terça-feira, 24 de agosto de 2010

Sobre a lucidez

Meninas, agradeço enormemente os comentários ao meu último post. Foi muito bom sentir a solidariedade e saber que eu não sou a única que se sente assim.

Mas alguns comentários me chamaram particularmente a atenção e me fizeram pensar bastante. Eles falavam sobre a situação de quem acabou de voltar ao trabalho depois de uma longa licença, e mostravam uma possível relação entre meu sentimento de insatisfação e a saudade da minha filha. Foram comentários muito ponderados e sábios.

Sim, já pensei bastante sobre isso. Mas tenho plena convicção de que meu mal-estar em relação ao trabalho não é algo vinculado à distância da Emília. É algo antigo, que vem se arrastando há anos, que vai e vem como ondas (ou como contrações do parto, que vão ficando cada vez mais próximas e mais doloridas), e que meu marido tem acompanhado bem de perto. Eu mesma documentei todas essas crises por escrito, em um diário pessoal.

Mas não é exatamente sobre minha história que quero falar. É sobre essa constante necessidade que temos de duvidar de nós mesmas, da nossa intuição e do nosso coração, e confiar numa razão que nem sempre é nossa.

Lembrei do livro “A Cadeira de Prata”, de C.S. Lewis, da série Nárnia. Nele, o príncipe vive um encantamento e tem de ser amarrado todas as noites numa cadeira de prata, pois entra em transe e começa a delirar. Ele explica sua história aos visitantes (os heróis da história) e diz que, no período em que estiver amarrado, vai clamar e implorar para ser liberto, mas que eles não devem libertá-lo até que o transe passe. No meio de um desses ataques, ele clama pelo nome de Aslam, o leão que representa a figura divina. Então os heróis entendem que o que ele dizia ser o transe na verdade era seu único momento de lucidez, e que no tempo em que ele estava livre é que o feitiço operava.

Daí eu penso se os episódios de TPM, gravidez, pós-parto não são na verdade grandes oportunidades de descobrirmos verdades dentro de nós. Se essas oscilações de hormônios, em vez de nos deixarem mais fracas, na verdade não nos libertam da tirania da “razão” – não uma razão boa, mas um racionalismo medroso e inseguro. E se a loucura muitas vezes não é mais sábia que a razão.

Por via das dúvidas, escrevo tudo. E, relendo minha história contada por mim mesma, descubro muitas coisas. Assim meu passado vai me ajudando a ser melhor no futuro. Romântica? É. Mas das loucuras, escolho a que me parece mais verdadeira.

domingo, 22 de agosto de 2010

Do céu ao inferno

Foi bem rápido. Menos de duas semanas de volta ao trabalho e me sinto péssima. Tudo o que parecia tranqüilo tomou novos rumos, e de repente me vi soterrada de funções absolutamente alheias a tudo aquilo que sei fazer ou gosto de fazer. Já disse aqui que odeio administração? Pois odeio. Dêem-me papeis, muitos papeis, e não vou reclamar. Mas me mandem trabalhar com qualquer ferramenta de gestão e estejam certos de me trazerem noites sem sono, um estômago cheio de ácido e muitas lágrimas.

Parece uma bobagem, um sentimento precipitado e influenciado pelo fim da minha licença. Mas de repentina essa sensação não tem absolutamente nada. São quase cinco anos com o mesmo sentimento de inadequação, de estar sendo mal aproveitada, de desperdício de vocação. Tenho qualificações que pouquíssima gente onde eu trabalho tem, e que seriam extremamente úteis para a instituição da qual eu faço parte, mas me é simplesmente impossível colocar isso em prática. Cansei de insistir, e me conformei depois que engravidei com a feliz ideia de que passando sete meses afastada todos aqueles sentimentos desapareceriam.

Eu não entendia por que tinha tanto medo de voltar ao trabalho. Achava que era receio de abandonar minha filha, de que ela não ficasse bem. Mas era mais. Era medo de voltar a uma realidade que muito me fez sofrer, e que me rendeu um quadro de pré-depressão no final de 2008 . Sabe gato escaldado?

E desde a noite de quinta tenho dormido muitíssimo mal, e tenho chorado regularmente. É uma dor enorme, um desânimo, uma completa falta de coragem.

Muitos poderão me perguntar por que eu simplesmente não acabo com isso, e largo tudo. Ou por que não faço uma terapia (já fiz) e aprendo a conviver com essa realidade. Afinal, que capricho todo é esse de querer fazer o que gosta, e que sabe fazer muito bem?

O problema é que toda decisão exige muita prudência. Um emprego como o meu está cada vez mais difícil de conseguir e me garantirá um futuro bastante confortável. Mas vale a pena passar 30 anos infeliz pra depois se aposentar ganhando mais do que eu preciso?

O que me faz faltar a coragem para mudar de vida – e eu sei que posso, sei que tenho o talento para construir uma outra coisa totalmente diferente – é que o sofrimento é intermitente. Se fosse uma depressão daquelas, a gente emagrece, passa meses chorando, quer morrer, eu veria claramente que uma mudança de rumo seria urgente. Mas eu fico mal, fico bem, fico mal, fico bem. E agora vejo que não dá mais pra continuar vivendo nesse pisca-pisca. Tenho uma filha pra criar, e em breve terei outros. E tenho de estar inteira pra eles.

Tenho conversado muito com meu marido e tomamos algumas decisões. Tudo muito devagar, e vejo um fio de esperança. Mas ainda choro, e tenho medo.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Andando em círculos

Passei sete meses fora e parece que voltei ao ponto em que estava quando saí de licença. A maioria dos colegas continua por aqui e meu trabalho ainda é o mesmo – o que, confesso, me deixa um pouco confortável. Sim, porque não sei se estaria preparada para grandes mudanças nesta fase da minha vida. Ainda estou muito centrada na minha família, e não sei se isso vai mudar tão cedo (nem se vai mudar um dia).

Ainda sonho com outros rumos profissionais, mas sem pressa. Brinco de escrever uma dissertação de mestrado, na esperança de em breve ter tempo pra isso. E sinto a mesma calma que sentia há pouco mais de sete meses, quando eu sentava nesta mesma cadeira com uma barriga enorme.

Mas percebi que estava andando em círculos quando me peguei usando o tempo livre que tinha para ler sobre parto. Exatamente o que eu fazia há sete, oito meses. Não sei se é porque ainda pretendo ter mais filhos, mas a gestação, o parto e a maternidade me transformaram de forma irremediável. Parece que foi ligado um botão que me tornou reprodutora por tempo indeterminado. Se eu não estiver gestante, estarei lactante. Quase como uma carreira.

Existem outras coisas importantes, é claro, como aquele poema que eu ensaio traduzir pra um futuro mestrado. Mas sabe quando você de repente encontra uma vocação, que você não precisa se esforçar nem um pouco pra exercer e que cai sobre você como uma luva, sem que você possa impedir?

E então entendi que a maternidade é irrevogável, irrenunciável e irresistível.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

“Maus hábitos”

Uma das poucas vantagens de passar o dia inteiro longe do seu filho é que aquilo que parecia um “mau hábito”, em vez de desencorajado agora pode ser estimulado. Digo “maus hábitos”, assim com aspas, porque eles em si não têm nada de maus. Apenas são incompatíveis com nossa rotina moderna, pra infelicidade dos nossos bebês.

Mas agora que Emília está na escolinha, sobrevivendo mais que bem, comendo, tomando leite no copinho, dormindo e sorrindo, enquanto estiver comigo eu quero mais é incentivar esses lindos “maus hábitos” que ela tem:

- dormir no peito;
- mamar de hora em hora;
- só se alimentar do meu leite.

A conclusão a que cheguei é que carinho e aconchego não têm nada a ver com dependência. Quanto mais segura ela estiver do meu amor, e de que estarei sempre disponível pra ela, mais independente ela será.

E é assim que eu quero nossa relação: que ela me queira por perto por amor e afeto, e não porque não sabe ficar sozinha ou com outras pessoas.

P.S.: Claro, no fim de semana eu dou as comidinhas, e ela segue comendo super bem. Mas durante a semana, depois das 17h, é só peito!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O dia de uma profissional lactante

Antes de Emília nascer, eu não sabia como seria. Não sabia como conciliaria profissão e maternidade mas, apesar do medo, meti as caras, como escrevi naquela época.

Isso porque trabalho 40h semanais, num lugar longe de casa e longe de tudo. Por aqui praticamente não há restaurantes decentes, e sempre trouxe minha marmita para comer no refeitório. Mas como preparar comida todas as noites com um bebê em casa? Como descansar, se sem Emília eu já me cansava o suficiente só com minha rotina? E o tempo pra ela? E a amamentação? Como esvaziar os seios no trabalho?

Hoje, de volta ao trabalho, as coisas se acertaram milagrosamente, e nossa família está se adaptando com sofrimentos suportáveis.

Nossos dias têm sido assim:

Emília acorda por volta das 6h30, e com ela, todos nós. Se está bem, o marido fica com ela para eu me arrumar, de modes que eu dê o mamar o mais próximo possível do horário de sair. Se não, já dou o peito de uma vez. Depois, deixo ela no carrinho pra ela fazer tudo comigo: ir ao banheiro, escovar os dentes, me maquiar e me vestir. Não tomo café em casa pra não perder esses preciosos minutos com ela. Ali pelas 7h e pouco saio pro trabalho e deixo Flosinha com o pai. É o momento de eles dois se curtirem, pra depois saírem às 8h e pouco rumo à escolinha e ao trabalho.

Saio parecendo muambeira: uma sacola com minha marmita, outra com a bomba de leite e a bolsa com minhas coisas. Resolvi a questão da marmita da seguinte forma: aos sábados vem uma pessoa lá em casa pra fazer comida pra semana, e ela já deixa congeladas as porções pra eu trazer pro trabalho (até arroz a gente congela. Não é bom como arroz fresco, mas quebra o galho). Continuo almoçando aqui no refeitório, já que não compensa sair daqui do caixa prego, me meter na auto-estrada com um trânsito pesadíssimo pra chegar esbaforida na creche e passar meia hora com Emília, não almoçar direito e ainda ter de sair 1h mais tarde do trabalho – porque aí eu teria de tirar 2h de almoço. A própria psicóloga da creche achou melhor eu não ir, até porque seria mais uma separação.

Na falta da mamada ao meio dia, estou mandando dois potinhos de leite por dia (uns 100ml) pras tias oferecerem a Emília caso ela não coma algo equivalente a um mamão inteiro no lanche. Assim ela fica alegrinha e aguenta até as refeições principais (almoço e janta). Ordenho duas vezes na salinha de apoio à amamentação aqui do meu trabalho, que foi inaugurada durante a minha licença (Deus é bom!) e uso uma bomba elétrica. É mais rápido que tirar na mão e preserva meus tendões. Enquanto ordenho, fico assistindo DVDs no Looney Tunes na televisão da salinha.

Saio daqui 16h30, pego o leite no congelador e me mando pra escolinha. Quando me vê, Emília faz aquela cara de mamãe-me-tira-daqui-estão-me-torturando e se joga no primeiro dos peitos que aparecer na frente dela. Amamento lá mesmo e só então volto pra salinha pra conversar com as tias, perguntar como foi o dia e pegar as coisas dela (a essa altura, cheia de leite na pança, Emília está toda serelepe, rindo pra todo mundo). Daí volto mais muambeira que nunca, acrescentando às três bagagens da ida a bolsa de Emília, o bebê conforto (que o marido deixa de manhã) e a própria Emília. Ser mãe é virar um cabideiro ambulante.

Chegamos em casa ali pelas 17h e poucos. Coloco ela no carrinho pra esvaziar a bolsa dela, conferir as anotações na agenda, colocar a roupa suja no cesto, tomar uma água e ir ao banheiro. Depois brincamos, Emília mama mais um pouco, e brinca, e mama, e ultimamente tem capotado ali pelas 18h30. O pobre do marido chega, só dá tempo de ver Flóris mamando e dormindo (a creche é um sossega leão. Ela chega exausta). Nesse tempo, arrumo minha marmita pro dia seguinte e esterilizo a bomba de leite. Jantamos juntos, até ela acordar da soneca pro sono definitivo. Eu dou a massagem e o marido dá o banho. Ela adormece em torno de 20h e vamos nós dois pra cama logo em seguida, pra levantarmos renovados no outro dia.

E tem sido assim. O marido tem sofrido mais que eu, porque agora ele a vê muito menos (enquanto eu estava de licença, ele vinha almoçar em casa e lamber a cria). Além disso, ela parece ainda mais apegada a mim, e às vezes não quer ficar com ele. Mas assim vamos nos ajeitando, nos adaptando.

Agora deixa eu quebrar minha cuca pra bolar uma rotina pra quando eu tiver cinc... ops, três arrebentos.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Ai, Roberto!

Impressionante como ele sempre fala aos nossos corações. Sempre tem alguma coisa nas músicas dele com a qual a gente se identifica, e por isso ele é o Rei. Agora, experimente escutar Roberto Carlos no carro durante a viagem pro trabalho, enquanto você deixou sua linda Flosinha pra trás. E pensem que o trajeto é longo, que permite ouvir o CD over and over. Visualizaram?

Me digam se não parece a Emília falando pra mim:

Se você demora mais um pouco
Eu fico louco esperando por você.
(Ciúme de você)

E eu pra ela:

São suas mãozinhas feitas pra fazer carinho
Nada tem mais charme do que o seu joelhinho
Seus pezinhos a pisar
Meu coração que a cantar
Diz que tudo que é seu
É meu, é meu, é meu.

(É meu, é meu, é meu)

Daí o melô da mãe saindo do trabalho:

Por isso foi que eu decidi
Não fico nem mais um minuto aqui
Eu vou buscar o meu amor.
(Eu não vou mais deixar você tão só)

E por último, o melô da mãe que já não sabe mais se vale a pena trabalhar:

Não há dinheiro no mundo que me pague
a saudade de você.

(Não há dinheiro que pague)

Gente, isso tudo em apenas um disco, O Inimitável! Porque se eu fosse pegar toda a obra do Roberto, a coisa ficava ainda mais feia. E eu fecho com uma clássica do Rei, que não está nesse disco mas que, né? Tudo a ver:

Meu bem qualquer instante
Que eu fico sem te ver
Aumenta a saudade
Que eu sinto de você
Então eu corro demais
Sofro demais, corro demais
Só prá te ver, meu bem.
(Corro demais)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

No intervalo do almoço

Passo aqui rapidinho só pra dizer que:

- Minha volta ao trabalho foi relativamente tranquila. Foi bom rever os colegas e descobrir que ninguém mexeu no meu computador e na minha estação de trabalho.
- A chefe nova parece ser boa gente e aceitou sem problemas meu horário chega-cedão-sai-cedão.
- Estreei a Sala de Apoio à Amamentação e estou achando o máximo. É um cantinho sossegado, com chave, geladeira, pia e poltronas pra gente tirar o leite em boas condições de higiene e sem medo de ser flagrada de peitos de fora.
- Hoje levei Emília pela primeira vez na aulinha de natação (lá na creche mesmo) e, apesar do frio, foi um momento bem gostoso.

...e a saudade ainda é grande. Licença maternidade é realmente o paraíso.

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