quarta-feira, 8 de junho de 2011

Educação: brandura ou rigor? (parte 2 de 3)

Outro chavão que alguns de vocês podem já ter escutado é: “Se você não fizer seu filho chorar agora, ele vai te fazer chorar depois.” Entramos então na esfera da violência. Sim, violência, porque essa frase parte do pressuposto de que a criança aprenderá a obedecer se você lhe infringir algum tipo de sofrimento – pode ser físico ou psicológico. A disciplina é vista como punição, e pouca ou nenhuma responsabilidade é atribuída ao adulto para discernir a medida ou o cabimento do castigo. O adulto manda, a criança obedece. Ponto final.

“Mas hoje não é mais assim”, diriam muitos. “Hoje as crianças fazem o que querem, manipulam os adultos... aonde vamos parar? Na minha época...”. Pois nas épocas passadas, dos nossos pais, avós, bisavós e gerações precedentes, o que havia era uma opinião quase unânime de que crianças não eram seres humanos e, portanto, não podiam ter vontades, desejos, opiniões.

Todas essas gerações passadas foram violentadas desde o nascimento (viradas gentilmente de ponta-cabeça pelo obstetra e golpeadas nas nádegas para lançar o primeiro choro ao mundo, de alívio para o médico e para os pais e de desespero para o recém-nascido) e seguiram perpetuando essa violência sobre seus descendentes. Algumas mães piedosas, cujo instinto nunca foi – e nunca será – completamente calado pela opressão masculina, agiam contra a corrente e “mimavam” seus filhos. Davam-lhes colo, não tinham coragem de erguer a mão contra eles. Essas eram tachadas de mães moles, e contra elas pairava a condenação por terem estragado seus filhos.

Então hoje as coisas são melhores? Hoje, quando se discute a proibição do castigo físico, lei já desnecessária para muitas famílias que há muito abandonaram essa prática?

A maneira de violentar as crianças pode ter mudado, mas a violência continua presente. E a forma mais comum que ela assume hoje em dia é o abandono.

A mãe foi eliminada do lar. Ao mesmo tempo, a família fragmentou-se, avós, tios, primos, todos espalhados por diversos estados ou países. A família também ficou cada vez mais reduzida, cada vez menos primos, menos irmãos. Mais adultos e menos crianças. Pai e mãe são obrigados a passar o dia exilados de casa, buscando o pão lá fora, enquanto as crianças são delegadas a terceiros. De retorno à casa no fim do dia, pouca paciência têm para atenderem as demandas das crianças. Nos fins de semana, a necessidade de prover atividades de lazer para seus filhos compete com as tarefas a serem cumpridas. As férias são demasiado curtas e, por isso mesmo, cheias de atividades e estímulos.

Em virtude das precárias condições que temos hoje para criar nossos filhos, da falta de tempo, do pouco apoio, da estrutura deficiente, os conflitos entre as nossas necessidades e as deles tendem a aumentar. De um lado, estamos esgotados, muitas vezes sem condições de experimentar momentos de ócio, de relaxamento, de prazer. Do outro, nossos filhos clamam por atenção e parecem ainda mais exigentes pelo fato de passarem pouco tempo conosco. Queremos que eles compreendam que estamos cansados, que precisamos fazer isto ou aquilo. E eles querem que compreendamos que eles precisam de nós.

A semente da violência mora na nossa força e na fragilidade dos pequenos. Nós temos a última palavra. Nós somos os pais, e somos mais fortes. “Mas as crianças manipulam!”. Claro, as crianças usam todos os recursos que têm para serem ouvidas: o choro, as birras, a recusa em comer, tomar banho ou escovar os dentes. Mas elas não têm o poder de nos obrigar a ouvi-las e atendê-las, como não o fazemos muitas e muitas vezes. Elas estão à nossa mercê.

Ouço muita gente dizer que não se pode dar ouvidos a uma criança que pede algo choramingando, resmungando, enfim, fazendo alguma coisa socialmente feia e que nos incomoda. “É pra ele aprender que não é assim que se conseguem as coisas”. Eu me pergunto: e como é que se conseguem?

Normalmente, uma criança que chega ao ponto de berrar e se debater para pedir algo já tentou obter essa mesma coisa de outras formas, sem sucesso. Digamos que estamos no shopping, e a criança começa a se entediar. Ela vai começar a querer mexer onde não pode, com o simples objetivo de encontrar alguma forma de entretenimento. Digamos, por exemplo, que seu filho de um ano pegou na sua bolsa aquele batom carésimo e começou a desfazê-lo com os dedinhos. Ou que sua filha de dois anos começou a correr em direção às lojas e mexer nas araras. Ou que seu filho de três ou quatro anos pediu: “mamãe, quero ir embora”. E o que nós fazemos? “Não pode mexer no batom. Não pode mexer nas roupas. Agora não podemos ir embora, espere”. E eles esperam, mas nunca o tempo que nós gostaríamos. Se não tiverem outra alternativa autorizada para se entreterem, e se não forem levados para fora do local onde estão aborrecidos, nossos filhos vão insistir naquilo que nós proibimos, espernear, se acabar em lágrimas revoltosas e magoadas.

“Mas eu já falei vinte vezes que não é pra mexer aí!”. Mas seu filho já falou vinte vezes que precisa de você. Que está com fome. Que está com sono. Que quer ir embora. Por que eles nos ouviriam da primeira vez, quando falamos com educação, se nós não os ouvimos quando se colocam da mesma forma?

Acabei de descrever aqui comportamentos condenáveis que são causados pela nossa própria negligência, pela priorização dos nossos interesses em detrimento dos interesses da criança. Mas uma criança pode dar um ataque de chilique independente de termos feito qualquer coisa errada. Ela pode manifestar sua revolta diante de um programa que ontem mesmo ela adorava fazer. Ou pode tornar impossível a realização de uma tarefa que temos de fazer, numa situação em que ela poderia colaborar. Por exemplo, se uma ida ao supermercado se torna inadiável e não temos com quem deixar a criança, nem dispomos de um horário alternativo pra fazer o programa. Tentamos fazer que a criança participe, deixamos que ela escolha as frutas, e mesmo assim ela se joga no chão. E nos perguntamos: “onde foi que eu errei?”.

(continua...)

13 comentários:

Suellen disse...

lia, estou adorando e concordando com tudo o que está escrito!
nem se preocupe pela falta de teoria científica, mães poderiam escrever livros e mais livros, nós temos o coração como guia!
uma coisa que me vi fazendo esses dia foi xilicar quando minha filha mexeu em uma gaveta da cozinha, eu já havia tirado facas e afins, mas para ver se ela parava de mexer eu dei uns berros e ela ficou me olhando com cara de reprovação, como se fosse maior e mais adulta que eu, me envergonhei e só consegui pedir desculpas enquanto ela calmamente tirava tudo da gaveta e enfileirava no chão, como se fosse a coisa mais simples e prazeirosa do mundo! que vergonha, tanto que esses pequenos podem nos ensinar e como perdemos de dar boas lições para eles! ela não fez bagunça nem tacou as coisas no chão, só tirou, enfileirou e guardou tudo de novo quando não quis mais brincar. e a mãe dando de loka loka loka... afe!
estou ansiosa pela parte final!
bjooo

Anna disse...

Lia,

ótima reflexão. Muitas vezes me pego pensando sobre a forma de educar nossos filhos, como mostrar os limites e dar a segurança necessária pra que se desenvolvam.

Quando li esse trecho "Mas eu já falei vinte vezes que não é pra mexer aí!”. Mas seu filho já falou vinte vezes que precisa de você. Que está com fome.", bateu como um tapa na cara. Muitas vezes deixamos as crianças um pouco de lado pra tentar fazer as "nossos coisas" e elas, de alguma forma vão chamar nossa atenção. O problema é que só damos voz quando esse diálogo vira uma birra. Difícil, muito difícil encontrar o ponto de equilíbrio.

É totalmente contra os meus valores bater em criança, mas confesso que uma vez, totalmente exaurida, dei uma palmada no meu menino, que tem 2a10m. Doeu nele. Doeu muito em mim, quando ele falou "mamãe, bater não é legal". Tento manter sempre em mente que o adulto da relação sou eu, mas às vezes somos atropelados pelo cansaço, pela falta de paciência. E aí vai aquele círculo vicioso: pais esgotados porque passam o dia fora, crianças carentes, pais carentes e culpados...

Outra coisa que me incomoda horrores é gritar com criança. Eu grito com meu filho e acho horrível. Acho isso sim um tipo de violência. Só não sei ainda como lidar com a situação. Vamos vivendo e aprendendo. Sempre com vontade de acertar, pra dar o melhor pros nosso filhos.

Mas, como se diz por aí, Deus dá o frio conforme o cobertor.

Não falei nada com nada. rsss Mas valeu pra refletir. Obrigada!

beijos

Karen disse...

Palavras muito sábias, que nos fazem refletir... Ainda mais por me identificar em várias situações. Nas vezes em que peço para minha filha não fazer algo e que repito, repito e repito mais uma vez uma bronca, quando na verdade tudo o que ela queria era brincar comigo.
Ou quando queria muito poder contar com a ajuda de minha mãe, ou irmã, mas não poder pois moramos todos muito longe uns dos outros.

E que venha a parte 3!

Karen
http://multiplicado-por-dois.blogspot.com/

Paloma, a mãe disse...

Bom para refletir mesmo. Mas infelizmente nem todos os programas que fazemos são adequados para as crianças (supermercado, dentista, parar para abastecer), mas elas têm de estar juntos. Isso exige uma criatividade enorme dos pais e mesmo assim tem dias em que nada dá certo. Em viagens, por exemplo, eu sempre procurei fazer programas que agradassem à Ciça, mas, ao mesmo tempo, gosto de levá-la a museus de adulto porque acho que assim se cria público para obras de arte. Nem sempre ela curte, mas não acho que tenho que deixar de ir, então é complicado, porque não estou expondo a pequena a um shopping barulhento ou a uma multidão, não sou sem noção. Enfim, a verdade é que Ciça nunca deu trabalho, isso é só um exemplo, mas eu acho que Cali vai ser daquelas que faz birra e se irrita em lugares assim. E eu adoro museus, pobre de mim.
Beijos pensativos

Angi disse...

ótima reflexão,Lia!
Lembro da minha época, que tinha a mesa das crianças!Criança quase não falava, todos os primos na mesas das crianças, brincando... Hoje em dia, as vezes, como no sofá, para crianças sentarem na mesa, em almoço de família!
Vejo muitas crianças manipulando os pais, o Antônio é bebê, eu abri mão de trabalhar para me dedicar a ele, procuro termos atividades de qualidade, passeamos na rua, aproveito muito. Vivo cansada, muito mais de quando trabalhava fora, mas vivo feliz, e espero que essa escolha, resulte em consequencias positivas nas lembranças dele em relação a infância, e seja um bom cidadão!
Beijosss
ah, e lá no blog tem sorteio, apareça!
Angi

Marina disse...

Nossa, Lia, esse texto não poderia vir em melhor hora. Temos conversando mt aqui em casa sopbre isso! Depois que vc concluir tudo venho comentar com calma e dar meu pitaco!
bjs

Tathyana disse...

A punição não educa, já dizia Skinner (pai da psicologia comportamental). Mas a forma como nós somos educados está toda relacionada com algum tipo de punição. Se querer proibir os castigos físicos, a consequência para isso será na base da punição (prisão, perda da guarda dos filhos, etc). Essas consequências a longo prazo não tem validade para a maioria das pessoas. Se quiser extinguir um comportamento inadequado, a consequência precisa ser imediata. Uma conversa olhando nos olhos, um castigo de poucos minutos, valem mais do que um tapa. Que só ensina a criança a mentir e a se esquivar.

Bjs.

Débora disse...

Muito instigante o seu texto Lia. Minha mãe foi uma ótima mãe, mas volta e meia se irritava conosco e nos dava palmadas e aquilo doía tanto em mim, psicologicamente falando, que me lembro das palmadas até hoje com tristeza. Sou mãe de um garotinho de 8 meses muito sapeca e que as vezes faz suas birrinhas. Desde que me tornei mãe, mudei comecei a rever muitos posicionamentos que eu tinha como certos (achava que eu só deveria amamentar até os 6 meses, agora sou a favor do desmame natural; achava fraldas de pano uma doideira, agora fico com peso na consciência toda vez que coloco uma fralda descartável no meu filho e por aí vai). Sei que a maternidade é um aprendizado e que muitas vezes devemos rever conceitos que julgávamos ser verdades universais, mas eu tenho para mim que educar com palmadas e gritos nunca foi e nunca será o caminho para criar nossos filhos e nesse ponto sou intransigente.Vou esperar a continuação deste post.
bjos

Fabiana disse...

Seus textos estão maravilhosos!! Estou ansiosa para a última parte!
Valeu o tapa na cara, o soco no estômago... devia fazer essa leitura diariamente para nunca esquecer que as crianças são reflexos de nós. Ontem mesmo conversei sobre isso com o marido... vou mostrar seus textos pra ele!
Beijos
Fabiana
http://2-ao-quadrado.blogspot.com

Kah disse...

Engraçado que agora vim ler e teve um episódio (vários, na realidade) que exemplificaria exatamente isso que você falou.

Todas as tardes (quando não chove) nós vamso brincar no quintal. Ela fica mexendo na terra, brincando na piscina, essas coisas, enquanto eu fico limpando o quintal que ainda não está pronto.
Hoje estava arrancando umas graminhas e ela me chamou, eu pedi um minutinho, ela saiu por uns 30seg e voltou, pedi mais um minutinho, ela saiu por uns segundos e voltou me puxando pela mão com a cara mais fofa desse mundo, fui.
Isso se repetiu umas 20x (sério!). Uma das vezes não tinha como largar tudo e fiquei enrolando ela, a coitada tentou me chamar 'por bem' umas 5x, até que começou a reclamar...
Normalmente, de fato, eles tentam por bem, a gente que parece que só funciona por mal. auhuahah
Os textos estão ótimos, Lia.
Beijão!

Mari Mari disse...

E ontem o exemplo rolou aqui em casa. Depois do banho, já umas 7 horas, Caqui pediu leite. NOrmalmente, ele só toma esse leite antes de dormir. Papai e mamãe aqui tentaram enrolar o leite, "depois você toma" "voce acabou de jantar"e isso e aquilo. Ele pediu 6x, "leite". Dali uns minutinhos o que e;e fez? Chutou a irmã. Pus de castigo (afinal, punição tem de ser imediata). Chorou um monte. Sentei do lado dele e perguntei: você bateu na Niná por que voce quer leite? Ele fez que sim. Falei que ia fazer o leite dele e ele, sorriu e saiu pulando pra cozinha. Que coisa! Que texto fantástico, que reflexões importantes! Reflexões de quem vive a vida de mãe, que conhece um ser por inteiro, e não de educadores que conhecem crianças aos baldes, como se fossem uma massa amorfa de compotamento ruim e maus pais. Vou ali ter a terceira parte. beijos

Cíntia Anira disse...

Adoro suas reflexões! beijos

Bobby disse...

Lia, que presentao essa sequencia, hein? Pedagoga nata, voce.
Querida, morro de medo de dizer o que vou dizer e soar uma fdp egoista, ensejadora de culpa no coracao alheio, mas va la: as birras, ataques de carencia e (consequente) perda de paciencia de minha parte praticamente desapareceram depois que eu parei de trabalhar e passei a me dedicar muito mais ao pequeno. Agora podem me apedrejar.
Beijo e obrigada,
Roberta (piscardeolhos)

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