sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Consumismo

A Paloma escreveu ontem um post sobre consumismo e fiquei fascinada com os comentários. Gostei de ver como cada mãe lida com os pedidos insistentes dos filhos pra terem isto ou aquilo, seja tentando isolá-los dos apelos publicitários, seja conversando e explicando até onde seus desejos podem ser atendidos, e por que existem limites.

Emília ainda é muito pequena, e seus ímpetos possessivos ainda se dirigem exclusivamente aos brinquedos que estão nas mãos de outros coleguinhas. Mas gostaria de falar um pouco da minha experiência como filha, e como fui educada para o consumo consciente.

Tenho três irmãos, todos com idades próximas. Quatro filhos representam uma despesa muito alta, o que teve como consequência menos renda disponível para compras que não fossem essenciais. Além disso, meus pais tinham muitas pessoas que dependiam financeiramente deles, como meus avós – o que significava menos grana ainda.

Sempre tivemos tudo o que meus pais consideravam indispensável para nosso conforto, nossa saúde e nossa formação: apartamento próprio, plano de saúde, escola particular, cursos de línguas. Até viagens ao exterior fazíamos. Mas nunca, nunca na nossa infância, tivemos roupas de marca, brinquedos tecnológicos ou qualquer coisa que fosse cara demais para um mini-consumidor.

Natal, dia das crianças, aniversário, era sempre um presente só. E nós ficávamos alegres com o que quer que fosse. Lembro que eu ia à escola depois do dia das crianças e meus amigos ficavam competindo para ver quem tinha ganhado mais presentes. Óbvio que eu sempre era a menos presenteada, mas achava menos estranho o meu presente único que a montanha de brinquedos que eles ganhavam. Pra mim, era simples: uma data, um presente.

Quando você tem três irmãos, você tem também quatro vezes o número de brinquedos de um filho único, porque no fim das contas todos brincam juntos. Às vezes, quando queríamos uma coisa mais cara (tipo uma penteadeira da Barbie), meus pais compravam só um presente pras as três meninas. E era a maior farra, porque aí ganhávamos um mega presente incrível – o que não acontecia todos os dias e, portanto, tinha mais valor.

Lá em casa também nunca houve a política da igualdade. Havia, sim, a política da isonomia: tratar igualmente os iguais, e desigualmente os desiguais. Então podia acontecer, numa viagem aos EUA, de os meus pais gastarem quase toda a cota da alfândega com um teclado para o meu irmão. E nós achávamos ruim? De jeito nenhum. Ele levava jeito pra música, ele merecia um teclado. Por que meu pai deixaria de gastar mil dólares num presente pro meu irmão simplesmente porque não tinha 4 mil pra comprar uma coisa de mil pra cada filho? Meu irmão ganhou o teclado, nós ganhamos patins. E todos ficaram felizes.

Nós assistíamos TV, e muita. No início, TV aberta, até surgir o cabo e meu pai assinar o Cartoon pra nós (que, na época, praticamente não tinha comerciais). Mas havia restrições: às quintas-feiras era o dia “sem telinha”, pra não deixarmos de fazer outras coisas. Também só podíamos ver TV depois de fazer as tarefas de casa (razão pela qual não assisti vários filmes de sessão da tarde). E novela sempre foi terminantemente proibido. Mas, enfim, víamos propagandas. E acho que sempre foi mais difícil resistir à visão dos colegas que tinham “tudo” que às propagandas em si.

Quem nasceu nos anos 80 vai lembrar: eu não tive fluff, sem mola maluca, nem pogobol. Tive uma imitação barata do fluff (pequeno e grudento, que ficava cheio de fios de cabelo) e uma mola maluca de ferro, horrorosa. Se por um lado isso me fez sentir menos incluída nos círculos sociais, por outro, me educou a perceber o quão desimportante é ter tudo o que os outros têm.

Meus pais sempre nos deram muito afeto, e tempo. Durante um período, minha mãe trabalhou só 6h diárias. Depois, foi a vez do meu pai reduzir sua jornada. Passávamos a tarde com nossa mãe ou nosso pai, e isso era muito mais valioso que qualquer brinquedo. E mais: nós éramos quatro. Que diversão maior pra uma criança que outras crianças? Pra quê pogobol se você pode brincar de cavar armadilhas no parquinho, brincar de banco (com os papeis que minha mãe trazia do trabalho) ou de mestre-cuca (com aventais e chapeus que minha mãe costurava ela mesma)? Ou ver o irmão armando explosivos na cozinha?

Não posso afirmar categoricamente que hoje a situação está mais difícil que nos anos 80 ou 90. Não sei se há mais anúncios, mais apelos – até porque faz mais de um ano que não assisto à televisão. Mas me parece que os pais têm trabalhado mais horas e – isso é fato – têm tido menos filhos. Isso torna a negativa ao pedido de um filho ainda mais desgastante, porque quanto maior a lacuna afetiva de uma criança, mais ela vai precisar testar o amor dos pais.

Sou a favor da proibição completa de propagandas destinadas ao público infantil simplesmente porque acho isso uma covardia. Com certeza eu teria sido muito mais feliz sem as disputas de quem ganhou mais brinquedos ou com repetidas perguntas de “você não tem fluff”? Ganhar montanhas de presentes ou ter os brinquedos e acessórios da moda não teria me tornado uma criança mais feliz.

Propaganda para crianças é covardia tanto para os pequenos quanto para os pais. Os filhos de repente descobrem que não podem ser felizes como estão, e que precisam disto ou daquilo para encher algum buraco. E os pais são bombardeados com demandas e mais demandas e, se não cedem, ganham o papel de vilões.

Mas enquanto a regulamentação não acontece, o que podemos fazer? Hoje, eu faria como meus pais fizeram: encher os filhos de afeto, fazê-los seguros e confiantes de que nós os amamos, e assim eles compreenderão um “não”. Além disso, eles sempre deram o exemplo. Como eu vou negar à minha filha a nova sandalinha da Lilica Ripilica se eu só ando de Cori por aí? Como negar a um filho a mochila do Hot Wheels se eu tenho um carrão importado?

Não estou dizendo que não podemos ter coisas de qualidade – ainda mais quando possuímos renda para tanto – apenas por que temos filhos. Mas o espírito consumista é outra coisa. As crianças percebem. Elas percebem se a mãe conserva bem suas roupas e evita comprar desnecessariamente; percebem se o pai escolhe o carro mais funcional para a sua família, sem assumir gastos (prestações, IPVA, seguro, manutenção) que vão sacrificar o orçamento familiar. E elas também notam se a casa está cheia de coisas que não são usadas, e coisas novas chegando o tempo todo. E se inspiram. Se vocês podem comprar à vontade, por que eu não posso também?

Acho que é mais ou menos por aí que vou tentar caminhar. Proteger meus filhos do consumismo é protegê-los da insegurança, de achar que eles só terão importância se forem como algum publicitário decidiu que eles devam ser. É mostrar a eles quão valiosos eles são, da maneira como são.

27 comentários:

Li disse...

Que texto mais lindo!!!
Seus pais devem estar orgulhosos de você nesse momento e devem estar orgulhosos com o fato de terem criado tão bem sua filha. Uma mulher que não dá valor para as coisas materiais e sim para as pessoas: para os filhos, para a família, para a união e o amor... Preocupada em dar aos seus filhos valores e não bens materiais, em dar segurança, carinho, afeto...
Sei que você se esforçará ao máximo para dar presentes, brinquedos (o que eu quis dizer é que isso não é o mais importante para você e com certeza não será para os seus filhos, já que eles a terão como exemplo).
Parabéns!

Lívia.

Paloma, a mãe disse...

Minha família era muito pouco consumista na minha infância e não vou negar que eu sofria por isso, por não ter o que os outros tinham (junte-se ao fato de sempre ter estudado nas escolas de elite). Mas foi isso mesmo que me fez, talvez, ter o senso crítico que tenho hoje. E sei dar valor às coisas, mas não me apego a elas.
Concordo que o item principal que os pais podem dar aos filhos é tempo. Tenho muita pena das crianças (Ciça inclusa) que têm um montão de brinquedos e jogos e simplesmente não têm com quem brincar. Fora que até para brincar de jogos "individuais", tipo quebra-cabeças, elas precisam de plateia e incentivo.
Por isso é muito bom ter irmãos, primos, vizinhos e, é claro, pais disóníveis para brincar junto.
Só discordo de uma coisa: acho que há uma enorme diferença entre o nosso consumo e o deles. Se hoje compramos roupas de marca (nem é o meu caso sempre, mas vai lá) é porque sabemos que a durabilidade é maior e vamos usar por muitos anos. Mas uma criança usa suas roupas por pouquíssimo tempo. Isso na teoria, porque na prática, sou muito mais mão aberta para comprar coisas para elas do que para mim.
Mas o que quero dizer é que não importa tanto o que consumimos (se é de marca ou não, importado ou nacional), mas a importância que damos a isso. Se vc fala para todo mundo do seu carro importado, sua filha vai achar que tudo deve ser importado, porque só assim é bom. Mas se vc usa seu carro importado como meio de transporte e ponto, sua filha vai vê-lo da mesma forma, pela sua funcionalidade. E isso eu já vejo na prática, não estou só teorizando não.
Será que me fiz entender?
Beijos

Lia disse...

Sim, Paloma, você se fez entender! E eu concordo: "Não estou dizendo que não podemos ter coisas de qualidade – ainda mais quando possuímos renda para tanto – apenas por que temos filhos. Mas o espírito consumista é outra coisa."
Não precisamos definir com critérios objetivos onde começa o consumismo; mas sabemos. E, mais que isso, as crianças sabem. Estou falando de buscar ter mais do que precisamos, ou até mesmo do que podemos ter, por um impulso incontrolável de comprar. Meus pais, que trabalham com aconselhamento financeiro, já viram uma família que tinha uma casa luxuosa no lago perder tudo, ficar morando de favor, por causa dos gastos incontroláveis.
Minha mãe tinha um blazer da Cori, e eu só soube depois de adulta. Mas as roupas dela duravam décadas, e nunca a vi desperada para adquirir os itens da nova coleção primavera-verão simplesmente porque achava que o guarda-roupa dela estava fora de moda.
É tudo uma questão de saciedade.
Bjos!

Cíntia Anira disse...

OI Lia. NA Suécia, recebi uma aula sobre isso. Eles citavam os americanos e a sede de comprar. Perguntaram como era no Brasil e eu disse, que fatalmente, estamos "comprando" a cultura americana. Eu recebo instruções do que devo comprar, que posso ou não acatar. Tudo vai da minha consciência. Num país sustentável como a Suécia, vale muito aprender sobre esse assunto. Bj

Raquel disse...

Nossa, Lia, me identifiquei muito com o seu texto. Bem escrito, ponderado, e com questões muito relevantes. Adorei a sua história, me fez pensar na minha e no que eu quero para os meus filhos.
Eu e meu marido nos casamos há um ano, e os filhos são planos para um futuro próximo. Porém, sempre entra em questão a quantidade - por mim, teremos uns três ou quatro; por ele, dois, pela questão dos gastos. O que me veio em mente é que é possível sim planejar uma família maior, desde que haja tempo, amor e um entendimento muito claro das coisas, dos valores - tanto por parte dos pais, quanto dos filhos. E, pra mim, a política da isonomia é fundamental. Ver os filhos como indivíduos que são, e ensiná-los a respeitar isso também, ao invés de ficarem competindo o tempo todo.

Muito, muito bom, Lia. Parabéns!

Beijos

Mãe de Duas disse...

Lia, seu post me fez sorrir. Várias vezes.
Me lembrar da minha infância com meus dois irmãos e dos brinquedos que a gente curtia (ou não) juntos. E como a gente vibrava quando um de nós ganhava um presentão! Todo mundo se esbaldava!
Até hoje é assim. O último "presente" que meu irmão ganhou foi a aprovação na prova do doutorado. Vibrei como se tivesse sido eu que estivesse entrando!
O que quero dizer é que os brinquedos, as coisas, eram e continuam sendo conquistas para nós.
Aqui em casa o consumo é um meio, não um fim. Vivemos logo precisamos de coisas: comida, roupa, ensino, lazer, etc. Tiramos o foco da importância do ter e damos a atenção ao ser. Assim marcas e modismos ficam desprezadas sem ser demonizadas.

Bjs

Nat disse...

Oi Lia!
Minha infância nos anos 90 foi mto parecida com os dias de hoje. Minha mãe trabalhava muito e tentava compensar a falta dela com presentes (especialmente pra minha irmã mais nova, que faz ela sofrer até hoje!). Mas nunca tive exageros.
Hoje com meu marido posso dizer que somos UM TANTO consumistas, só não somos mais pq não podemos! rs
Daí parei bastante pra refletir sobre o que vc escreveu de ser exemplo. Por enquanto estou em casa pra cuidar da pequena e isso significou corte nos gastos! Acho que é mais importante pra criança ter seus pais por perto, viver uma vida saudável, brincar e ser feliz do que ter tudo o que a fisher price, a playskool e etc podem oferecer. Nossos planos são de ter 3 filhos e sinceramente não me importo em "baixar" o nivel de vida pra ter minha família "grande" (para os dias de hoje...). Ao invés de comprar 1 tênis da Adidas, posso comprar 3 allstar!

beijos
adorei o post!

Tathyana disse...

A verdade é que falta tempo dos pais com os filhos, sobra culpa e como os pais trabalham mais, tmb ganham mais e com isso comprar a "felicidade" momentânea em forma de brinquedos para os filhos. Já vi isso aqui em casa ao dar um presente para Alice e ela abrir o pacote e deixar o brinquedo largado por dias e dias. Nós saimos de um país subdesenvolvido para um país emergente, que tem um poder de compra muito maior do que na nossa época de crianças. EU me lembro que quando criança só beber refrigerante no final de semana. E era um copo para cada um e acabou. E tínhamos os primos, vizinhos e irmãos para brincar (o que era muito melhor do que qualquer brinquedo). Mas os tempos são outros: crianças não brincam mais na rua/ em baixo de bloco, não conhecemos os nossos vizinhos pois temos medo de deixar os nossos filhos com estranhos, não temos muitos filhos e os primos que são poucos moram longe. Precisamos repensar um modelo diferente de educar, pois não dá para ignorar a sociedade atual. Sou a favor da proibição de publicidade voltada para as crianças, assim como sou contra usar um modelo somente baseado na época em que eu era criança. E continuaremos a pensar e discutir sobre o tema. É isso que promove a mudança.

Ana disse...

Meu filho demorou mas chegou na fase do "eu quero"
Isso é inevitável.
Tenho dito não, quando é para dizer, tenho dito agora não quando não posso no momento, e tenho dito sim quando acho que pode.
Mas vejo que está valendo sim todo o preparo, toda e preocupação até então.
A maneira que recebe o não é a direfença.
Sem fazer pirraça, sem chorar, ele aceita a explicação do Não.
Outra coisa que me preocupa é a troca fácil.
Ou seja, quebrou compra outro. Isso me dá nos nervos.
Faço de tudo, colo, costuro, amarro para que os brinquedos possam ser usado novamente.
E sempre digo, se quebrou vamos tentar consertar. Isso é dar valor ao dinheiro, dar valor ao presente recebido e não achar que tudo é descartável.
Bjs!

Tchella disse...

mtoooo bom o post, como sempre sou tua fa!!! ameiii o post, vou escrever sobre isso tbem, achei mto bom!!!!! concordo com tudo tudo tudinho!

Nine disse...

Oi Lia, faz tempo que te acompanho, mas nunca consegui comentar por causa da minha internet que não abre esse quadro abaixo do post, mas hj abriu e aqui estou!

Gostei muito do seu texto, do da Paloma e confesso que ainda estou pensando muito sobre o assunto.

Minha Ísis ainda não me pede nada, brinca com o que tem e nós (eu e marido) não damos presentes para ela fora de hora; mas não sabemos omo será a pressão daqui a pouco e como vamos reagir a ela.

É verdade que não podemos nos basear apenas em como era na nossa infância, como disse a Tathyana acima, porque a verdade é que nossos filhos não viverão a mesma época, os mesmos costumes, então temos que descobrir uma maneira de lidar com toda essa carga de informação que eles sofrem de maneira a não corrompê-los e a não nos corrompermos.

Um exemplo é o uso do celular. Como fazer? No nosso tempo não existia, eu só senti necessidade de um há pouco mais de 2 anos, quando engravidei, mas como lidarei com isso quando for a minha filha a me pedir? Eu não sei... Será o celular mesmo necessário, ou nós nos acostumamos a tê0lo por perto e a encontrar as pessoas quando queremos e não quando podemos?

Enfim, temos que pensar mais no contexto em que nossos filhos estão inseridos e no tempo que podemos dedicar a eles.

Beijos,
Nine
www.minhapequenaisis.blogspot.com
www.nafronteirasul.blogspot.com

Adèle disse...

Eu também não tive pogobol...

Adèle disse...

Eu sempre fui mais fã de brincar com animais, ao ar livre, do que qualquer outra coisa. Não importava onde meus pais me levassem, eu estava sempre à procura de algum bichinho pra brincar (e sempre achava!) - Super Felícia... rsrsrsrs!

Renata disse...

ENgraçado isso. Eu vivi outra realidade, tive pais extremamente consumistas, que compravam por comprar, coisas desnecessárias e fúteis. Lembro do guarda roupa da minha mãe cheio de roupas com etiqueta, roupas que ela comprava e nunca usava. Acho até que veio daí a minha repulsa. Repulsa mesmo, tenho raiva do consumismo sem sentido e procuro conversar muito com o André sobre isso, sobre o valor das coisas!
Adorei o seu texto, extremamente ponderado. Parabéns!
beijos

Amanda Lima disse...

Concordo contigo Lia, e ainda acrescento uma discussão que li em um blog esses dias (descula, mas não lembro de quem era). Por que antigamente viajamos felizes contando as vacas e tentando adivinhar a cor do proximo carro e hoje parece que se deixarmos nossos filhos dois minutos sem atividade durante uma viagem eles morreram de tédio?
Não é muito mais válido ter poucos brinquedo e inventar as brincadeiras com eles do que ter um monte e brincar dois minutos com cada?

Aqui em casa procuro valorizar os brinquedos e ensinar (e brincar) junto com a Gabi. E sabe qual o melhor brinquedo que comprei pra ela? Um joguinho de panelinhas que custou cinco reais. Fizemos um fogão com uma caixa de sapato e hoje, enquanto faço a janta ela esta ao meu lado inventando comidinhas gostosas!
Viva a imaginação e baixo o consumismo!

Thaís Rosa disse...

oi lia!
li seu post de manhã, com o caio, não consegui comentar, mas ele ficou ecoando em mim. me fez lembrar de minha infância, minha adolescência, me fez pensar nas minhas atitudes cotidianas com o caio.
meus pais são classe média remediada, sempre se esforçaram muito pra nos dar o que consideravam o melhor: tínhamos casa própria, estudamos em escola particular, fizemos cursos de inglês, atividades físicas, música, balé, enfim, coisas que talvez eles nem pudessem nos dar, mas que achavam necessário, e se viravam como podiam. Nunca viajamos ao exterior, aliás, viajávamos pra casa dos meus tios numa cidadezica do interior (e era uma delícia, tenho lembranças incríveis) e pra mesma praia todos os anos. Vez ou outra pra São Paulo. Intercâmbio, disney, etc: nem passava na nossa cabeça, no way. Víamos TV à tarde, também com horário controlado, e novela tb nem pensar. Refri só de fim de semana. Enfim, coisas parecidas com o que vc viveu.
Mas uma coisa que sempre me incomodou, quando passei a me dar conta, é que meus pais prezavam, ao contrário dos seus, justamente a política da "igualdadade": ou é pra todas, ou não é pra nenhuma (somos 3). Uma merda, penso eu hoje, pois concordo plenamente com o que você falou, e inclusive já falei isso pra eles, numa boa. Mas eles faziam tentando acertar, na perspectiva de "não fazer diferença". Por outro lado, a política dos presentes coletivos também rolava, e era bacana, pois podíamos ter coisas que, indiviudalmente, não teríamos.
Agora, percebi que o que mais me cutuca quando o assunto é consumismo é me dar conta que, apesar de tudo, cresci num ambiente consumista. Por mais que meus pais não tivessem muita grana, um passeio que eles adoravam era ir aos shoppings em sampa ou ribeirão preto. Meu pai, até hoje, adquire coisas além do necessário, tipo "estava em promoção, valia muito a pena". Minha mãe guardou até hoje milhares de brinquedos nossos (que poderiam ter divertido tantas crianças ao longo desses anos) pensando nos netos, e, até agora, só dois meninos a caminho (quem sabe o da minha irmã seja menina...). O guarda roupa dela tem roupas de anos a fio, coisas que certamente não usa há tempos, mas não consegue desapegar. Esses dias, depois de eu dar uma cutucada, conseguiu se libertar um pouco, mas bem pouco. Então, vejo que esse ambiente me influenciou um pouco, ainda que, por eu ter saído cedo de casa pra fazer faculdade, tenha construído outros valores, outro modo de vida (que, inclusive, por um tempo, incomodava muito minha mãe, que nos queria mais "arrumadinhas"). Mas o Caio convive com isso, eles e os pais do Dani vivem dando presentinhos fora de hora, e eu, sem perceber, também, isso foi o que me dei conta!! Eu compro super pouca coisa pra ele, acho que foram raros os brinquedos ou roupas que eu mesma comprei, ele herdou muita coisa de amigos, e quase tudo que tem foi ganhado. Só que eu dou coisinhas, sabe, tipo um livrinho aqui, um gibizinho ali, uma bolinha daquelas maquininhas que põe moeda, essas coisas... E, talvez, de alguma forma, eu esteja contribuindo pra ele achar que tudo o que ele vê/gosta ele pode ter... Não sei..
Mas, revisitando tudo isso (desculpe o comentário-post), percebi porque talvez essa questão esteja me cutucando tanto, e não esteja sendo algo tão natural pra mim saber como lidar com esses primeiros desejos de consumo (mesmo que ele não saiba o que seja isso) do pequeno! Assim como meus pais, talvez eu esteja tendo dificuldade em lidar com o que o NÃO pode representar, um sentimento de ah, é tão baratinho, pra que frustrar o menino, sei lá... Bom pra pensar.
beijos pensantes
tha

brenditz disse...

Gostei do texto Lia. Muito bom. Fico besta com a quantidade de coisas que meus filhos já tem, quando na idade deles eu e minha irmã juntas não tinhamos nem 1/3. Acho também é um resultado da melhor renda familiar, e principalmente (no nosso caso) da melhor renda dos avós, que hoje podem dar o que não deram pra nós quando crianças.
Mas mesmo assim me assusto às vezes e sinto que a coisa tá ficando meio fora de controle. Eu e o Roberto maneiramos muito com a coisa dos presentes. Esse ano, foi a primeira vez que não compramos mochila nova pra escola, e o Gabriel sentiu falta. Mas aí foi a hora de explicar pra ele que a mochila estava nova ainda e boa, sem necessidade de se comprar uma nova.
Mas eu tenho dó, de pensar que ele deve ser um dos unicos da sala que tá com a mesma mochila, porque na escola dele todo mundo compra nova. Sei lá, ao mesmo tempo que eu acho um absurdo a forma como as crianças de hoje são consumistas, eu também me vejo muitas vezes consumista por eles. Tipo do que eu não tive e gostaria de proporcionar a eles. Mas acho também que é uma eterna contradição, essa coisa de ser mãe. Precisa-se encontrar o meio termo.
Bjus
Brenda

Val disse...

Lia, querida. Seu post me fez repensar minha prática. Eu fui criada mais ou menos como vc (sem as viagens ao exterior, heheheh), mas percebo que não faço isso com meu filho, o que no futuro pode só prejudicá-lo. Preciso rever meus conceitos. rsrsrsrs.

Ah, parabéns pelo bebê. Sinto informar que vou parar de ler seu blog pq tá me dando uma vontadezinha de dar um irmão pro Arthur... ai ai

Brincadeira ... (parar de ler, não a vontade).

Bjos na Emília e na Barriga,

Tassia & Ryan disse...

Oi Lia!!
Primeiro, adorei o texto! As nossas melhores lembranças de infância nunca tem a ver com os brinquedos que nós tivemos.
E parabéns denovo pela gravidez! Estou muito feliz por você. Você parece que é a supermom, nasceu pra isso ;).

Olha só, eu vim aqui achar conforto, não vou nem tentar esconder! Haushaus.
O que acontece é que eu estou com 37 semanas de gestação e quase "lá", e todas as outras meninas que acabaram de ter neném aqui na blogsfera tiveram cesariana, até aquelas que defendiam o PN com unhas e dentes!
Daí eu venho aqui ler seu relato de parto pra renovar as esperanças e pensar, "sim, pode ser feito!"
Eu fiz tudo que estava ao meu alcance pra ter um PN, agora só me resta esperar...

Muito obrigada por ser minha inspiração hehe.
Um grande beijo e vamos parir!!

Lara disse...

Oi Lia,
Sempre leio o blog e nunca comentei, mas hoje resolvi deixar o meu pitaco ;)
Lá em casa somos 3 irmãos e sempre fomos criados mais ou menos como você descreveu! Minha mãe não trabalhava e ficava em casa por nossa conta. Os presentes se resumiam as datas especiais: natal, aniversário, dia das crianças e nunca tivemos tudo que os amiguinhos tinham mas não fomos menos felizes por isso. Minha vizinha que tinha meninas com quem eu brincava tinha uma condição econômica melhor que a nossa e lembro que eu sempre pedia alguma coisa igual a que elas tinham. Quando era possível, ganhava o brinquedo em uma dessas datas, quando não, minha mãe explicava que não podíamos comprar e na maioria das vezes eu entendia. Nunca fomos de fazer birra por isso ou aquilo. Fomos criados com o necessário, o mais importante era ter uma boa educação e isso incluía colégio particular, pra onde ia boa parte da renda de papai. Andávamos bem vestidos, mas nunca com roupa de marcas. E foi assim... cresci vendo as dificuldades dos meus pais e acho que por isso sempre dei valor a cada presente, passeios, tudo que podiam nos proporcionar. Sabia que estarmos viajando nas férias por exemplo era resultado de algumas economias que fazíamos durante o ano. Hoje acho que não havia forma melhor deles nos educarem. As crianças hoje em dia tem de tudo e a qualquer hora e muitas vezes não dão valor. Não sabem o gostinho de esperar o Natal por ex, pra ganhar aquele brinquedo tão esperado. E é dessa forma que pretendo criar meus filhos quando os tiver. Um beijão na fofa da Emília e parabéns pelo novo bebezinho!

Desconectada disse...

Oi, Lia.
Parabéns pelas reflexões. Não canso de observar que os meninos têm brinquedos para duas vidas e meia. É tanto coisa que eles se perdem. E assumo que tivemos uma fase terrível de consumir presentes para eles. Notamos os excessos nas compras e paramos. Confesso que fico enlouquecida quando entro em loja de brinquedos infantis. No fundo, acho que quero os brinquedos para mim, porque eles gostam mesmo é de brincar com o gato, o Simão.
beijos,
patricia
www.comerparacrescer.com

Michelle Stelko Favero disse...

Lia, gostei muito do seu post. Ele me deixou pensando em como lidar com o consumismo da minha Nati, que ainda está na minha barriga. Lá em casa queremos ensinar nossa filha a lidar com o dinheiro. e penso em estimulá-la a comprar sozinha estas coisas de moda, assim ela saberá quão caro e desnecessário é. Também penso em ter bastante tempo para ela e oferecer tudo o que pudermos (cursos e atividades) sem sobrecarregá-la.

Marcia Pergameni disse...

Oi Lia!! Adorei seu post e já li outros vários!!! Minha filha tem 2 anos e 7 meses e o meu segundo filho tem 10 meses!! 1 ano e nove meses de diferença!! Eu trabalho o dia todo praticamente, fico o dia todo longe deles. Ela está na creche e ele fica com a minha mãe. Mas vc sabe que as vezes me surpreendo com as tiradas dela. Pede sem nenhum pudor, até "deieiro". isso mesmo, dinheiro!! Vc imagina o que eu penso??? Tenho que parar de trabalhra e cuidar dos meus filhos. E qdo reclamo com a minha mãe pra ela parar com esses comentários com a Cecília ela simplesmente ignora ou dá uma resposta do tipo; "eu ensino mesmo a pedir". Mas eu não vou negar que acabei adquirindo o habito de comprar coisas desnecessárias para as crianças, até por ver que minha mãe comprava coisas que não precisava pra ela. Somos três irmãs lá em casa com intervalos pequenos também. A mais nova é que sempre brincou sozinha. Mas meus pais eram como os seus: brinquedos nas datas comemorativas, um pra cada. Depois de grande é que começamos a ter exemplos ruins. Pra diminuir minha dor na consciência de vez em quando junto os brinquedos das crianças, que multiplicam nas festinhas, e doo. Me sinto um pouco melhor. Esses dias minha filha viu uma menina na rua com um desses carrinhos de empurrar e disse: "é da cicia mamãe!! Eu quéio" Disse a ela que no aniversario dela eu vou comprar e ela guardou. toda vez que ve um carrinho igual na loja ela repete o que falei lá atras. eu fico orgulhosa pq percebo que ensinar é facil, mas tem que ser perseverante. Acho que já falei demais!! Bjus

butterfly disse...

eu simplesmente adorei seu texto!! Estou grávida de meu primeiro filho e estava fazendo buscas por blogs que me dessem dicas e não consigo parar de ler o seu!! Tenho muito tempo livre porque estou mais em repouso, então, leitura garantida!!! bjk

TWO OF US disse...
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TWO OF US disse...
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Sarah disse...

Nossa Lia, não acredito que esqueci de comentar esse post! Li no trabalho, deixei pra comentar em casa e esqueci!
Mas me identifiquei totalmente. Minha infância foi bem parecida, sou caçula de 4 irmãs e herdei um monte de coisa delas. Só não herdei o enxoval todo porque sou temporona, com diferença grande de idade. Como minha mãe achava que não ia mais engravidar, não tinha mais tanta coisa quando se descobriu grávida de novo.
Mas lembro até hoje dos brinquedos que herdei das minhas irmãs. Eu tinha uma Barbie nova... e duas Susies velhas. O primeiro namorado delas? Que Ken que nada, era o Falcon. E meu primeiro e único patins foi daqueles de duas rodinhas na frente, duas atrás, velhaco total. Nunca tive o tal "in line", minhas amigas tiravam sarro até...
E nunca deixei de me divertir. Tinha outros brinquedos também, novos e tal, mas era a única da turma que tinha vitrolinha original para tocar a coleção Disquinho.
Sem dúvida os padrões e exemplos vêm dos pais, inclusive os relativos ao consumismo. Também não gosto do comprar por comprar, principalmente coisas que "tem que ter porque todo mundo tem". Nem na adolescência fui assim, agora que sou mãe é que não vou ser!
Ah, e sou publicitária de formação, e sei como há sim manipulação para incentivar vendas e fazer surgir "necessidades" que nem sabíamos existir.
beijos!
PS: fiquei com invejinha da penteadeira da Barbie! Achava o máximo, assim como aquela cabeçona de Barbie pra gente pentear e maquiar... e nunca tive! Frustração total, hahahah!!

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