quinta-feira, 28 de abril de 2011

Por que (não) desmamar II – Mitos e fatos

O texto de ontem foi emocional, falei do que sentia. Hoje, deixo algumas informações mais técnicas para ajudar as mães a fazerem escolhas conscientes e decidirem (ou não) pelo desmame dos seus filhos com autonomia.

Listei motivos comuns pelos quais o desmame é rotineiramente aconselhado e explico, com base na literatura, os equívocos de cada um:

1) A criança não aceita outros alimentos, ou não come o suficiente.

Com nossos conhecimentos atuais, o mais prudente é começar a oferecer outros alimentos aos seis meses. Algumas crianças comem alegremente e, provavelmente, algumas precisam deles de verdade. Mas dizemos “oferecer”, e não “enfiar”. A criança é livre para comer ou não. Muitas crianças de peito não querem nem provar qualquer outro alimento até os oito ou dez meses, ou até mais. Estão perfeitamente saudáveis e felizes, seu peso e tamanho são normais, seu desenvolvimento psicomotor é excelente... mas recebem o suficiente com o peito e, portanto, não querem mais nada.

Isso produz não pouca inquietação nas mães de lactentes entre seis e doze meses, mais ou menos. Seus filhos mal “beliscam” alguma coisa (uma mordida de banana aqui, um miolo de pão acolá, um macarrão mais pra frente) além do peito. Sempre se escuta algum comentário gentil: “Sua Laura ainda não come nada? Pois você tinha que ver minha Jéssica, como ela gosta de cereais com leite”.

Quem ri por último ri melhor. As crianças de peito demoram a aceitar outros alimentos, mas quando o fazem costumam desprezar as papinhas industriais e os alimentos triturados e se lançar à comida de sua mãe. No começo do seu segundo ano, a criança de peito costuma comer lentilhas com linguiça, omelete de batatas e sanduíches de presunto, tudo isso a colheradas e mordidas com sua própria mãozinha.


Mi niño no me come (Meu filho não come). Carlos González, pediatra espanhol.
(Tradução minha).

Lembrando que, muitas vezes, achamos que a criança está comendo pouco quando, na verdade, ela está comendo exatamente o que precisa.

Se a criança está mamando no peito, três refeições por dia com alimentos adequados são suficientes para garantir uma boa nutrição e crescimento, no primeiro ano de vida.

Guia Alimentar para Crianças Menores de Dois anos, Ministério da Saúde.

2) A criança não está ganhando peso ou crescendo adequadamente.

Se uma criança amamentada não estiver crescendo adequadamente no segundo ano de vida, os esforços devem concentrar-se na melhoria da qualidade nutricional e quantidade dos alimentos complementares e não na interrupção da amamentação (Bentley et al., 1997). Essa sugestão é reforçada com o estudo feito em Bangladesh onde as crianças desnutridas não amamentadas além do primeiro ano tiveram um risco seis vezes maior de morrer, quando comparadas com as amamentadas (Briend e Bari, 1989).

Guia Alimentar para Crianças Menores de Dois anos, Ministério da Saúde. (grifo meu)

3) Se amamentada por muito tempo, a criança pode desenvolver dependência excessiva da mãe, problemas psicológicos e sexuais.

O período natural de amamentação (sem a influência da cultura), segundo diversas teorias, seria de 2,5 a sete anos. Estudos etnográficos sugerem que, antes do uso disseminado de leites não humanos para crianças, elas tradicionalmente eram amamentadas por três a quatro anos, época em que as crianças usualmente deixam de amamentar quando lhes é permitido alimentar-se de acordo com a sua vontade (Dettwyler, 1995). A OMS recomenda que a amamentação seja praticada até os dois anos ou mais (World Health Organization, 1995a).

Guia Alimentar para Crianças Menores de Dois anos, Ministério da Saúde.

Quando a psicóloga da creche soube que Maribel estava dando o peito a seu filho de dezesseis meses, chamou-a para lhe explicar que se não o desmamasse imediatamente, seu filho seria homossexual. (...)
Como Maribel persistiu em sua “perigosa” atitude, a psicóloga ligou para sua casa para falar diretamente com seu marido e adverti-lo sobre o dano que sua esposa estava fazendo ao filho de ambos.

Nossa sociedade, tão compreensiva em outros aspectos, é muito pouco compreensiva com as crianças e com as mães. Esses modernos tabus poderiam ser classificados em três grupos:
- Relacionados ao choro: é proibido dar atenção às crianças que choram, pegá-las no colo, dar-lhes o que pedem.
- Relacionados ao sono: é proibido fazer as crianças adormecerem no colo ou lhes dando o peito, cantar ou niná-las para que durmam, dormir com elas.
- Relacionados à amamentação: é proibido dar o peito em qualquer momento ou em qualquer lugar, ou a uma criança “muito grande".

Quase todos eles têm uma coisa em comum: proíbem o contato físico entre mãe e filho. Pelo contrário, são muito apregoadas todas aquelas atividades que tendam a diminuir dito contato físico e aumentar a distância entre mãe e filho.
(...)

Ainda que alguns tentem justificar essas recomendações dizendo que é para que “a mãe descanse”, o certo é que nunca te proíbem nada cansativo. Ninguém diz: “Não limpe tanto, que a criança se acostumará a ter a casa limpa”, ou “Ele vai servir ao exército e você vai ter de ir junto para lavar a roupa dele”. Na realidade, o proibido costuma ser a parte mais agradável da maternidade. (...)

Todos esses tabus e preconceitos fazem as crianças chorarem, mas também não tornam os pais mais felizes. A quem satisfazem, então? Talvez a alguns pediatras, psicólogos, educadores e vizinhos que os propagam? Eles não têm o direito de lhe dar ordens, de lhe dizer como você deve viver sua vida e cuidar de seu filho. Muitas famílias sacrificaram sua própria felicidade e a de seus filhos no altar de preconceitos sem fundamento.


Bésame Mucho. Carlos González, pediatra espanhol.
(Tradução minha).

4) Os dentes do seu filho estão nascendo. Hora de desmamar.

O único inconveniente de dentes na amamentação são as mordidas que eventualmente podem ocorrer. Aconteceu comigo, e nós superamos essa fase.

No mais, a lactação protege a arcada dentária de deformidades que possam ser causadas por chupetas ou mamadeiras. O peito sacia a necessidade de sucção, dispensando a chupeta, e a necessidade de oferecer outros líquidos pela mamadeira. Uma criança de seis meses, que deve começar a receber outros alimentos, está apta a beber num copinho de treinamento ou mesmo num copo normal, com auxílio. Recém-nascidos, e até pré-maturos, são capazes de beber de um copinho de café.

No mais, a primeira dentição não é chamada de dentes de leite à toa.

5) Você engravidou, então tem de desmamar.

Já falei sobre isso aqui e aqui.


Por hoje é só. Amanhã encerro mais esta série de posts sobre aleitamento com um Manifesto em defesa da amamentação.

10 comentários:

Dani disse...

Lia, essa série de posts sobre amamentação deveria ser publicada pelo Ministério da Saúde. Sério. Vejo que as pessoas são muito mal informadas sobre esse assunto. Tenho duas amigas que pararam de amamentar quando engravidaram de novo, porque, ouviram falar que não podia (por causa das contrações). Simples assim. Não buscaram informações, orientações, nem nada. O povo falou e elas pararam.
Por isso, te parabenizo amiga!
Aplausos para você!
Beijo.
Dani
(PS: o Lia...querida...eu tô providenciando a mudança da foto lá do blog...mas...ah...meu motor tá lento que só ele!)

Ana Paula - Journal de Béatrice disse...

Lia,
Muito esclarecedor e este seu post so reforça o caminho que vc optou com Emilia. Adorei.

Eu preciso ter um tempinho e escrever sobre o nosso desmame. Béatrice pede muito pouco o peito. Se ela pede eu pergunto se ela quer brincar, comer alguma coisa e essa outra coisa normalmente é bem mais interessante que a tetê. E tudo tem a acontecido de uma forma lenta e hoje estou mais segura para dar os meus passos de desmame. So não digo que ela desmamou por completo justamente por ela lembrar e pedir a tetê quando acorda. Eh boa a sensação de fazer as coisas no seu devido tempo, no meu e no dela.
Beijos querida!

Mari Mari disse...

Lia, queria te mandar um e-mail mas nao encontrei, entao estou utilizando este espaço pra te pedir um post. Tenho uma amiga que está de licenca maternidade do terceiro filho, e ela diz que a cada filho que nasce, os mais velhos ganham a mae de volta, por 4 ou 6 meses, em casa. Esses dias ela levou o mais velho fazer exame de sangue, e depois fizeram um gostoso lanche numa padaria. Atualmente, ainda de licenca, os mais velhos vao pra escola e ela fica em casa com a pequena. E voce? Sei que a Emilia já frequenta a creche; o que voce pretende fazer quando o bebê chegar? Ficar com os dois em casa o tempo todo, mandar a E pra escola tempo integral/meio periodo/dias alternados...? Gostaria de saber a sua opiniao...Obrigada, e desculpe o abuso do espaco!

Dani Garbellini disse...

Lia, agora você abalou geral. MARAVILHOSO!!!
Que post maravilhoso! Uns dos melhores que já li sobre amamentação. E olha que já acompanhei muita blogagem sobre o assunto.

Pronto, agora além de seguidores, abre um quadrinho ai do lado de fãs que eu estou entre eles.

Obrigada pelo seu comentário lá no Danielices.

Beijos!

Paloma, a mãe disse...

Lia, muito bom! Eu já pensei em publicar trechos deste Guia do ministério da Saúde várias vezes e tenho até um post incompleto sobre isso, por conta daquela história ridícula de dizerem que o bebê não pode mamar antes ou depois de comer papinha, porque o leite atrapalharia na absorção do ferro,s endo que isso só se aplica ao leite da vaca, não serve para o leite materno.
mas, como tantos outros posts, ficou no rascunho e não terminei por preguiça (de postar e das pessoas que teimam em mal informar).
Beijos

Fernanda disse...

Oi Lia, Estou cada dia mais encantada com seus posts!!
Que mundo triste esse que nós vivemos, que quer proibir o amor de mãe e filho...
Eu sou mãe de menino e tenho medo das pressões serem ainda maiores por eu fazer tudo "errado": dou o peito para ele acalmar e dormir, dou colo quando ele chora, se ele está assustado vai dormir no meinho do pai e da mãe. Mas é tudo segredo, né? Porque, segundo a sociedade atual, isso vai ser HORRÍVEL para o meu filho...
Não é disso que nossa sociedade, especialmente os homens, mais precisam hoje? Amor e carinho de mãr para serem pessoas melhores?

Fernanda disse...

Ah Lia, e também queria dizer que fiz um post para agradecer as dicas que li no seu blog sobre amamentação e dentinhos. Você não tem idéia como suas dicas me estimularam e ajudaram a solucionar o problema. Muito obrigada de coração... Pessoas como você é que fazem a diferença...
Beijos

Madame Sabe o que diz disse...

A cada dia me apaixono mais por seu blog, o momento que vc vive é o mesmo que estou vivendo com Alice e suas impressões são as mesmas que tenho, obrigada e mil beijos na sua florzinha Emilia!!

Adriana Mendes disse...

Oi Lia, obrigada por sua mensagem, li agora esse outro post. Conheci semana passada uma mulher que amamentava a filha de 1 ano e 2 meses e a outra de 3. Não parou durante a gestação e diz que vive sendo criticada. Eu apoiei. Ao ler, lembrei mais uma vez da cena mais triste, entre tantas que vi. Postei hj... é sobre amamentação.. A Mãe que Amamentava o Filho. Bjs

Adriana Mendes disse...

oi Lia, obrigada pela mensagem. Me inspirei para escrever sobre uma das cenas mais crués impostas pela Justiça a uma mãe e um bebê. Fala sobre amamentação, claro. A Mãe que Amamentava o Filho, dá uma olhadinha...
Semana passada vi uma mulher amamentando sua fiha de 1 ano e 2 meses e a outra de 3. Amamentou grávida. É criticada até hj, não está nem aí! Ponto pra ela!
adorei seus textos

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