terça-feira, 4 de maio de 2010

Doando leite

Isto não é uma campanha. Estou doando leite e resolvi passar por aqui para contar como tem sido a experiência.

Ainda no hospital, uma das pediatras comentou que eu tinha leite demais e que tinha de tirar. "Estão chegando quadrigêmeos na UTIN". Eu disse que a doação estava nos meus planos, mas não disse que ainda achava cedo.

Depois veio uma enfermeira do banco de leite me ensinar a ordenhar. Foi uma experiência bem ruim. Ela disse que eu deveria ordenhar durante 1h30 depois de cada mamada, até esvaziar os dois seios. Com um bebê que mama a cada 3h, eu ia passar o dia ordenhando. Além de doerem os peitos, doíam os pulsos. E o tempo pra descansar e pra cuidar da minha filha?

Decidi que era muito cedo pra mexer com isso, que eu tinha de me recuperar e conhecer minha filha primeiro. Mas me sentia meio oprimida, com a sensação de não estar fazendo algo que deveria.

Quando a Emília tinha um mês e meio, resolvi fazer um teste. Não podia dizer que doar leite era trabalhoso demais se não tentasse. Mas também não sabia nem por onde começar.

Então consultei o Dr. Google e cheguei à página da Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano. Lá eles explicam quem pode doar, como deve ser feita a ordenha, e apresentam a lista de bancos de leite no Brasil.

Eis o que compreendi de tudo:

- Pode doar quem é saudável e tem excesso de leite. Eu não entendia muito bem esse excesso, já que a gente produz o que o bebê pede. Mas se você alimenta seu bebê exclusivamente no peito e ele está ganhando peso normalmente, pode tirar que não vai faltar. A produção aumenta naturalmente.
- O leite deve ser retirado após as mamadas ou quando a mama estiver muito cheia. Nesse último caso, devem-se desprezar os primeiros jatos.
- A ordenha tem de ser feita manualmente, para evitar contaminação. É recomendável o uso de touca e máscara. As mãos e os seios devem estar bem lavados e deve-se evitar conversar durante a ordenha.
- O leite deve ser armazenado em potes de vidro esterilizados (eles sugerem aqueles potes de café, previamente fervidos).
- O pessoal do banco vai semanalmente à casa da doadora buscar o leite e leva mais potes vazios e esterilizados.
- O leite doado alimenta bebês prematuros, internados nas UTIs Neonatais.

Escolhi o hospital público mais perto da minha casa e liguei. A moça foi super gentil. Perguntei quanto era o mínimo que eu precisava tirar pra valer a pena eles virem buscar. Ela disse um vidro (apesar de que tenho uma amiga que doava meio vidro por semana e disse que eles buscavam mesmo assim).

Arregacei as mangas e comecei a ordenha. Não foi muito bem. Não sei se por falta de jeito, acabei me machucando. Quando a Emília mamava num seio, o outro, que eu tinha ordenhado, doía. Também não consegui tirar o suficiente. Guardei o leite no congelador e desisti da ideia, agora sim, com a consciência limpa.

Até que nasceu a filha de uma amiga querida, que foi minha nutricionista durante a gravidez. Ela sempre me orientou quanto à amamentação e foi ao hospital verificar como estava a pegada. Quando cheguei em casa com os peitos explodindo, com medo do meu leite empedrar porque eu não estava ordenhando a 1h30 que a moça do banco de leite tinha mandado, liguei pra ela. Ela me tranquilizou, me explicou todos os sinais de empedramento, recomendou que eu escorresse o excesso de leite no banho e que não virasse escrava da ordenha. Que era importante descansar.

A filha dela nasceu dois meses depois da Emília. Ela já era mãe e já tinha tido uma primeira experiência de amamentação bem sucedida com seu menino mais velho. Mas dessa vez estava sendo diferente. O leite não vinha como antes, a neném não sugava como seu irmão e ela teve de entrar no complemento. Minha amiga, super consciente dos benefícios do aleitamento, continuava insistindo. Deixava a filha no peito o máximo que dava conta, ordenhava tudo o que sobrava e foi medicada pelo pediatra pra tentar aumentar a produção.

Soube da história e ofereci aquele leite que tinha tirado lá atrás, quando tentei doar pro hospital. Ela aceitou na hora. Eu disse que poderia tentar tirar mais, mas sem garantia porque da primeira vez não tinha dado muito certo.

Comecei há pouco mais de uma semana tirando 30ml por dia. Agora já estou tirando 60ml, em uns 15 minutos de ordenha matinal. Aprendi o jeito certo de não machucar o peito, com calma, massageando sempre. E vi que, sim, é possível doar leite. Se minha amiga parar de precisar (ela ainda está determinada a restabelecer sua produção), vou continuar doando pro hospital.

Acho que eu precisava mesmo era de um incentivo. Pressão e obrigação só tornam tudo mais penoso. Porque a gente só faz esse troço se for por amor.

13 comentários:

Maya disse...

Que lindo, Lia!
Parabéns!!

Mariana disse...

Oi, querida! Eu também tive a experiência de doar meu leite. Fiz isso assim que o Arthur começou a comer papinhas e não quis mais mamar. Não queria que a produção de leite acabasse e resolvi doar. Veio uma moça muito solícita aqui em casa, trazendo os vidros esterilizados e explicando todo o processo. Eu não fiz manualmente, mas com uma bombinha manual, que eu esterilizava sempre antes de usar. Ela me explicou que o leite doado passa por uma triagem, para depois, se aprovado, ser dado a algum bebê. Foi uma experiência gratificante, mas meu leite não rendeu muito. Acho que uns 2 potes de maionese.

Bjs!

Uma Mãe... disse...

Na maioria das vezes a forma como abordam o tema com a lactante é, no mínimo, aterrorizante.
É sem nenhum tato para a situação. A mulher está frágil e em um momento de mudanças com um turbilhão de sentimentos, complicar mais esse processo não deveria ser uma opção.
Comigo não foi diferente: 'tem que tirar', 'tem que fazer', 'é assim'. Uma conversa bem desestimulante, infelizmente.

Parabéns pela iniciativa, espero que a experiência esteja sendo boa.

Renata disse...

Nossa, Lia...sabe que eu gostei da idéia. Eu tenho bastante leite e nem havia pensado em doar! Falta de idéia mesmo. Vou me informar nos hospitais aqui da minha região!!!
beijos e parabéns pela iniciativa!
Re

Fabi disse...

Bonito mesmo Lia!
Tanto o gesto em si quanto a divulgação!
Parabéns!

Lu disse...

Que belo exemplo Lia.
Infelizmente agora mal tenho o leitinho da Mariana e tenho que complementar com um pouco na mamadeira senão ela fica berrando de fome, mas sei bem como é gratificante ajudar outra criança que está precisando. Nada, nada mesmo substitui o leite materno. Podem inventar o leite mais caro, mais saboroso, mas nunca vai ser mais nutritivo que o leite materno.
Bjs
Lu

Flavia disse...

Puxa que legal Lia!
Tentei algumas vezes fazer a ordenha (comprei um automatico da Medela, super bom!) Mas o começo foi bem complicado mesmo... Depois fui pegando um pouco de jeito, mas na época não sabia nada sobre o assunto.
Aqui na Espanha não é muito comum...

Parabéns pela iniciativa.

bjs

Journal de Béatrice disse...

Lia, que post mais lindo! Que legal! Amamentar é uma experiência unica e é tão bom ver a nossa cria crescendo e egordando com o que nos produzimos. E imagino que deve, realmente, ser gratificante poder ajudar os bebês que precisam do leite materno. O coração deve ficar leve! Eu tentei fazer a ordenha uma vez, mas não consegui, saiu pouco e doeu, não peguei a manha do negocio! Beijos pra vc e para a petite Emilia : )

Marcella Nathaly disse...

Olá!
Ando visitando blogs de mães para ver se me inspiro e retorno à minha paciência de antes da gravidez... Sou mãe de uma menininha que está com 2 meses e minha produção de leite é baixa, estou tendo que complementar. Belíssima a sua iniciativa, além de mãe sou pediatra e sei que o leite materno é o melhor alimento.

Visitarei mais vezes! Abração!

mamaedealice disse...

Adoraria doar mas o Banco de Leite daqui não recebe doações... acho q eles não tem como esterilizar o leite, não sei direito qual o problema.

Tenho visitado teu blog há algum tempo, venho pedir que visite o meu blog e ajude a divulgar a história do Theo, ele está precisando muito de ajuda e as blogueiras estão se mobilizando...

Bj

Ana Paula disse...

Que lindo gesto, Lia !
Parabéns pela iniciativa, e um beijo grande para você e para a Emília.

Letícia Volponi disse...

Lia, lindíssima iniciativa. Eu não tive essa oportunidade, mas como tinha que ordenhar para fazer a reserva da Laura, porque voltaria ao trabalho muito cedo, usava uma bombinha elétrica da Nuk

Cíntia Anira disse...

"A gente só faz esse troço se for por amor!" Tem que ter muita determinação para ordenhar Lia. Faço uso o dia todo e sei bem como é. Parabéns pela iniciativa. Hoje entendo que alguns bebês pegam fácil, outros tem mais dificuldade. E assim, mamãe ordenha! Beijos

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