obstétricas

A revista, depois de citar algum médico do Conselho Regional de Medicina de São Paulo condenando o parto domiciliar, além de certo "estudo" que já foi derrubado por pesquisas científicas sérias, exibe fotos das melhores suítes de parto do estado e deixa a seguinte lição nas entrelinhas: "Mãezinha: você pode ter um lindo parto humanizado num hospital. Então deixe dessa frescura de querer parir em casa e entregue seu corpo pra quem entende do assunto, ok?".

Depois, o canal de televisão faz uma matéria menos tendenciosa, com o mérito de entrevistar profissionais de saúde qualificados, entre eles o professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Jorge Kuhn. Mas deixa a mesma lição: o hospital oferece todas as condições para um parto natural. Parto em casa é capricho.

Daí alguém começa a te questionar: "Por que você pariu em casa? É perigoso..." E você explica que os riscos são idênticos (ou menores) aos de um parto hospitalar de baixo risco, e que isso é corroborado pelas melhores evidências científicas. Mas, como diz aquele programa dominical, "recentemente uma mulher morreu na Austrália após um parto domiciliar..." Você pode refutar: "Sério? Pois eu sei de um caso aqui mesmo na cidade, no hospital X, de uma mulher que morreu após uma cesárea eletiva. E sei de outra que ficou vegetativa após receber uma medicação para dor durante o trabalho de parto." E pode dizer, ainda: "Pessoas morrem. A mortalidade materna e neonatal no hospital não é zero, sabiam?" Mas, não. Eu me baseio na minha experiência pessoal, e as evidências científicas que se danem.

Aqui em Brasília existe uma grande avenida, sem semáforos, chamada popularmente de Eixão. Velocidade máxima: 80km/h. Atravessar o Eixão por cima é perigoso, é melhor usar os túneis. Mas tem gente que se recusa: "Esses túneis são um horror... já pensou se eu for assaltada lá dentro? Eu atravesso o Eixão por cima todo dia e nunca fui atropelada." Daí você sabe de alguém que foi atropelado andando na calçada e conclui que andar na calçada é tão perigoso quanto atravessar o Eixão.

Os estudos que concluem pela segurança do parto em casa não se baseiam em clippings de jornais e revistas - ao contrário da opinião pública. Eles se baseiam em uma quantidade significativa (milhares) de nascimentos planejados para acontecerem em casa, com assistência qualificada, e os comparam a nascimentos de baixo risco planejados para acontecerem no hospital. Óbvio que se você morrer atropelado enquanto estiver andando na calçada, isso vai virar notícia. Mas isso não é ciência.

E aí vem a primeira mentira. Parir no hospital é seguro, parir em casa é perigoso. Não sou eu que vou tentar convencer ninguém. Quem quiser pensar, pode começar lendo este artigo. A médica que o escreveu, Dra. Melania Amorim, tem nada menos que dois pós-doutorados (um pela Unicamp e um pela OMS). O parto em casa tem riscos, assim como o parto hospitalar. Não se iluda achando que, agendando uma cesárea, seu bebê ou você jamais vão morrer ou ter alguma sequela.

A segunda mentira é que qualquer pessoa pode ter um parto humanizado no hospital. Para começar, são poucas as cidades que dispõem de maternidades com estrutura adequada para um parto humanizado - quarto PPP (pré-parto, parto e pós-parto), cama apropriada, larga e com a cabeceira reclinável, banheira etc. E quando tem, vira e mexe aparece uma enfermeira chamando a mulher de "mãezinha" ou mandando fazer força de cocô. É frescura eu não querer ir pro hospital porque lá me chamam de mãezinha? Não é não, senhores repórteres. Não é não, conselhos de medicina. Se vocês fossem lá nas evidências científicas, saberiam que uma fêmea precisa de sossego para parir, e qualquer interferência pode gerar complicações e tornar o processo do parto mais difícil e longo - e, portanto, perigoso.

Outra mentira é que, se a cesárea foi necessária, que bom que eu estava no hospital. Considerando nossos índices de cesarianas, é óbvio que a maioria esmagadora delas está sendo feita sem indicação clínica. Mas existem aquelas - por sofrimento fetal, por exemplo - que se tornam necessárias devido à má assistência ao parto. Internações precoces, maus tratos com a parturiente, ambiente inadequado. Tudo isso pode fazer o bebezinho ter medo de sair. E você, ter medo de deixá-lo sair. Isso não é fantasia. É ciência. O vilão se chama adrenalina. E vá olhar: das mulheres que planejam ter seus filhos em casa, pouco mais de 10% têm de ser submetidas à cesárea - taxa recomendada pela OMS. Essas sim, maravilhosas e salvadoras. Mas por que será que 90% dessas mulheres conseguem parir?

Eu poderia falar de muitas outras mentiras. Mas a verdade dói. A verdade é que mulheres grávidas e em trabalho de parto não precisam de médicos senão para vigiá-las, e intervir apenas em caso de necessidade. A verdade é que o hospital só é necessário em caso de intercorrências e que, sim: dá tempo de transferir. Talvez algum bebê (um em mil) ou mãe (uma em cinco mil) que não teria morrido no hospital morra em casa. Mas vários bebês e mães que morreram no hospital poderiam estar vivos se tivessem tido um parto domiciliar bem assistido. Mas como gostam de jogar pedra na Geni...

A verdade é que os conselhos de medicina não estão protegendo nem mulheres, nem bebês. A verdade é que não existe, do ponto de vista da segurança, nada que justifique que sejamos privadas do direito de escolher.

Pelo direito à escolha do local de parto e pela assistência obstétrica baseada em evidências.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Desmame - o processo

Como desmamar uma criança? Eis uma pergunta que muitas mães se fazem.

Amamentar é um processo de fusão, uma etapa (que deveria ser) natural após o parto. Desmamar é um processo de desfusão, uma etapa que, apesar de ser natural, é repleta de crises. Para mim, a separação sempre pareceu mais difícil que o encontro. O parto, mais difícil que a concepção. A volta ao trabalho, mais difícil que a permanência em casa com o bebê. A introdução de alimentos, mais difícil que o aleitamento exclusivo. Apesar disso, todas essas fases podem ser maravilhosas, se vivenciadas no tempo certo e com o devido apoio. E mesmo quando muito difíceis, nos trabalham, nos amadurecem. A nós e aos nossos filhos.

Falarei sobre o desmame de uma criança que já foi amamentada por todo o tempo recomendado pela OMS e pelo Ministério da saúde: dois anos. Uma criança que já não é mais um bebê, que já está pronta para, gradativamente, conquistar sua autonomia e se fazer um indivíduo separado da mãe. Uma criança que fala e entende melhor o que está acontecendo. Uma criança que já tem o sistema imunológico mais forte, está menos vulnerável a doenças graves e, portanto, menos dependente dos anticorpos e do calor materno para vencer vírus e infecções. Uma criança menos dependente do seio para se manter hidratada durante enfermidades e mais resistente à perda de peso que normalmente acontece nessas situações. Uma criança que poderia viver sem leite se não tivéssemos domesticado a vaca e não morreria se a Nestlé não existisse.

Se pensarmos no desmame como um processo de diminuição gradativa da ingestão de leite materno até a completa desvinculação do seio, poderíamos dizer que ele começa aos seis meses, com a transição alimentar. A criança vai, paulatinamente, comendo mais e mamando menos - até que, com um ano, é esperado que a alimentação sólida represente a parte principal da sua alimentação, tendo o seio virado um (importantíssimo) complemento.

E aqui entra a nossa experiência.

Entre um e dois anos, não houve muita evolução no processo de desmame da Emília. Talvez porque ela tivesse chegado a um ano de vida mamando apenas três vezes ao dia (já que eu trabalhava o dia inteiro). Nessa mesma época, engravidei novamente e meu leite diminuiu muito (quase acabou no segundo trimestre, antes de ser substituído pelo colostro). Assim, ela passou a comer muito, mas continuava mamando. Houve uma época em que ela passou a mamar apenas duas vezes, mas aos 18 meses voltou às três vezes.

Depois que Margarida nasceu, veio muito leite, o que trouxe uma regressão ao processo. Emília chegava a mamar quatro vezes ao dia, e comecei a perceber que o excesso de leite estava atrapalhando a alimentação dela. Ela parou, por exemplo, de tomar café da manhã. Então começamos a coisa pra valer.
 
Vou retornar um pouco no tempo e começar com a primeira etapa do nosso desmame. Eis o nosso passo-a-passo:

1a etapa: desmame noturno

Com um ano de idade, o pai assumiu as noites. Emília mamava a madrugada inteira naquela época, eu tinha acabado de engravidar e estava naquela fase de sono mortal. Precisava dormir. Conversamos com ela (e essa é a parte boa de lidar com crianças maiores) e explicamos que ela não mamaria mais à noite, que o pai ficaria com ela, dormiria com ela se fosse o caso. Depois de umas três noites, ela parou de chorar. Depois de duas semanas, ela dormia a noite toda.

2a etapa: o fim da livre demanda

Depois que Margarida nasceu e a farra do leite bagunçou meu coreto, decidi estabelecer horários para as mamadas. Emília mamaria apenas três vezes ao dia (aquela quarta vez que estava vindo de brinde acabou), e sempre depois das refeições. Sempre tem um estressezinho, viu? Mas em alguns dias (ou poucas semanas) ela se acostuma e não pede mais.

3a etapa: o corte das mamadas

Depois que fechamos nessas três mamadas, foi a hora de diminuir. E aí entra a sabedoria materna: não existe uma fórmula sobre qual a mamada é melhor tirar: se a matinal, a vespertina ou a noturna. A gente tem de avaliar qual é aquela que está mais chata, que está atrapalhando mais a rotina, ou qual é aquela de que a criança abrirá mão com mais facilidade. Aqui, diferentemente da maioria dos lares, a que sobrou foi a vespertina. Normalmente as crianças ficam com a da noite.

4a etapa: pulando dias

Nem comentei ainda, mas o mote clássico do desmame natural é: não negue, mas não ofereça. Meu desmame não está sendo totalmente natural, estou guiando minha filha nessa separação. Mas poderia ser. É uma opção da mãe.

Mas, voltando. Como parei de oferecer, se Emília não pedia, não mamava. Ela começou a associar a mamada vespertina ao soninho da tarde. Então, se ela dormia sem o peito (na creche, ou no carro), quando acordava não pedia. E eu não oferecia. Assim, começamos a pular uns dias.

A primeira vez que ela passou um período mais longo sem mamar foi quando fiquei internada com Margarida. Foram três dias. E esta história eu ainda não contei aqui, mas é linda:

Quando saímos da UTI e fomos pro quarto do hospital, Emília finalmente pôde nos visitar. Passamos uma tarde deliciosa, até a hora de ela ir embora. Ela me agarrou e começou a chorar, desesperada porque eu não voltaria pra casa com ela. Então ofereci: "Emilinha, você quer só um pouquinho de mamá?". Ela fez que sim com a cabeça, se aninhou no meu colo e mamou 5 minutinhos de um peito murcho, murcho, que Margarida vinha secando. Depois me deu um beijo e se despediu numa tranquilidade celestial. Saiu pelo corredor do hospital meio grogue de ocitocina, repetindo, feliz: "A mamãe deu o mamá pá Emília! A mamãe deu o mamá pá Emília".

Desde então, ela fica em média dois dias sem mamar por semana. Normalmente, quando dorme na escola. Como pedi que não a colocassem mais pra dormir, já que isso bagunça toda a nossa rotina em casa, disse a Emília que agora ela não mamará mais nos fins de semana e feriados. Isso porque o pai está aqui e fica mais tranquilo colocá-la pra dormir sem o peito. Assim que ela estiver bem treinadinha a cochilar sem o peito, vamos pulando mais e mais dias. Tenho uma meta (que não é rigorosa) de desmamá-la totalmente nas férias de julho. 

Essa tem sido a nossa experiência. Cada família terá a sua. Mas o que sempre deve estar presente neste e em qualquer processo de separação é a paciência, a espera pela hora certa, muito afeto e muita conversa.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Terrible ou hilarious twos?

Tudo depende do ponto de vista.


Emília mandona

O pai chegou à creche para buscar Emília, o estacionamento estava lotado. Então ele parou em uma vaga paralela, com uma cerca viva ao lado que mal permitia abrir a porta do passageiro. Emília chega ao carro e reclama:

- Pur tê você palô ati?
- Porque o estacionamento estava cheio, Emilinha.
- Tá não, olha lá, tem dois - e aponta para o monte de vagas que surgiram depois que o pai chegou. - Da póxima vez você pála lá, tá bom? Purtê ati fita muito apertado pá Emília subir.


Emília mandona 2

Ela chega da escola, estou com Margarida no colo, fazendo inalação.

- Eu telo a mamãe.  
- Quando eu terminar a inalação eu fico com você, ok?
- Não! O papai faz a inanação na Mardalida, você fita tom a Emília.


Emília EMO

Fomos levar Margarida ao pediatra e esquecemos o lanche da Emília. Então falei que se ela tivesse fome, na volta poderíamos comprar uma salada de frutas na lanchonete ao lado. Saindo do consultório, ela pediu a salada. Morremos 5 contos na lanchonete e sentamos na mesinha:

- Não telo a salada. Telo pão.

Não comprei pão, disse que se ela estivesse com fome, que comesse a salada. E começou a choradeira, que durou até já estarmos todos no carro.

- Eu telo pão!! Aaaaaahhhh!! Telo pão!!! - funga, funga.

Para distraí-la, comecei a cantar uma música que ela adora:

- Boi, boi, boi, boi da cara rosa, pega essa menina que é muito carinhosa...

Silêncio.

- Canta, Emilinha!

- Não, eu tô cholando.



Emília aparecida

Estavam aqui minha irmã e minha prima, aquela farra na cozinha. Alguém estava brincando com uma bola de plástico, que foi bater em cheio na testa de Emília. Todos caíram na gargalhada.

- Todo mundo riu! Todo mundo riu!

Então entregou a bola pra tia e pediu pra repetir a dose:

- Adola todo mundo vai rir de novo, té vê?

E, óbvio, todos riem.

- Todo mundo achou daça! (graça)


Emília enrolona

Taí, esta eu acho que é a marca dos dois anos: a enrolação. Impressionante como essas crianças são especialistas na arte de embromar. E Emília, sagaz, descobriu exatamente quais as coisas que nunca negamos, para pedir estrategicamente quando não quer dormir, ir embora ou parar de fazer o que está fazendo.

Hora de sair da casa da vovó?

- Tô tom fome. Telo almoçá.

Nas primeiras vezes, eu procurava algo pra ela comer, morrendo de medo de a menina passar fome. Trou-xa!

Não quer dormir?

- Telo fazê xixi.

E lá vou eu levá-la pro vaso. Passa um, passam dois, três minutos. E parece que a menina tá desfraldando agora, porque nada de xixi. Tiro do vaso, vou levá-la novamente pra cama.

- Telo fazê xixi.

Na terceira vez, quando percebo que ela está quase dormindo no vaso, a gênia aqui percebe a estratégia.

E a última, quando quer ser carregada no colo:

- Minha pernas tá doendo. 


Emília independente

Com essas repetidas crises respiratórias de Margarida, nós ficamos muito cansados e convocamos os amigos e familiares para fazerem programações com Emília. Ela tem adorado.

Ontem, foi a uma festinha de aniversário com um casal de amigos que tem uma filha alguns meses mais nova que Emília.

Quando chegou, perguntei:

- E aí, Emilinha? Como foi a festa?
- Foi malavilhosa!

sexta-feira, 18 de maio de 2012

To blog or not to blog

Eis a questão.

Enquanto estou aqui, eu poderia estar: dormindo, lendo, arrumando a casa, cuidando das plantas. Essas são as coisas que faço enquanto as meninas dormem. Mas é só sentar para dar uma zapeada nos blogs das amigas, fazer um comentário aqui e ali, começar a esboçar um post, que já se foi um tempo danado. Então decidi que o tempo gasto diante deste computador será exclusivamente para espairecer, quando eu precisar, digamos, de um coffe break. E comer um bolinho com chá enquanto leio ou escrevo cai muito bem.

Ou seja: um tempo restrito, esporádico, que combina totalmente com minha infrequência por aqui nos últimos tempos.

Estava reparando que, em 2009, fiz 115 postagens - isso porque comecei o blog em junho. Uma média de 16-17 postagens por mês. Em 2010, foram 171 - pouco mais de 14 por mês. Em 2011, 101 - e a média caiu pra 8. Este é o 23o post do ano, o que me leva para uma média de 5 postagens por mês. E qual a grande diferença entre cada um desses anos? Acertou quem disse: filhas. E também quem disse: licença maternidade (e licença eternidade). Porque, convenhamos: quando a gente passa 8h por dia num escritório, e ainda tem de almoçar por lá, quem não dá uma escapadela pra blogar? Já em casa, a chefia é mais rigorosa... e o trabalho, inesgotável.

Então, deixa eu voltar pro batente que Margarida teve bronquiolite outra vez (sim, é o terceiro episódio e estamos de fato diante de um bebê chiador). E a gente se vê quando Deus der bom tempo.

domingo, 6 de maio de 2012

Comeu e dormiu

Ela tem quase oito meses, quase oito dentes, quase dez quilos e quase duas internações. Depois de quarenta dias, Margarida contraiu sua segunda bronquiolite. Não se sabe se ela é um bebê "chiador", um bebê hiperalérgico ou se simplesmente foi uma coincidência ter pego essa doença duas vezes num espaço tão curto de tempo. O vírus está à solta. Na UTI pediátrica do hospital onde ela ficou internada mês passado, os quatro leitos estão ocupados com quatro bronquiolites. Todos bebês de menos de um ano que têm irmãozinhos mais velhos pra trazerem vírus pra casa.

Mas graças a Deus desta vez ela foi tratada em casa e já está de alta dos remédios, tomando só um fitoterápico pra terminar de secar o catarro.

Apesar de extremamente cansativa - seis, sete inalações por dia, broncodilatador de 4 em 4h, inclusive de madrugada, soro no nariz de hora em hora, fisioterapia em casa e três consultas no pediatra em uma semana -, essa bronquilite foi muito mais tranquila que a primeira, porque estávamos em casa. Parto domiciliar é tudo de bom. Doença domiciliar só não é tudo de bom porque é doença, mas é certamente bem melhor que no hospital.

Da outra vez, além de eu ter dormido necas no hospital, Margarida passou a semana seguinte à internação acordando de madrugada aos berros, em pânico. Estresse pós-traumático. Foi muita aromaterapia, música instrumental, passeios ao ar livre e, principalmente, colo, pra fazer as coisas voltarem ao normal.

Desta vez, uma semana após o diagnóstico ela já estava dormindo a noite toda. Os primeiros dias da doença são difíceis, porque ela chegava a passar uma hora tossindo sem parar em plena madrugada. Mas à medida que o catarro foi secando, ela começou a dormir melhor. Como eu também estava resfriada, e muito cansada com os cuidados do dia, o Rafael ficou por conta à noite. E sem mamar à noite, tcha-nam! Desmame noturno. Pelo menos por enquanto.

Funcionou com Emília, está funcionando com Margarida: quando não tem peito à noite, o interesse em acordar diminui. E há três noites ela dorme direto de 18h às 6h. Nas duas primeiras noites ela acordou às 21h30 pra mamar (era a hora em que dávamos o broncodilatador). Mas ontem foi direto, totalizando inéditas 12h de jejum. Comemoremos, até que venham os pré-molares.

E hoje aconteceu mais um milagre: ela comeu. Pelo visto minhas filhas não são muito chegadas nos alimentos sólidos. Já estava quase escrevendo um post "Mi niña no me come", ou melhor, mi niña sólo me come a mi, a mim e aos meus peitos. Mas hoje Margarida comeu impressionantes três colheres, talvez quatro, de milho com cenoura. Também não comeu mais nada o dia inteiro, mas, né? Quase um banquete.

Nem cheguei a falar sobre como anda a introdução de alimentos de Margarida, mas é isso, não anda. Ela bebe muito bem, água e chá. Suco, nem tanto. Mas hoje creio que as portas foram abertas, e devagar e sempre chegaremos lá.

Sarou, comeu e dormiu. Precisa de mais?

sábado, 28 de abril de 2012

A morte, as minhocas e outras gracinhas

Emília anda intrigada com a morte. Começou com um livro (maravilhoso, super recomendo), "Fico à espera" (Davide Cali e Serge Bloch, Cosac Naify). Não é especificamente sobre a morte, mas sobre os ciclos da vida. No livro, a esposa do narrador morre e expliquei pra Emília que é porque ela tinha ficado muito velhinha e foi morar com o papai do céu. Pra nós essa explicação é a mais pura verdade, porque cremos nisso.

- Tando eu for bem velhinha, eu também telo ir molá tom o papai do céu!

+++

Ontem ela estava mexendo no minhocário.

- Emilinha, deixa eu pegar essa minhoca pra ela não fugir.
- Ela vai morrer? - ela sabe que as minhocas não sobrevivem fora da caixa, elas secam.
- Vai.
- Ela vai molá tom o papai do céu?
(risos internos)
- Vai.
- Se Deus tisé. (quiser).

+++

No carro, Emília começa a monologar:

- A pizzalia é ludá (lugar) di tomê pitas... A sovertelia é ludá di tomê soverte.

- E o que mais, Emilinha?
- ...
- A padaria?
- A padalia é ludá di tomê pão.

E conferindo se já estava bom pra nós:

- Esteci alduma toisa?

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Emília e Margarida - amor e regressões

Desde que Margarida nasceu, Emília é absolutamente apaixonada por ela. A primeira coisa que faz quando acorda é procurá-la, dar bom dia, fazer carinho, beijar, abraçar. Quando a vê, dá um sorriso de encanto, e não há mau humor que persista.

Ontem Emília acordou da soneca da tarde e pediu pra ir ao banheiro. Depois de colocá-la no vaso, fui buscar Margarida. Sentada no vaso, Emília ficou toda animada com a chegada da irmã e comentou da roupa dela:

- Você tá de molandinho [moranguinho], Marralida. Ti bunitinha!

Ela aperta as bochechas da Margarida e diz: "Dotosinha!"

Claro que de vez em quando os carinhos se tranformam em momento Felícia. E às vezes rolam uns tapas e empurrões. Mas a relação entre irmãos, sendo a mais sincera de todas, é feita disso.

Margarida, por sua vez, acha graça em tudo que Emília faz. E é muito bom pra ela ter uma irmã, já que raramente ela fica sozinha. Mesmo quando estou fazendo outra coisa, Emília está lá com ela.

Também não temos muito conflito com brinquedos, já que deixamos Emília brincar com qualquer coisa da Margarida (desde que não seja tomado) e Margarida também brinca com qualquer coisa de Emília (desde que não seja rasgável ou engolível). Como Emília era muito pequena quando Margarida nasceu, não tem o senso de posse muito forte. E apesar de saber direitinho o que é de quem, está acostumada ao uso coletivo.

Mas em toda sua adoração pela irmã, Emília às vezes quer virar Margarida. A última foi que ela começou a chupar os dedos (o indicador e o médio ao mesmo tempo, no mais perfeito estilo Margarida). E Emília nunca pegou dedo nem usou chupeta.

Outro dia foi o maior estresse porque o bebê conforto estava acoplado no carrinho e Emília queria ir nele. Quando está cansada e eu posso carregar Margarida, deixo Emília usar o carrinho numa boa, já que ela tem pouco mais de dois anos. Mas nessa situação não dava. E ela chorava, jogando a cabeça pra trás:

- Eu telo ir no bebê tonforto!! Telo ir no bebê tonforto!

Hoje de manhã, Rafael foi deixá-la na escola.

- Eu telo ir na tadeilinha da Marralida.
- Não dá, meu amor. É muito pequena pra você.
- Eu telo imitá a Marralida.

E colocou os dois dedos na boca.

Além desses, tem outros episódios. Por exemplo: ela andou fazendo uns xixis na cama desde que colocamos o umidificador no quarto. Então recolocamos a fralda noturna por uns dias (totalmente psicológica, porque não segura mais o xixi. Mas enfim.). Num desses dias ela fez xixi na fralda e ficou toda feliz:

- Fez xixi na falda! Idual à Marralida!

Ela também tem pedido pra andar muito mais no colo e, quando anda, às vezes pede que seguremos as duas mãos dela - igual bebês que estão começando a andar.

Não incentivamos as regressões, mas também não a repreendemos. Sei que esse processo é natural tanto da idade quanto da situação de ganhar um irmão. E tanto ela tem consciência dessa crise dos dois anos que gosta de falar:

- Emília é um pouto nenenzinha e um pouto mulhé!

Nas primeiras semanas:





E hoje:



quinta-feira, 12 de abril de 2012

Por que sou contra publicidade para crianças

Visualizem: um bebê de sete meses com SEIS dentes rasgando ao mesmo tempo, a gengiva na carne viva, sanguinho, noites em claro. Some-se a isso introdução de alimentos total fail, pra não perder o costume. E uma filha de 2 anos e pouco que resolveu que não quer mais comer as sopas congeladas (que toda a família come) na janta: quer arroz, feijão, tofu e cenoura. Que eu tenho de cozinhar.

Daí eu passo dois dias sem mexer na internet, e numa passada rápida pela minha bloglist vejo que está rolando uma blogagem coletiva sobre um dos meus temas preferidos: crianças, consumo e publicidade.

Estou num nível avançado de perda total, razão pela qual não argumentarei tanto nem tão bem quanto gostaria. Então vamos logo ao assunto: minha posição é totalmente a favor da proibição de toda e qualquer propaganda/publicidade direcionada ao público infantil. Pode fazer propaganda de produto pra criança, papinha, brinquedinho, porcaritos? Pode, mas em horário noturno, sem desenhinho, sem musiquinha infantil, sem cores atraentes. Para que os pais decidam. E mais: que também a publicidade de produtos para adultos não venha travestida de apenas mais um filminho alegre, quando na verdade está fazendo um apelo para a faixa etária mais vulnerável. Pra que o filhote depois venha pedir pro papai comprar aquele carro legal da propaganda legal, sabe?

O argumento de quem é contra a proibição é de que esse não é assunto do Estado. Ora, o papel do Estado é proteger o mais fraco da relação, aquele cidadão que não pode se defender sozinho. Crianças, aí estão vocês. Dizem que cabe aos pais educar e proteger as crianças. Se um pitt bull anda sem focinheira por aí, eu posso não conseguir impedi-lo de arrancar o braço do meu bebê. Está na hora de botar a focinheira nos pitt bulls.

Por falta de condições físicas pra ir mais longe, termino com um trecho de uma reflexão que escrevi tempos atrás, sobre como educar nossos filhos para o consumo consciente:

"Propaganda para crianças é covardia tanto para os pequenos quanto para os pais. Os filhos de repente descobrem que não podem ser felizes como estão, e que precisam disto ou daquilo para encher algum buraco. E os pais são bombardeados com demandas e mais demandas e, se não cedem, ganham o papel de vilões.

(...) Proteger meus filhos do consumismo é protegê-los da insegurança, de achar que eles só terão importância se forem como algum publicitário decidiu que eles devam ser. É mostrar a eles quão valiosos eles são, da maneira como são."

terça-feira, 10 de abril de 2012

Ioga pós-parto

Recentemente falei sobre como a vida muda depois da maternidade, e como é necessário fazer mudanças no nosso antigo estilo de vida para criar espaço para os pequenos. Mas entre tantas coisas que temos de deixar pra trás por um tempo - o cinema, o álcool, os programas noturnos -, uma me é sagrada e fiz questão de manter: a atividade física.

Claro, com adaptações. Antes de engravidar pela primeira vez, fazia boxe. Boxe grávida não dá, né? Então troquei por Pilates, mantendo as caminhadas que eu já fazia. Dois meses depois que Emília nasceu, me matriculei numa academia em frente à minha casa e comecei com spinning e ginástica localizada. Como os horários da academia eram bem flexíveis, e ela ficava literalmente do outro lado da rua, dava pra conciliar os exercícios com os cuidados com uma quase recém-nascida. Marido chegava do trabalho e eu ia correndo malhar. Deixava o celular bem à vista e, em caso de emergência, estava em casa em 5 minutos.

Funcionou bem até minha licença-maternidade acabar. Depois ficou impossível fazer outra coisa que não fosse trabalhar e cuidar da Emília, à época com apenas 7 meses. Até as caminhadas eram difíceis de fazer, e se restringiam aos fins de semana. Fiquei, então, sedentária - até engravidar da Margarida.

Me vi então obrigada a me mexer.

Sei que tem muita gente que odeia atividade física, caminhadas que sejam. Têm aquela preguiça mor e prefeririam nunca ter de levantar um peso. Mas eu não sou assim. Eu adoro me exercitar e fico péssima quando não o faço. Tenho dor nas costas, torcicolos (com a colaboração de duas hérnias na cervical) e, durante a gravidez, se não caminho fico com uma sensação insuportável nas pernas.

Então arrumei o seguinte esquema pra conseguir manter as atividades físicas durante minha segunda gravidez, com uma filha de um ano pra cuidar e trabalhando 8h/dia (+ 1h de deslocamento, + 1h de almoço = 10h fora de casa): personal trainer. Na verdade, uma fisioterapeuta e doula muito familiarizada com o acompanhamento de gestantes que vinha à minha casa todas as sextas-feiras no fim da tarde pra me passar uma série de Pilates. Como o Rafael nem sempre chegava a tempo do trabalho, minha irmã sempre vinha pra cuidar de Emília enquanto eu me exercitava. Depois, eu tinha a tarefa de repetir a série sozinha pelo menos 2x por semana. E eu fazia isso depois que Emília dormia. Pensem a situação. Muita disciplina e muito cansaço, mas tinha de ser.

Em julho, com 7 meses de gestação, parei de trabalhar. Emendei férias, licença médica e licença maternidade antecipada. Com Emília na escola pela manhã, comecei a ioga para gestantes duas vezes na semana. Nos demais dias, eu caminhava - às vezes no meio do mato, na Água Mineral. Aí a coisa ficou boa.

Nunca fui muito fã de ioga. Achava muito zen, e pra quem fazia boxe era algo muito distante. Eu pensava que sem sofrimento, não havia resultado. Mas topei durante a gestação, por saber que era um exercício extremamente benéfico nessa fase. E gostei demais.

Margarida nasceu e, com um mês, voltei à ioga. A mesma professora (que foi minha doula), só que uma turma de pós-parto.

A ioga pós-parto é montada de forma a ajudar a puérpera a recuperar o tônus abdominal, fortalecer e alongar músculos que são muito demandados nos cuidados com o bebê e na amamentação. É punho, pescoço, braço, costas - tudo o que fica sobrecarregado de carregar o bebê no colo. E ao contrário da ioga para gestantes, que vai ficando mais light à medida que a barriga cresce, a ioga pós-parto vai aumentando em intensidade conforme o corpo da puérpera vai voltando ao normal.

Além de amar os exercícios, me apaixonei pela ioga pós-parto por outra razão: eu levo a Margarida. Não preciso de ninguém pra me acompanhar, porque o esquema da aula já prevê a presença dos bebês. Eles ficam em colchonetes no meio da roda e se precisam de colo, peito ou qualquer outra assistência, a gente para e atende.

Muita gente vai saindo, seja porque volta ao trabalho, seja porque não gosta de dirigir sozinha com o bebê (as aulas acontecem num clube um pouco afastado do centro da cidade). Atualmente, estou sozinha na turma. Mas tem sido tão bom que não pretendo sair enquanto Margarida me deixar fazer a aula.

Ela ainda não se arrasta, apesar de se movimentar bastante. Atualmente, deixamos dois colchonetes grandes no meio da sala, com almofadas em volta e vários brinquedos. Ela fica numa boa, prestando a maior atenção nos nossos movimentos, e às vezes até cochila sozinha. Tenho conseguido fazer a aula direto, sem interrupções.

Mesmo sendo apenas uma vez por semana, os resultados são surpreendentes, porque a ioga dá uma consciência corporal que acaba entrando no nosso dia-a-dia. E as caminhadas seguem firmes, todas as manhãs, enquanto empurro o carrinho.

Em janeiro, durante as férias de Emília. Rafael foi comigo pra cuidar dela.

E não é que ela aprendeu direitinho?

segunda-feira, 9 de abril de 2012

TOC - e oração de uma lactente

Emília e o pai vieram da creche com duas bananas. Coloquei-a pra dormir e, durante a soneca, preparei a mesa com uma das bananas ainda com casca dentro do prato. Ela acorda e vem conferir o lanche:

- Essa não é a minha banana. Essa é a do papai.

Lá vou eu trocar as bananas, enquanto Emília explica pra irmã o que está acontecendo:

- Mamãe pedou a banana errada, Marralida.

+++

Sentada no vaso, junta as mãozinhas.

- Emília ola e você repete. Papai do céu, obidada pulesse dia, obidada purtê a mamãe tá ati, purtê a Marralida tá ati, purtê o papai tá ati, em nome de Jesus amém.

Junta de novo as mãozinhas:

- Ah! E purtê a Emília vai mamá.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Vida nova, vida velha

Vim aqui postar num feriado porque não consegui parar de pensar numa questão colocada pela Luiza neste post. Para quem não leu e está com preguiça de ler, resumo: como fica a vida social depois dos filhos? E os antigos amigos que não têm filhos? Como equilibrar a rotina da criança e nossos compromissos sociais?

Essa é uma questão que já me trouxe muita chateação desde que me tornei mãe. Não tanto porque eu sinta falta da minha vida de antes, do boteco, da cervejinha, do cinema, das noites viradas. Mas porque parece que nosso recolhimento às vezes incomoda quem continua nesse esquema - com filhos ou não, porque tem gente que tem filhos e continua vivendo a mesma vida. Muita gente preocupada com o fato de que não participamos das mesmas atividades que antes. Como se estivéssemos sozinhos no mundo. Como se o fato de não convivermos com a mesma frequência com os amigos de antes signifique que temos menos amigos. E como se a própria maternidade/paternidade não nos tivesse trazido vários outros relacionamentos riquíssimos.

Quando os colegas da faculdade ou do trabalho estão no barzinho, nós estamos dormindo ou ninando as meninas. Mas quando nós estamos no parque, no clube, no zoológico, aquela galera que baladou na sexta à noite está dormindo. Alguns fazem programas de dia, outros fazem à noite. Mas não sair à noite não significa ficar sem diversão. Muitíssimo pelo contrário.

Não estou dizendo que o parquinho é melhor que o showzinho. Mas houve o tempo do showzinho, que pra mim já passou - e certamente voltará quando as crianças forem mais independentes. E o tempo agora é outro. Agora somos do sol e dormimos com a lua e as estrelas.

Penso que não deveríamos falar em "vida social". Na verdade, isso pouco importa. É apenas um indicador pra dizer se você é pop ou loser. Mas o que importa é a comunhão, a convivência solidária e sincera com as outras pessoas. Não apenas um bate-papo vazio pra encher nossa agenda (que já está muito bem cheia com duas crianças). Quem sai mais, quem encontra mais pessoas durante a semana, não necessariamente está melhor acompanhado.

Para não falar mais, porque comigo o assunto nunca acaba, deixo um texto da Laura Gutman (tradução livre minha). É sobre o Natal, mas combina muito bem. E como Natal e Páscoa têm tudo a ver, fica a reflexão. Ele dá alternativas para continuarmos nos reunindo e mantendo a comunhão com as outras pessoas, sem desrespeitar nossos pequenos. Para quem não puder ler tudo, os grifos são meus.

+++

As festas de fim de ano
Laura Gutman

Perdidos no consumo de bens materiais, esquecemos que estamos relembrando o nascimento do Menino Jesus e a mensagem de amor que trazia consigo. Normalmente ficamos ansiosos para saber quem deu o quê, quem se esqueceu, quem presenteou a todos e se nossa família foi justa na divisão dos presentes. Também comemos exageradamente. Brindamos e bebemos mais que de costume. E vamos pra cama.

Se essa foi a realidade durante os últimos anos de festejos familiares, talvez possamos fazer pequenos movimentos que nos satisfaçam mais e que encham de sentido essas noites tão especiais. Talvez possamos retornar a uma certa intimidade, nos reunirmos com poucas pessoas e dar a cada um uma mensagem repleta de agradecimentos. E para as crianças, algo fora do comum, sonhado, imaginado e, na medida do possível, não muito caro. As crianças têm direito de receber uma linda carta escrita pelo Papai Noel parabenizando-as pelas suas virtudes, assinada com letra dourada. Alguém pode dar de presente um belo concerto de piano ou uma peça tocada em flauta doce. Podemos abrir os álbuns de família e ver fotos velhas durante horas, enquanto as crianças descobrem seus avós com cabelo, seus pais sendo crianças e namorados e namoradas que ficaram no esquecimento. Seria emocionante oferecer aos comensais dois minutos para fazerem um desejo em voz alta, comprometendo-se a trabalhar para que se torne realidade. E desde já, podemos fazer silêncio. Pensar. Meditar. Rezar. Colocar as mãos sobre o coração. Percebermos que estamos juntos. Contar às crianças algo relativo ao nascimento de cada um deles. Enfim, qualquer gesto amoroso, carregado de ilusão e respeito, que nos relembre de por que estamos juntos, é perfeito para um verdadeiro dia de festa compartilhada.

E se existem familiares que não estão dispostos a modificar as rotinas repetidas em anos anteriores? Sem problemas. Mas há algo que, sim, podemos fazer: revisar se o modo como nós, historicamente, comemoramos agora se encaixa em nossa realidade. Por exemplo: avaliemos se com bebês muito pequenos vale a pena estar longe de casa até altas horas da madrugada, ou se é saudável submeter bebês a barulho e música inadequados. Observemos se nossos filhos se sentem à vontade entre familiares que vêem apenas uma vez por ano. Registremos se estamos arrastando nossos cônjuges a círculos onde não são bem-vindos ou se sentem desconfortáveis. Examinemos se nosso desejo está alinhado, ou se estamos seguindo obrigações obsoletas, como, por exemplo, ir à casa de tal parte da família porque sempre foi assim e nunca ninguém questionou. Em todo caso, avaliemos se organizamos as festividades de fim de ano de acordo com nossa realidade familiar ou, ao contrário, com base em obrigações estabelecidas.

Sem dúvida nenhuma - se usurpamos o sentido profundo dessas reuniões - as crianças não demorarão em manifestar seu desconforto por meio de doenças, choros, ou simplesmente se comportando muito mal. Se for esse o caso, em vez de castigá-los, examinemos se arrastamos toda a nossa família a um lugar absurdo, justamente quando era o momento de nos encontrarmos com nós mesmos.

domingo, 25 de março de 2012

A primeira comidinha

Quem me acompanha há mais tempo talvez lembre que a introdução de alimentos com Emília foi terror e pânico. Ela tinha pouco mais de 5 meses e não vinha ganhando peso bem. Eu ia voltar a trabalhar e a menina não comia. Muito estresse - totalmente inútil, porque hoje ela come que é uma beleza.

Normalmente fazemos um fuzuê enorme em torno da introdução de alimentos. Faz uma tigela enorme de papinha, bota o menino no cadeirão, de babador, pega a máquina, a filmadora, chama a família pra ver a cena histórica.

Minha segunda introdução de alimentos está sendo simples como meu segundo parto. Margarida completou 6 meses doentinha. Tinha comprado uma linda abóbora orgânica que ficou pra próxima. Depois teve toda a história da bronquiolite, que vocês acompanharam, e ela chegou aos 6 meses e meio só no peito. E 9kg de muuuuita reserva adiposa.

Depois de ir ao pediatra e constatar que a moça já estava zerada, checamos o estoque de comestíveis. Duas bananas orgânicas, ótimo pra começar - no dia seguinte, claro. Saio pra igreja no domingo, opa!, tem que levar a banana. E uma colherzinha.

Entro lá no berçário da igreja, enfio a menina num dos cadeirões vazios e entrego a banana pra ela brincar enquanto eu pego um guardanapo. Tiro um pedaço da casca, dou uma raspadinha e como a parte de fora - porque o filé é o meio da banana! Enquanto isso, ela brinca com a casca. Coloco a banana aberta pra ela cheirar. Muito prazer, eu sou a banana! Raspa um pouquinho, hmmm gosto novo, mais um pouquinho, só pra experimentar. Quando ela já engoliu o equivalente a uma colherada, começa a fechar os olhos e fazer cara de ranço. Amanhã continuamos. Muito bom pro primeiro dia.

Foto não tem. Ninguém sabe, ninguém viu. Mas ela comeu uma colherzinha, e o resto da banana jaz no meu estômago.

Pra quê pressa? 9kg e uma licença eternidade... Sim, não volto a trabalhar tão cedo. Mas isso é assunto pra outro post.

+++

Poderia passar horas divagando sobre a introdução de alimentos, mas a Cláudia Rodrigues já disse tudo neste texto maravilhoso.

domingo, 18 de março de 2012

Depois da UTI...

Emília nos visitando já no quarto do hospital.

video

E Margarida hoje.

video

Blog Archive

Seguidores

 
Blog Design by Template-Mama.