terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O que queremos para nossos filhos

Sempre quando saio de casa para o trabalho dou uma espiada no jornal do vizinho, estendido sobre o capacho. Há muito tempo, talvez anos, não leio jornais. Nem no papel, nem pela internet, tampouco assisto aos noticiários pela TV. Fico sabendo dos acontecimentos pelo boca a boca, e felizmente acabo passando ao largo de muita tragédia e notícia ruim.

Mas o jornal do vizinho está sempre lá, com uma manchete quase sempre mal escrita e sensacionalista e outras chamadas sem importância. Virou hábito, passo por lá, faço minha leitura dinâmica e desço o elevador tecendo críticas mentais, que normalmente já se esvaíram quando chego à garagem.
Mas hoje o que li sobreviveu à viagem de elevador e ficou ali, rendendo minhoquinhas filosóficas. Era uma pequena chamada no canto superior da primeira página do jornal local, que dizia mais ou menos assim: “O amor compensa a ausência. Mães podem trabalhar sem culpa: estudos demonstram que o desenvolvimento das crianças não é prejudicado quando as mães passam o dia fora.” Ao lado, a foto de uma mãe com um bebê de pouco mais de um ano: “Fulana trabalha o dia todo, mas investe na qualidade do tempo que passa com a pequena Júlia.”

Coincidentemente, tinha lido há alguns dias uma entrevista numa revista institucional com uma médica que trabalhava 12h por dia, tinha um filho de dois anos e estava grávida do segundo. A matéria buscava demonstrar como maternidade e carreira são perfeitamente conciliáveis e como todos, mãe e crianças, estavam felizes.

Voltando ao jornal do vizinho. Uma notícia emancipatória: a ciência concluiu que nossos filhos não precisam de nós, já que se desenvolvem muito bem longe das mães (e, supõe-se, também dos pais). E nessa notícia, um valor implícito: o importante para uma criança é se desenvolver adequadamente. Pais satisfeitos, culpa desfeita.

Não li toda a matéria – até por que imagino que o vizinho não ficaria feliz em encontrar seu jornal todo desmontado. Como eu disse, apenas passo os olhos pelos dizeres da primeira página. Mas inferi que esse perfeito desenvolvimento ao qual o repórter se refere diz respeito a aptidões motoras e intelectuais: um bebê que é deixado na creche ou na companhia de uma babá não apresenta atrasos no andar, na fala, na coordenação motora, e disporá de todas as ferramentas para iniciar sua educação formal no mesmo nível que seus coleguinhas que passaram a primeira infância ao lado das mães. Já li, inclusive, algumas notícias que demonstram que crianças cujas mães trabalham fora têm melhor desempenho acadêmico.

Vira e mexe me deparo com alguma coisa que me faz matutar sobre os valores que temos em relação aos nossos filhos. Vejo a descrição nas caixas de brinquedos: “ajuda o bebê a dar seus primeiros passos; estimula o desenvolvimento motor; estimula o tato; estimula a linguagem...” Alguns ainda fazem referência à diversão, mas como um brinde: “aprenda se divertindo!”. Porque só se divertir deve ser mesmo uma perda de tempo. Já vi até lojas de roupas infantis anunciarem que seus produtos estimulam os sentidos das crianças, quando o principal fator na escolha do que uma criança vai vestir deveria ser o conforto.

Com essa mentalidade, uma prova científica de que meu filho não precisa da minha presença para desenvolver todas as aptidões necessárias à sobrevivência num mundo capitalista é realmente libertadora. Enquanto isso, visto meu tailleur e lá vou eu também sobreviver nesse mundo capitalista, sem culpa. Para que depois meus filhos cresçam e sejam bem sucedidos como eu.

Sou uma mãe que trabalha. Com a jornada de 8h diárias, sou forçada a passar 10h longe de casa. É parcialmente uma obrigação, parcialmente uma opção. É algo que já estava assim quando minha filha nasceu e que demanda um pouco de estratégia para ser mudado. Não vou dizer que me sinto culpada. Não sinto culpa simplesmente porque isso não ajuda em nada. Sinto, sim, um desconforto. Porque o meu instinto grita dizendo que isso não está certo.

Não vim aqui discutir se as mães devem ou não trabalhar. Vim me perguntar o que nós queremos para os nossos filhos.

Eu quero, primeiramente, que meus filhos tenham caráter – caráter esse que eu e meu marido vamos ajudar a formar, responsabilidade indelegável para educadores ou cuidadores. Em segundo lugar, quero que meus filhos sejam felizes. Construir a segurança emocional que vai permitir que eles sejam plenos de alegria é outra tarefa exclusivamente nossa. Se eles vão ser ricos, pobres, brilhantes, bem sucedidos, pouco importa. Se tiverem caráter e paz de espírito, saberei que minha missão foi cumprida.

Se alguma mãe precisa de um estudo científico para se livrar da culpa de não passar tempo o suficiente com seus filhos, provavelmente ela não se sente segura o suficiente para manter uma carreira integral. E provavelmente ela está certa.

19 comentários:

Roberta Lippi disse...

É isso aí, Lia.
Cada um deve encontrar o seu equilíbrio, e o que é bom para um não é necessariamente o melhor para o outro. Não adianta ficarmos nos torturando ou fazendo da culpa um inferno.
A culpa é, na verdade, a maior culpada por tudo. Porque mães e pais que sentem culpa muitas vezes dão tudo o que o filho quer pra compensar essa ausência.
Assim como você, o que eu mais me preocupo é com os valores que estamos passando para nossas filhas, com a educação que procuramos dar para elas e, no fundo, querendo também que elas sejam felizes com as escolhas que fizerem.
Beijos beijos
(PS. E adorei o tema da festinha da Emília!!)

Micheli disse...

Amei seu texto, Lia! Concordo plenamente com você. O que mais importa é ensinar valores e ter filhos com caráter e felizes. De que maneira, não é o mais importante. E os pais tem de se preocupar é com isso, da maneira com que podem, com o tempo que dispõe com os filhos, educar, ensinar, dar carinho, amor, segurança emocional.
Beijos.

Tathyana disse...

Pesquisas compradas para dar sentido ao mundo capitalista em que nós vivemos. E enquanto isso vamos comprando, junto com os brinquedos valores, estímulos, educação..tudo o que um bb precisa pra crescer saudável.

Juliana disse...

Amei Lia. Como sempre aliás. Com uma mãe como tu Emilia não tem escapatória. Será com certeza muito feliz e terá todas as armas necessárias para ser honrada e de ótimo caráter. Um grande beijo pra vcs duas.

Ana disse...

Não tenho estatistica, não sou pesquisadora, etc. Mas vou dizer: Não acredito nisso.
Simples assim :)

Ana disse...

Lia concordo com vc. Eu deixei meu emprego quando o Felipe estava com 7 meses...Um pouco pq queria aproveitar mais a infância dele, e já que trabalhava com meu marido e num ritmo muito acelarado, chegavamos sempre muito tarde em casa e aproveitavamos muito pouco o Felipe. Hoje eu fico aqui com ajuda da babá. Mas ano que vem pretendo trabalhar dinovo, nem que seja meio período. Tenho milhões de amigas que conseguiram conciliar e acredito sim ser possível e sermos bem sucedida na criação dos nosso filhos. O que eu quero é que ele continue crescendo com carinho, aprendendo e dando valor em tudo que tem. Bjos

Tassia & Ryan disse...

Oi Lia, de vez em quando eu entro aqui no seu blog e adoro.
Eu nunca faço isso, mas eu não pude conter minha indignação com essa matéria e decidi comentar.

Eu faço pesquisa, junto com outros times de pesquisadores por diversas universidades no país, com crianças de idade pré-escolar na Brigham Young University no estado de Utah nos EUA. E posso te garantir que no campo de "human development" NUNCA, nenhuma pesquisa concluiu que "nossos filhos não precisam de nós para se desenvolver". Muito pelo contrário, pesquisas mostram que a presença de um "caregiver" é muito mais importante para o desenvolvemento de um psicológico estável do que a gente imaginava. Eu não vou entrar na questão de pais que trabalham, porque até hoje não houve nenhuma pesquisa válida e conclusiva de que pais que trabalham fora tem efeito positivos ou negativos no desenvolvemento do filho. Mas, na MINHA opnião, eu acho que pais que procuram equílibrio entre trabalho e criação dos filhos, realmente não tem efeitos negativos na criação dos pequenos (tem efeito SIM, mas não negativo).

Vou te dar um exemplo vivo de que essa matéria é completamente absurda:
Eu já fui, junto com outros estudiosos do departamento de "human development" para Romênia trabalhar com crianças deixadas em orfanatos. Essas crianças eram cuidadas por enfermeiras, e até que eram bem cuidadas na medida do possível. Mas, a primeira das crianças a engatinhar tinha 18 meses! Isso se deve ao fato de que nenhuma delas tinha um "caregiver" para suprir com as necessidades emocionais que só um pai sabe dar. Eu também trabalho com crianças que foram adotadas de orfanatos de outros países, e elas também apresentam retardo GRAVE no aprendizado motor e psicológico.

Tome muito cuidado com o que você lê, principalmente sobre educação de crianças. Pelo menos quase todas as matérias de jornal e revista que eu já li não se passavam da opnião do autor. "Pesquisas confirmam" geralmente são balelas, as vezes as pesquisas nem existem, ou o indivíduo não sabia nada sobre o assunto e interpretou a "pesquisa" como bem entendeu. Vale ressaltar que nem todas as pesquisas são válidas.

Desculpe vir aqui causar polêmica no seu blog. Mas esse autor metiu FEIO nessa matéria.

Beijos, parabéns pela filha linda ;**

Missão Mamãe disse...

DESCONFORTO...essa é a palavra...de qq forma é bom saber que eu não to criando filhas frustradas de uma mãe que trabalha, rsrs...lindo seu blog, já li váaarias vezes mas nunca tinha comentado...

bj pra vc e pra menina Emília

Jéssica

Manu Paz disse...

Que belo post!!! E concordo com vc qdo diz que a formação do caráter e a segurança emocional cabe extamente a nós: mães e pais!
Mas confesso que me sinto sim culpada por ficar longe de minha filha, hj com apenas 6 meses. Espero que um dia eu possa sentir apenas esse desconforto que vc se referiu.

Bjs!

mamãedemarina disse...

Lia,
Poucas vezes comentei, apesar de ler seu blog sempre. Até sofri com o último post sobre a Emília... veja!
Mas o seu post hoje foi perfeito. Ele não é pra quem trabalha fora ou para quem está com sua cria em casa 24hs. É pra mães. E eu acho que é pra refletir mesmo.
Eu sou psicóloga - bem chata com a Psicologia e todas as vertentes Psis - e sempre acho estranho esses estudos categóricos sobre malefícios e beneficios. O que eles olha de fato?
Precisamos de escolhas e oportunidades e liberdade para que elas sejam feitas. E não somente de estudos inovadores que trazem as novas verdades que logo serão velhas.

Paloma, a mãe disse...

Já li muita matéria assim e servia patra aplacar a minah culpa (no meu caso, era culpa mesmo). Aposto que na matéria, tem uma entrevista com uma mãe ou uma psicóloga dizendo que é melhor passar 5 minutos de qualidade que muitas horas sem qualidade.
Mas não, criança precisa de quantidade também.
Fora que é difícil ter alguma qualidade quando se está exausta pelas muitas horas trabalhadas, trânsito, problemas no trabalho e todo o resto da vida para cuidar.
Enfim, isso exige muita reflexão e não estas conclusões rasteiras a que os estudos chegam para mostrar que ser workaholic é que é legal, afinal, alguém tem que ganhar dinheiro (o dono da empresa, é claro).
Beijos

Paula disse...

Oi Lia prazer eu sou a Paula. Sempre vejo o seu blog nos blogrolls por ai e o nome sempre me chama a atencao mas nunca entro. Hoje o titulo do post me chamou a atencao alem do nome do blog e encontrei um texto muito interessante e muito bem escrito desde um ponto de vista de nós maes. Acho q isso de deixar ou nao os filhos sera um eterno conflito dentro de nos mulheres,umas mais que outras. Eu sinto que essa inquietacao ou desconforto sera constante nas nossas vidas e a unica forma de amenizar é fazer as pazes com nos mesmas, é saber q eles sao pessoas completas, capazes e felizes. Que difícil é ser mae ne?!

Mariana - viciados em colo disse...

Lia,
tenho pensado muito sobre isso e recentemente minha empregada pediu demissão para poder acompanhar melhor a filha de doze anos que não está bem na escola. achei legítimo. todos que sabem da hostória torcem a boca, achando estranho.

por um lado tenho dúvidas se presença física é suficiente para dar conta dessas questões, por outro fico achando que a dependência financeira (sempre) da mulher é um outro problema!

no caso da minha ex-empregada, espero que ela volte a estudar para dar exemplo à filha, ou que faça algo para ganhar algum dinheiro.

sei que EU não educaria melhor meus filhos se eu me dedicasse exclusivamente a eles, mas eu gostaria muito de poder (eu ou o pai) ficar algumas horas a mais com eles. infelizmente, no brasil, as opções de part time job são míninas e precarizadas.

para meus filhos, "só" quero que sejam livres e felizes e que possam fazer/ser o que eles quiserem. escrevi sobre isso hoje...

bons dilemas os nossos...

Natalia disse...

Hoje em dia, Lia, provas científicas são vistas como irrefutáveis. A idéia de verdade do nosso tempo (porque isso nem sempre foi assim...) transforma a ciência quase em quem dita os costumes. Mas tem uma coisa que precisa ser levada em conta: a maioria das pesquisas científicas trabalha com números. E tem coisas que não podem ser medidas, principalmente em se tratando de seres humanos! Eu também não li a tal pesquisa, mas imagino que ela deva ter de alguma forma quantificado alguns parâmetros... Mas me diz: como é que se quantifica o caráter? O amor? A saudade que nossos filhos possam ter enquanto a gente trabalha? Ou a saudade que nós temos deles enquanto estamos trabalhando? Como é que se quantifica como seria se estivéssemos presentes, se não estamos?
Nada disso é quantificável, mas muito sentido. Eu não voltei completamente ao trabalho, mas em breve volto. E to morrendo de medo. E assim provavelmente continuarei até começar a trabalhar mais tempo, quando vir que Benja ficou bem, que eu sobrevivi à distância, que a culpa abrandou. Independente de qualquer estudo que me diga que eu não preciso me sentir mal, porque isso é “normal” e não é prejudicial.
(sem falar em pensamentos conspiratórios malignos que me vem à cabeça, imaginando resultados manipulados em prol de uma sociedade que trabalhe mais...)

Patricia disse...

Lia, o importante, na minha opinião, é não se conformar com a situação que incomoda. Eu vivo em constante análise da minha rotina, tentando sempre melhorar alguma coisa para o bem estar da pequena. Recentemente diminuí horários de trabalho e ainda ter meio dia livre por semana.
Outra coisa relevante que li sobre o assunto outro dia, é que essa cobrança de presença é só com relação à mãe. Nunca se viu ninguém criticar pai que trabalha muito. Ao contrário, em casa meu pai sempre trabalhou muito, saia cedo, antes de 6, voltava sempre tarde. E eu achava ele ausente? Que nada. Sempre admirei pelo exemplo, pela postura, como admiro até hoje. Enfim, temos que pensar também por esse lado, espero que Mariana se orgulhe de mim. A minha parte, estou fazendo e sempre tentando melhorar. òtimo tema!

bjs

Naiara Krauspenhar disse...

Lia,
Eu sou uma mãe que passa quase 8h fora de casa todo dia.E eu não trabalho só por opção, eu preciso.
E já me culpei por muitas vezes.
Hoje penso que independente de trabalhar fora ou ficar em casa o dia todo com minha filha, o que vai fazer a diferença é a quantidade de amor, carinho, educação, respeito que eu vou lhe oferecer.
BJos

Nós, os Cebola disse...

Mais um cometário no meio da multidão: dói ficar longe de Cebolinha o dia todo, mas não é culpa, é saudade mesmo.

Tenho certeza de que, se eu ainda estivesse amamentando, meus peitos iriam ficar jorrando leite como quando ele era recém-nascido e eu precisava sair pra resolver algo [e não podia levá-lo] e pensava nele... a blusa tinha de ser escura pra eu não ficar lá, com as rodelinhas de leite aparecendo.

A saudade dele dói todo dia, o dia todo.

É desconforto. E é puro instinto mesmo. Concordo.

Mary disse...

Deus te abençoe!!!
Sinto como se alguém lesse meus pensamentos, concordo plenamente.
Estou gravida e quando o bebê chegar pretendo sim : 1 trabalhar em casa com meus bolos que hoje são apenas um hobby - 2: trabalhar meio periodo mesmo ganhando menos ou 3: trabalhar pertinho de casa tipo da pra ir a pé.
Ainda não sei como farei, mas tenho opçoes..minha jornada hj é de 12 a 13 hs fora de casa e eu nao quero isso jamais quando meu filho nascer.
Amei suas palavras sempre leio o blog mas hj precisava comentar, foi o melhor post que eu ja li!

Bjs e muita saude.

Nós, os Cebola disse...

Lia, oi!
Eu já cansei de ler seu perfil e nunca perguntei... futura tradutora português/o quê?
[que idioma?]

Eu comecei Letras tradutor-intérprete português/inglês... mas parei, como deves imaginar.
#maseuvolto

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