sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Try a little tenderness

Há dois dias tenho outra Emília em casa. Pra resumir, vivemos todas as formas do que chamam por aí de birra: ela espalhou livros pelo quarto, arremessou toda sorte de objetos, cuspiu comida, atirou talheres pelo ar, se jogou no chão, chorou, berrou, puxou cabelos, tirou os óculos do pai, tentou me morder... Esses dias seguiram noites mal dormidas, então provavelmente o cansaço influiu na irritação. Mas certamente não foi só isso, porque ela já dormiu pior e não reagiu assim.

O interessante é que os episódios de rebelião não se davam só quando ela era contrariada. Estamos lá nós duas lendo um livrinho, felizes e alegres, quando ela se levanta, atira o livro no chão e olha pra mim com aquela cara: “Você não vai brigar comigo?”. Diante da minha não-reação, ela pega outro livro da estante e repete o gesto. Limito-me a perguntar: “Emilinha, está tudo bem? Por que você está jogando os livros?” Ela continua. Levanto. “Meu amor, vamos guardar os livrinhos?”. Ela foge gritando. Tento conversar, ela me rejeita, não quer que eu a toque. Então eu deixo que ela se acalme e vou guardar os livros. Ela se joga no chão, chorando.

Mais uma vez espero que ela se acalme, até aceitar minha presença. Ela aceita o colo, eu converso com ela. Pergunto se tem alguma coisa errada, se está tudo bem na escolinha. E pergunto se ela está chateada por causa do neném. “Neném!”, ela diz, e corre pra pegar o Chiquinho (boneco). Ela abraça o Chiquinho, beija, pega o berço, coloca o Chiquinho pra dormir. Tudo na mais perfeita paz. Então, do nada, ela joga o Chiquinho no chão. Já antevendo todo o fuzuê dos livros novamente, e percebendo que ela vai arremessar também o berço (que é de madeira, pesado), recolho rapidamente os brinquedos e coloco tudo fora do alcance dela. “Não, não!!”, ela protesta. “Mamão. Você quer mamão? Está com fome?” Como o mamão é a nova banana, ela aceita. Começa comendo linda, sossego. Daí cospe o mamão e joga na mesa. Vejo a mão balançando pra atirar a colher a metros de distância. Imediatamente o prato, a colher, o mamão, tudo some da frente dela. Sem tempo pra maiores estresses.

Decido que ela PRECISA dormir (proposta que, aliás, já havia feito várias vezes). “Meu amor, vamos passear lá embaixo. Você está muito nervosa”. Mais nãos, lágrimas, e eu a amarro no carrinho. Ela vai berrando até o elevador chegar ao térreo. Quando vê a rua, ela se acalma. Passeamos e em uns 20 minutos ela dorme.

Ela dormiu umas 2h – surpreendente pra quem já tinha cochilado na creche. Mas acordou igualmente indisposta. Me chamou, mas não queria sair da cama, não queria que eu encostasse nela, mas não queria que eu saísse de perto. Lá fiquei, ao lado dela, esperando. Esperei uns 20 minutos ou mais, só observando. Chorei um pouco, sentimentalismos de grávida. Eu sabia que ela estava sofrendo. Cantei algumas músicas, ela aceitou, sem pedir que eu me calasse. Foi se acalmando, e depois foi jantar numa boa. O pai chegou e ela já estava bem mais tranquila.

Nesses dois dias, que foram os mais difíceis em termos de comportamento que já tivemos até hoje, eu poderia ter surtado. Poderia ter reclamado, brigado, gritado, me desesperado. Poderia ter ficado exausta. Mas não fiquei. Dizem que a virtude mais necessária pra criar filhos é a paciência. Pois em vez de paciência, eu diria que é preciso ter calma. Porque a paciência pressupõe a necessidade de auto-controle; ela dá a ideia de que você está simplesmente se segurando para não explodir. Já na calma, não há nenhuma bomba com pavio aceso. A gente não sofre. A gente espera, a gente aceita, a gente busca compreender. E nossa resposta física é totalmente diferente.

Diante dessa nova situação, tratei Emília como eu gostaria de ser tratada no lugar dela – considerando sua maturidade e sua situação emocional. Meu objetivo número um ao interferir numa “birra” (não gosto de chamar assim) não é ensiná-la a não fazer mais isso. Não é eliminar o sintoma. Meu primeiro objetivo é criar um cenário favorável para que a irritação passe e, em seguida, compreender por que ela se comportou daquela forma. Nem sempre vou entender todas as razões, mas não posso deixar passar essas oportunidades de me comunicar com minha filha. Se é justamente aí que ela está tentando me dizer algo...

Ela já está bem melhor. Hoje o dia foi muito agradável. Ela aceitou todas as negativas que eu tinha de dar a ela (por exemplo, trocar o garfo dela – de sobremesa – com o meu – de adulto; comer iogurte depois do feijão) e também o que ela não queria fazer (parar de brincar para trocar a fralda ou tomar banho). Claro que ela reclama um pouco, mas depois segue numa boa.

Alguém poderia dizer que estou criando uma marginal, sem disciplina. Pois eu acho que não. Ela sabe muito bem o que a mamãe aprova e o que a mamãe desaprova. E sei que ela nos ama, com o amor primitivo e inocente dela, e sempre procura nos agradar. Mas ela é um ser humano, com angústias, medos e frustrações. E ela não sabe dizer: “Mamãe, preciso falar com você. Senti que esse neném está chegando, e estou com medo de ficar sozinha. Estou muito feliz, vai ser muito legar ter alguém pra brincar. Mas eu gosto muito de você e do papai e me disseram que vocês vão ter menos tempo pra mim. É verdade que eu vou ser deixada de lado?”.

E em vez de bater de frente com a birra, eu a abraço como uma oportunidade de entender melhor minha filha. Optei por não brigar. Decidi que minha casa não será um campo de batalha. E que a paz reine neste lar.

+++

Ela pode estar abatida
Meninas ficam abatidas

(...)
Mas quando ela ficar abatida
Tente um pouco de ternura.

Você sabe que ela está esperando
Ansiando
Por aquilo que ela nunca vai ter
Mas enquanto ela está ali, esperando,
Tente um pouco de ternura.

É tudo o que você precisa fazer.
Não é só sentimental
Mas ela tem seus sofrimentos e preocupações
Mas palavras suaves, ditas com delicadeza
Fazem mais fácil suportar

(…)

Você deve abraçá-la
Apertá-la
Nunca deixá-la
Agora, vá até ela,
Tente um pouco de ternura.

(Try a little tenderness, Otis Redding. Tradução livre minha).

24 comentários:

Dani disse...

Que amor! E que forma surpreendente de educar;

Que todas as mães que te acompanham e as vezes perdem a linha, aprendam a praticar um pouco desse discernimento que você nos ensinou com esse post, tô emocionada.

Parabéns! :)

Patrícia Boudakian disse...

Que lindo, Lia. Puxa vida, adorei. Acho que está certíssima e espero ter toda essa calma também.
Belo ensinamento.
Beijos!

Mariana - viciados em colo disse...

adorei isso, lia! o carinho, a ternura são excelentes alternativas.

ela ainda é um bebê e o mundo que ela conhece, desde que nasceu, está prestes a mudar... vai mudar! nada será como antes! vai mudar para melhor: ela terá sempre um par!

foi isso que disse a alice, olhos nos olhos, quando arthur estava para nascer e ela dava sinais de resistência à ideia. "sua vida vai mudar, filha, nossa família vai mudar, nada será como antes, porque você vai ganhar um par e não vai perder nada" a não ser a solidão de ser única.

e tenho autoridade para falar, filha única que sou! como queria ter um irmão pra chamar de meu...

te desejo muita calma, CALMA!, sabedoria, e abertura para emília entender que ela não perde nada, que nada há para ser compensada!

beijoca

Tathyana disse...

Lia, eu poderia escrever mil coisas nesse post. Mas não vou. Simplesmente porque a forma como vc agiu me tocou muito. Lá dentro. Obrigada!!!!

Bjssss

Mãe de Duas disse...

Lia, você é ninja! Cara, sério, nível dez da faixa preta! Haja saco na Lua!!
Vou te contar uma história que acabou de acontecer conosco. Depois de uma semana deliciosa da família viajando junta, a caminho do aeroporto, voltando pra casa, minha Lia me diz: Mamãe, da próxima vez que tiver uma viagem, você por favor me deixa em casa com a vovó porque eu prefiro. Respirei fundo, voltei aos meus três anos e disse: Minha filha, o que você está sentindo é saudade. A gente já vai resolver isso.
Como você bem disse, é preciso se colocar no lugar delas para poder (tentar) entender essa abundância de sentimentos que para elas ainda não têm nome. Esse tem sido um trabalho rico e interessante de tradução.
Beijo na turma,
Pri

Dayane disse...

Que post excelente, Lia! Me fez refletir muito. Como mãe desejo sempre agir assim como você fez, mas é muito difícil. Tenho certeza quando me ver numa situação assim vou lembrar desse post e me ajudar a ter mais calma. Amei como você diferenciou paciência e calma. Não ta criando marginal nada, a Emília é sortuda de ter uma mãe que a entende. Beijos

Fernanda disse...

Ola Lia! Adorei sue texto!! Gostaria de dizer que já recebi muita ajuda e repostas para muitas questões com os blogs de mães. Mas você de fato influencia no meu Plano para a educação do Antonio. Sinto que suas idéias não são baseadas em compêndios cheios de regras de educação e boas maneiras, mas em instintos maternos e muito amor!!
Torço muito para que um dia vc escreva um livro com tudo isso e possa influenciar mais pais!! Beijo

Paloma, a mãe disse...

Acho que, na idade dela, é mesmo o melhor a se fazer. Mas eu não consigo, as birras cotidianas e prepetitivas ainda são difíceis, principalmente porque eu, mesmo estando em casa, não disponho de tempo para debelá-la sem briga. Geralmente, aliás, as birras vêm quando temos de fazer algo e estamos atrasadas - e a Ciça se recusa. Aí a gente negocia e quase sempre briga.
Beijos

Anne disse...

Muito bacana Lia!!!
Never leave her!! Amei

Marina disse...

Lia, não sei s emeu outro comentário foi... demorou mt e caiu! droga! depois escrevo novamente!
bjbjbj

Sarah disse...

Você sempre nos dá lições preciosas sobre maternidade... Quisera eu ter tanta calma! Há dias que consigo, há os que não. Como disse a Paloma, os piores são os de birras repetitivas, quando estamos atrasadas ou mega cansadas. Quando consigo respirar, pensar sobre o comportamento do pequeno, ouvi-lo e abraçá-lo, realmente a reação é bem melhor.
bjos

Carol disse...

ai que lindo! realmente é uma inspiração!

beijos!

Nuana disse...

Nossa,que coisa isso///a Helena tb deu umas pitizadas esses dias e nem me dei conta de como tudo aconteceu, mas assim///eu fiz de conta que não ví e ela passou pra outra...passou

ligiaximenes disse...

Lia, aqui a gente também passa por estas coisas. Também tenho escolhido um caminho outro. Buscar compreender que, apesar de muito sabida, minha filha está começando a sentir coisas diferentes das que ela costumava sentir. Está crescendo, ora pois, uma pessoa inteirinha, repleta de luz e de sombra, como somos todos nós. Sinto que minha missão é ajudá-la a lidar com essas explosões, não calá-las, mas aprender a expressá-las de outra forma. (a professora da Cora esses dias me dizia que se pegou pensando no quanto as crianças são saudáveis por expressar tudo o que sentem e como nós adultos devemos ter tanto choro represado). E, quando percebo que vou me irritar, muitas vezes minha escolha é deixá-la à vontade para chilicar - supervisionada, sim, mas à distância. Aviso que me chame quando melhorar. Tem sido bem bacana, viu? Conversamos, ela pede desculpas, eu conto pra ela que quando ela está brava ela pode fazer cara de brava e coisa e tal. Aliás, você conhece o Happiest Toddler on the Block? Muito bacana, viu? E, só pra fechar, acho que na essência de tudo está aquela história do "me ame quando eu menos merecer, pois é quando eu mais preciso". Um beijo, Lia, cuidem-se por aí.

Kelly Resende disse...

Lia, tão legal esse seu jeito de lidar com situações dificeis! Aqui em casa tivemos alguns dias ruins também, estou achando que pode até ser um monte de dente nascendo, não sei. Mas sei que a Clara deu seus shows e eu descobri que tenho pouquissima paciencia para eles... Não sei como lidar, fico perdida, tento ignorar as birras e dar muito carinho, mas perdi a paciencia algumas vezes. Muito bom ler esse post e ver que existem outras formas de lidar com tudo isso.
Beijos

Rapha, mãe da Alice disse...

Uau. Obrigada pela postagem inspiradora, muito bom lê-la!

Calma e paciência são exercícios diários... MAs quando a gente se coloca no lugar deles tudo fica compreensível, não é mesmo?

Beijos,

Rapha, mãe da Alice

Maternar Consciente

Filhote de Humano

Nine disse...

Lia, adorei ler esse seu texto! Faço isso aqui em casa também, aliás, também não gosto de chamar de "birra" alguns comportamentos da minha filha...para mim é a maneira que ela encontra de se expressar, e prefiro a ternura ao grito, sempre!

Isso não significa não ter disciplina, longe disso! Mas disciplina não é sinônimo de falta de carinho, de amor, ao contrário, é mais uma face do amor que nutrimos por nossos filhos.

Beijos,
Nine

flavia disse...

Lia, vc não imagina como este seu post caiu como uma luva....minha filha esta completando hoje 1 ano e nove meses, a cada mês ela apresenta novidades e agora um infinito de NÃOS, birras e chororos...estava analisando o comportamento dela e meu, de como deveria lidar com a situação e sua atitudê veio de encontro ao que eu penso. Beijos, Flávia

Avassaladora disse...

Eu tento, mas às vezes não consigo lidar com as birras não... Parabéns pra você!!!!

Ivana - coisademae disse...

Lia, que post lindo...olha, eu concordo plenamente com você e não tenho dúvidas de que a calma e auto-controle é fundamental para aproveitarmos a oportunidade de conversar com os nossos filhos,muito bom a maneira como vc transmitiu isso.

Bjos!!!

Luíza Diener disse...

doce, lindo e suave.
tia miranda versão 2.0 (vc acaba de sanar minha dúvida na classe de ontem).

mas confesso que não consegui deixar de imaginar emília tendo seu momento amy winehouse:

http://youtu.be/QnRo_m-Z2o0

ahahahhah!

bjos

Lia Vasconcelos disse...

Muito legal! Ótimo seria se conseguíssemos fazer sempre assim.
Acompanho seu blog há tempos, e gosto muito!
Hoje resolvi comentar para te contar que também tenho um blog e linkei o seu lá:

http://vilaparapequenos.blogspot.com/

Dá uma passadinha para conhecer!

Bjs,

Lia

Cíntia Anira disse...

Lia, eu não sou paciente nem calma. A maternidade é a chance que a vida está me dando para aprender um pouco. Mas eu tenho consciência que chegar no seu nível seria esperar muito de mim. Parabéns! bj

Fabiana disse...

Adorei. Aprendi muito.
Gosto de vir aqui porque você mostra uma família e uma criança real. Não uma criança perfeita, não faz post só com coisas perfeitas que sua filha fez.
Obrigada por compartilhar momentos como esse com a gente.
Bjos.

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