Iahweh disse a Abrão: "Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que te mostrarei. Eu farei de ti um grande povo, eu te abençoarei, engrandecerei teu nome; sê uma bênção! (...)
Gn 12,1-2
Quando dermos à luz em plena posse de nossos meios, na alegria, e não na “dor”, teremos dado um passo a mais, como coletividade, em direção a uma vida melhor.
Hélène Cornellier
Nascimento de Margarida, minha segunda filha
Dedico este relato à minha filha Emília, minha primogênita, que me fez mãe. Emília me mostrou que sou capaz de gestar, parir, alimentar e criar meus filhos, e me fez ter vontade de ser mãe de uma grande prole. Abriu as portas para que seus irmãos chegassem com mais facilidade. Com sua força, transformou meu corpo e meu coração.
Este parto também é fruto do amor, da compreensão e do apoio do meu marido Rafael, que caminhou ao meu lado ao longo das minhas gestações e dos nascimentos das nossas filhas. Com seu carinho e seu coração aberto, pude ganhar total confiança nas escolhas que, juntos, fizemos para a nossa família.
Ao Deus de Abraão, Isaque e Jacó; de Sarah, Rebeca, Lia e Raquel. Ao autor da vida. Àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo que pedimos ou pensamos. A ele seja a Glória deste e de cada nascimento.
Prólogo
Este relato começa muito antes do dia 10 de setembro, quando tomei Margarida nos braços pela primeira vez. Nossa história de parto, que inclui toda a nossa família – Margarida, Emília, Rafael e eu –, teve seu início mais de dois anos antes, quando eu carregava no ventre a pequena Emília, ainda um embrião.
Sempre dei muita importância à via de parto, talvez mais que a maioria das mulheres. E, cedo, descobri que enfrentaria dificuldades para ter um parto normal no país em que vivo. Para realizar algo que é um reflexo voluntário do corpo feminino, e que sempre foi feito naturalmente ao longo de milhares de anos, agora era necessário se informar, buscar apoio, gastar dinheiro e contar com a sorte. Minha caminhada começou durante a gestação de Emília, e culminou com um parto vaginal vitorioso e muito batalhado, mas repleto de intervenções.
Mesmo radiante de alegria por ter conseguido parir e, sobretudo, por ter minha filha nos braços, ficou uma ferida. Uma ferida física pelo períneo cortado a tesoura, mas uma ferida emocional muito mais profunda por ter me sentido parcialmente incapaz de dar à luz e, acima de tudo, por ter passado as primeiras horas de vida da minha filha afastada dela. Emília abriu as portas, não apenas fisicamente, trabalhando meu corpo para as gestações e os partos que se seguiriam, mas plantando no meu coração um desejo urgente e irresistível de resgatar as lacunas da experiência que vivi.
Desde que Emília saiu do meu ventre, passei a estranhar meu corpo não grávido. Eu amava gestar, carregar aquela barriga enorme e pesada, estar o tempo inteiro em contato profundo com o meu bebê. E sabia que não poderia passar muito tempo de outra forma. Eu amamentava Emília, amava sentir meus seios fartos de leite, ainda que doloridos e incômodos. Gostava de perceber meus órgãos internos retornando aos seus lugares, como uma recordação do tempo em que ela agitava a superfície do meu útero. Eu era perfeitamente feliz, não me recordo de ter sido tão feliz em toda a minha vida.
Ainda durante o refúgio da minha licença-maternidade, comecei a buscar leituras mais profundas sobre parto e investigar o que havia acontecido no nascimento de Emília. Cheguei à conclusão que tive a melhor experiência que podia ter naquele momento, com o meu grau de informação e a minha maturidade. Mas eu havia crescido de forma tão radical que não era mais possível me contentar com aquilo.
Pouco depois de voltar a trabalhar, comecei a freqüentar um grupo de apoio na minha cidade (Ishtar Brasília), onde conheci pela primeira vez uma parteira. Entrei em contato com mulheres que tinham vivido seus partos fora do ambiente hospitalar e compreendi que havia outras opções para um nascimento digno. Li muitos e muitos livros, estudos científicos, teses de doutorado. Mas, acima de tudo, entrei em contato com o meu coração e com o mandado divino que eu recebia: darás à luz em meio a dores. Mas não seriam dores malditas. Seriam dores de redenção, de vida, de crescimento espiritual. Não a dor da experiência roubada, da sensação de violação. Dor apenas, não um sofrimento. Uma dor somente física, não anestesiada por drogas e muito bem-vinda, pois viria a tratar minha alma. E eu a atravessaria de mãos dadas com o meu marido, com a presença discreta, silenciosa e reconfortante da minha parteira e da minha doula.
(continua...)
