segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Relato de parto - Parte III

Segue a terceira e última parte do meu relato de parto. Amanhã vou fazer umas considerações finais e responder a alguns comentários.

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E lá estávamos nós na sala de parto. Chama o anestesista. Ele quase não consegue aplicar a injeção, de tão curto que é o intervalo entre as contrações. Um senhor simpático. Perguntou pelo nome da criança e disse: “Conhece a música da Emília? É bem antiga, vocês não devem conhecer.” Aí começamos a cantarolar juntos : “Quero uma mulher que saiba lavar e cozinhar/ e que de manhã cedo me acorde na hora de trabalhar/ só existe uma, e sem ela eu não vivo em paz. Emília, Emília, Emília, não posso mais.” E a médica: “Que horror!”

E aí as pernas começam a formigar e a dor vai embora. “Tá dando certo?”, eu perguntava pra médica. “Já deu certo. Agora ela desce!”

Então percebi que as contrações estavam diminuindo. A equipe estranhou. “Você só não está sentindo a dor”, disse alguma enfermeira. “Mas as contrações não continuam?”. Continuavam, mas bem mais fracas e com menos frequência. Eu tinha certeza, e insisti que alguma coisa deveria ser feita. Parece que isso não era pra acontecer. Mas, enfim, tanta coisa no meu parto não era pra acontecer... então manda a ocitocina! Dizem que a ocitocina causa uma dor insuportável. Eu não senti nada disso porque estava anestesiada. Nem tchuns. Simplesmente as contrações retornaram ao ritmo de antes e eu pude voltar a empurrar.

Vai pra cama, vai pro chão, vai pra cadeira, de quatro, de cócoras. E o tempo foi passando. “Só mais um pouquinho, só mais essa! Comprido, comprido, comprido!”. Afe, Jesus. E nada dessa menina sair. “Estou vendo a cabeça!”, anuncia a médica. “Você quer ganhar ela como? De cócoras? No chão ou na cama?” “Do jeito que sair mais rápido!!”. E fomos pro chão. Mas depois de uns 20 minutos de últimas contrações, me botaram de volta na cama pra não forçar as pernas.

Alguém da equipe disse que eu tinha de empurrar não sei como, e a médica respondeu: “Não, ela está empurrando direitinho. Tem alguma coisa prendendo o bebê. Parece que é um ossinho que ela tem no quadril. Mas agora já era. Cesariana agora ia ser cesariana de português, porque a cabeça já está no canal.” Ah, como gostei de ouvir isso, mesmo já quase sem forças! Sei lá, preferia Emília entalada no canal à possibilidade de uma cirurgia.

E aí a médica começou a fazer altas manobras lá embaixo, e senti a Emília girando pra esquerda. Vi as costas dela passando pelo meu umbigo. Enquanto isso, o Rafael está lá embaixo, vendo a cabeça da Emília, o corte, a movimentação das mãos da médica. E eu empurrando. Aí vi que as enfermeiras estavam tentando empurrar minha barriga pra baixo. Minha vontade? Ajudar a empurrar também! Precisavam de alguém mais forte, e chamaram um homem. Outra coisa que dizem que é um horror: esses homens que empurram sua barriga. Pois eu achei ótimo. Tudo o que me ajudasse a fazer ela descer era super bem vindo. E não senti nenhuma dor. Falando em dor, nessa altura do campeonato minha analgesia em pequena dose já tinha ido pro espaço. Eu só não sentia mesmo o corte lá embaixo. Mas as dores das contrações estavam de volta. Eu recitava o pai nosso, virava a cabeça de um lado pro outro, e teve uma hora em que quase perdi a consciência. Abri os olhos e vi toda aquela gente em volta de mim. Demorei alguns segundos até perceber onde estava. Aí avisei: “Pessoal, estou apagando!” Aí me deram um negocinho de oxigênio pra pôr no nariz e me explicaram que agora estava acabando mesmo. Será? Tirei minhas últimas forças não sei de onde, comprido, comprido, comprido, e não sei depois de quantas contrações mais, senti a cabeça dela saindo. Dei uma bizoiada e vi a médica cortando o cordão com o corpinho dela ainda lá dentro. E onde estava o cordão? Isso mesmo, enroladinho no pescoço. Em seguida fiz uma forcinha de nada e senti o resto do corpo saindo. Já tinham posto o paninho no meu peito pra eu recebê-la, mas antes que eu me desse conta, vi ela sendo levada.

Não ouvi choro nenhum. E eu dizia: chora, minha filha, chora! Mandaram o Rafael acompanhá-la, e eu fiquei lá, sendo costurada. Um tempinho depois ouvi um choro e perguntei se era ela. Disseram que era.

Não sei quanto tempo passou até eu receber aquele pacotinho todo embrulhado nas mantas do hospital. Inchadinha, com a cabeça cônica. Fazia um barulhinho chiado com o nariz. “Tá ouvindo este barulhinho?”, perguntou a pediatra. “Ela aspirou um pouco de mecônio, que entrou nos pulmões. Nós já fizemos a drenagem, mas ela vai ter de ficar um tempo na UTI, em observação. Provavelmente amanhã ela poderá subir pro quarto.” Beijei minha filha, me despedi dela. Foi tudo muito rápido. Depois é que soube que quem me entregou a Emília foi o Rafael, e que ele me chamou várias vezes até eu olhar pra ele. Não me lembro. Pra mim, tinha sido uma enfermeira.

E foi assim o meu parto. Passei mais alguns minutos na sala de recuperação, subi pro quarto com a certeza de que minha filha ficaria bem e feliz que ela tinha nascido. Olhei a pulseirinha que me puseram no braço. Horário de nascimento: 20h32.

No dia seguinte, às 11h, fui à UTI amamentá-la. Às 14h fui outra vez, e depois disso mandaram a Emília pro quarto. Recebi alta no terceiro dia, quinta-feira, e ficamos no hospital até o dia seguinte, quando ela foi liberada. Quiseram mantê-la mais um dia em observação por conta do fator sanguíneo (ela herdou o sangue do pai, A+. Sou O-). Queriam ver se não dava icterícia. Não deu. Saiu de lá branquinha, branquinha.

No dia do parto e um pouco mais tarde, pensei no próximo filho. Tive medo de ele não virar pra esquerda. Tive medo de meu canal ficar rígido outra vez. Tive medo do mecônio. E alguns dias depois eu já tinha decidido: no próximo, vamos de normal outra vez. E vamos tentar de novo fugir das intervenções. Um dia eu chego lá!

23 comentários:

Patricia disse...

Lia,
fiquei sem fôlego ao ler esse relato tão emocionante. Que bom que no final deu tudo certo.
beijos

Cíntia Anira disse...

Lia, fiquei sem fôlego ao ler esse relato [2]!
Estou aqui, buscando o mesmo: um parto sem intervenções! Eu queria saber se na hora que ela saiu, você estava em posição vertical. E sobre a episio, doeu mais tarde? Quantos pontos?
Que bom que agora é só curtir essa nova e maravilhosa fase - conhecendo a Emília e conhecendo-se como mãe! Curta muito! Abraços!

Lu disse...

Oi Lia
muito lindo esse seu relato. Demonstra como vc é uma mulher forte e de personalidade. Com certeza, se fosse outra pessoa teria desistido e optado pela cesarea. Meu primeiro parto foi com anestesia e episiotomia e o segundo completamente natural e sem nenhuma intervenção. E ainda assim continuo afirmando, parto normal é muito melhor...
Bjs
Lu

Carol disse...

Lia, fiquei sem fôlego ao ler esse relato [3]!

um exemplo de força e perseverança, parabéns!!

beijos pra família!

Roberta disse...

Nossa, Lia, forte demais esse seu relato. Estava ansiosa para chegar a parte III. Na verdade, forte demais é você. Estou admirada. Não sei se eu teria tido a persistência e a coragem que você teve. Para mim, é muito mais fácil falar de parto normal porque o meu foi muito tranquilo (apesar de ter tido anestesia e episio tb).
Parabéns, cara. O bom de tudo isso é que depois que eles nascem, a gente esquece do sofrimento, né?!
Graças a Deus ela tá aí, linda e saudável (vi as fotos, tá uma fooofa). Curta muito cada minuto, porque é isso que vale.
E agora eu vou lá, me preparar pra levar a Luísa no primeiro dia de aula. Logo chega a sua vez também.
Beijos

Maya disse...

Uau, quanta força!!
Vc acreditou que dava conta e conseguiu!!
Demais o seu relato do parto, emocionante mesmo!
Parabéns mais uma vez lia!
Como vc está lidando com o corte da episio??
Bjos!!!!

Cynthia Santos disse...

Esse relato me assutou.
Não sou xiita, nem estou aqui pra fazer apologia de nada, mas o mecônio e a Emília na UTI me assustaram mesmo. Eu não teria tido arriscado tanto. Enfim, graças a Deus, a Emília está aí, firme e forte!
Parabéns!

Kelly disse...

Lia, que luta hein?!
Relato emocionante! Fiquei tensa... Fiquei imaginando quanta "forcinha" vc fez..
E eu que achei que tinha feito muita força..
Sem comparações!
Que bom que está tudo bem!
Tenho meu relato de parto escrito, publicado no site da ONG Bem Nascer. Se tiver um tempinho pode ler. www.nucleobemnascer.com.br
beijinhos!

Journal de Béatrice disse...

Nossa Lia, como o seu parto lembrou o meu... PUxa vida... E eu ainda fiquei separada da Béa por dois dias, ela numa cidade e eu aqui na maernidade, tudo pq o meconio não estava sendo expelido e a barriga dela estava com um "balonamento" anormal... Mas graças ao bom Deus deu tudo certo! E vamos falar a verdade: TUDO VALE A PENA!!! A sua caminhada para a chegada da Emilia foi maravilhosa e depois que tudo passa, a gente tem a certeza que valeu todo o esforço. Lindo, lindo, lindo!
Ei, vem ca!! Vc mora em Brasilia não é??? Acho que vi isso em algum lugar... Se sim, gostaria que vc passasse o hospital que a Emilia nasceu... Eh que a minha cunhada mora em BSB e esta na tentativa de engravidar e vou mandar o seu relato para ela ler. Com eu te falei, num mundo onde as cesareas reinam, acho qu vc teve um bom atendimento e adorei a forma como vc foi atendida pela enfermeira-anjo, comparo a uma sage-femme francesa!! Beijos!!!

Fabiana disse...

Lindo do começo ao fim. Parabéns pela coragem, força e garra.
Emília terá muito orgulhoda mamãe-guerreira.
Bjos.

Jussara disse...

Oi, Lia,
Leio seu blog há algum tempo, mas nunca comentei. Terminei de ler os posts atrasados, e antes de tudo queria te dar parabéns pela Emília! Que bom que deu tudo certo e que vocês duas estão bem e com saúde. Vc foi mesmo muito forte e corajosa.

Tenho vontade de ter parto normal, e li com interesse cada linha que vc postou, desde a gravidez.

Tb tenho algumas dúvidas:
Sempre achei estranho quando ouvia falar (de familiares e conhecidos) que uma ou mais pessoas subiram na barriga da mãe (em partos cesáreas); pra mim isso sempre me passou a impressão de que machucava. Não sabia que a "técnica" era tb utilizada em partos normais. Tudo bem que na hora vc achou bom pq faria a Emília nascer logo, mas minha dúvida é: por tudo o que vc leu e pesquisou, isso é realmente necessário e é algo considerado normal? Minha dúvida (e terror de que aconteça comigo) é pq um homem ou duas mulheres pesam muito.

A outra dúvida é sobre a eritroblastose fetal. Como a medicina trata disso hj? Digo hoje pq conheço um casal que optou por ter apenas uma filha, já que no primeiro filho é mais tranquilo, mas sei que existem alguns riscos (só que a filha deles já é moça, por isso acho que já deve ter evoluído um pouco). A médica abordou esse assunto com vc (ou vc com ela?). Existe algum exame que pode ser feito durante a gravidez ou é só na hora que vê? Pois a icterícia é a coisa menos pior que pode acontecer, já que existem outros riscos, não?

Obrigada se puder responder, e parabéns mais uma vez!

*tinha tentado postar antes mas dava errado(um dos motivos que faz com que eu não comente). Não sei o que acontece, mas esse sistema de comentários não aceita que eu poste pelo firefox, então estou tentando com o IE.

Tati Schiavini disse...

Ufa! Que saga até terminar tudo bem, hein. Parabéns pela coragem, perseverança e força! E parabéns pela filha lindinha!

Sarah disse...

Lia, parabéns pela coragem e por ter ido até o fim!
Eu também queria fazer parto normal, porém não foi possível. Minha bolsa estourou quando eu estava de 36 semanas e sem ter nenhuma contração. No hospital, o médico também constatou mecônio e, no exame, viu que o Bento estava virado. Por todos esses fatores, fiquei com muito medo de arriscar a saúde do meu filho e fiz a cesariana.
Novamente registro aqui minha admiração pela sua coragem! Quando puder, coloque fotos da Emília pra que a gente possa conhecê-la.
um beijo!

Marília, mãe do Miguel disse...

Nossa, vc é uma guerreira!
Isso porque estava super informada e preparada pra esse momento, aliás esse foi o segredo pra não cair numa cesárea né?
Não sei se eu teria essa força, mas vou buscá-la!

Abraços!

Marília, mãe do Miguel disse...

Ah, vc é de Bsb né?
Pode me falar o nome do seu médico e o hospital?Afinal de contas com tudo isso não te mandaram pra uma cesarea.
Estou pensando em mudar de médico, mesmo na 35ª semana por conta disso.
Se quiser pode ser por e-mail: MARILIASAMPAIOT@GMAIL.COM

:)

Flavia disse...

Acompanhei ansiosa, as partes do relato...
Parabéns pela força e determinação. apesar de todas intervenções a Emilia veio ao mundo da forma que você queria, e é uma bebê tranquila, e com certeza muito amada.
um beijo carinhoso nas duas.

Camila Bandeira disse...

Parabéns pelo parto! Foi emocionante ler seu relato, ao mesmo tempo que deu um medinho. Admiro sua coragem! E pelo visto a ocitocina já te fez esquecer tudo de ruim, para esperar pelo segundo!!! É isso aí! Beijo nas duas bravas guerreiras, Lia e Emília.

Paloma, a mãe disse...

Só não entendi uma coisa: por que ela deu anestesia se vc queria um parto sem intervenções e se é sabido que anestesia atrasa ainda mais o trabalho de parto?
Que bom que ela não teve icterícia! A Ciça, mesmo herdando o meu fator RH negativo (o do pai também é positivo), teve. E forte.
Beijos

Laura disse...

Estou aqui no meu trabalho (shiiii segredo!!) tentando disfarçar o choro ao ler o seu relato ?!?!
Eu tb fiz parto normal com intervenção e sei bem o quanto é emocionante !?!?!

Eu acho que a vitória no parto normal nos faz sentirmos como verdadeiras mamiferas !!!

Parabens

grande beijo

Dani disse...

Lia, pode ter um monte de imprevisto, não sair do jeito que a gente imaginava, mas que é emocionante é, né! Esse, prá mim, foi o momento mais mágico que vivi!
Lindo relato, querida!
Beijo pro cê e outro prá Emília!
Dani
PS: e no meu parto que o médico era candidato a prefeito e ficava cantando a músiquinha da campanha! Posso?!

Symara e Bruno disse...

Menina vou te contar... esse relato só serviu para me convencer ainda mais que quero que meu filhinho venha de parto cesáreo... boa sorte viu..!!

Cíntia Anira disse...

Oi Lia, vim comentar novamente. Nos posts a respeito de dor do parto, você nos lembrou que cada um sente dor de uma forma, que isso é pessoal, o que acho que todos concordam. Queria saber como foi na sua interpretação. Se você tivesse uma escala de números de 0 a 10...como avaliaria? Ou mesmo, qual sua interpretação? Você suportaria até o fim sem a anestesia? Obrigada. Beijos
Obs: aqui na Suécia, 50% das gestantes pedem anestesia quando é o primeiro filho.

Luíza Diener disse...

nunca tinha lido o relato do seu parto. não fazia a menor ideia de como emília veio ao mundo. só ouvia uma ou outra pessoa comentar que seu parto tinha sido difícil.
aí eu passei por um e quis entender o dos outros. o seu.
to torcendo muito pelo seu próximo.
quando acabou meu parto eu já estava pensando como seria o meu próximo. fiquei tensa.
agora to melhorando. ehehehhe

bjo

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