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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Andando em círculos

Passei sete meses fora e parece que voltei ao ponto em que estava quando saí de licença. A maioria dos colegas continua por aqui e meu trabalho ainda é o mesmo – o que, confesso, me deixa um pouco confortável. Sim, porque não sei se estaria preparada para grandes mudanças nesta fase da minha vida. Ainda estou muito centrada na minha família, e não sei se isso vai mudar tão cedo (nem se vai mudar um dia).

Ainda sonho com outros rumos profissionais, mas sem pressa. Brinco de escrever uma dissertação de mestrado, na esperança de em breve ter tempo pra isso. E sinto a mesma calma que sentia há pouco mais de sete meses, quando eu sentava nesta mesma cadeira com uma barriga enorme.

Mas percebi que estava andando em círculos quando me peguei usando o tempo livre que tinha para ler sobre parto. Exatamente o que eu fazia há sete, oito meses. Não sei se é porque ainda pretendo ter mais filhos, mas a gestação, o parto e a maternidade me transformaram de forma irremediável. Parece que foi ligado um botão que me tornou reprodutora por tempo indeterminado. Se eu não estiver gestante, estarei lactante. Quase como uma carreira.

Existem outras coisas importantes, é claro, como aquele poema que eu ensaio traduzir pra um futuro mestrado. Mas sabe quando você de repente encontra uma vocação, que você não precisa se esforçar nem um pouco pra exercer e que cai sobre você como uma luva, sem que você possa impedir?

E então entendi que a maternidade é irrevogável, irrenunciável e irresistível.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Valorizando a maternidade



Li o Manifesto pelas Mães, elaborado pelo Grupo Cria, e vim dar minha contribuição para a valorização da maternidade. Ninguém me pediu pra divulgar nada, e é de coração que escrevo aqui o que um movimento como este significa pra mim.

Não sou uma pessoa exatamente engajada. Muito antes pelo contrário. Ainda antes de virar mãe, eliminei das minhas leituras jornais e revistas, parei de ver filmes violentos e me refugiei no meu mundinho de romances e desenhos animados. Isso porque tudo foi ficando muito pesado, muito duro, e ao mesmo tempo eu fui ficando mais frágil e decidi que era melhor assim. Uma alienação inofensiva. Afinal, se você não vai fazer nada a respeito das notícias ruins, melhor será ignorá-las.
Até que nasceu este blog, enquanto Emília crescia dentro de mim e eu mesma me metamorfoseava nesta outra coisa: esta coisa mãe. E fui vendo muita gente se manifestando pelo bem de nossas crianças. Por uma maneira mais humana e saudável de gerar e parir um filho, pelo direito de as crianças serem crianças, sem se transformarem precocemente em máquinas de consumo ou em mini-adultos, pela possibilidade de nossos bebês receberem o melhor dos alimentos - o leite materno -, e seguirem sua jornada alimentar sem terem seu paladar viciado involuntariamente por maus hábitos que nós, adultos, trazemos pra dentro de casa. E fui me apaixonando por tudo isso.

Digo que me encontrei na maternidade. Descobri que nasci pra isso. Brinco dizendo que, por mim, ficava engravidando e parindo até a menopausa (é, talvez eu tenha nascido na época errada). E daí o que seria um engajamento, uma militância, virou naturalmente um diário de reflexões e desabafos. E hoje reflito sobre o papel das mães na sociedade.

A causa das mães não é uma causa particular. Não é própria, não é só das mães ou só dos filhos. É uma causa da família, que, por mais que muita gente tenha tentado diminuir, ainda é a base da sociedade. Li em algum lugar que reivindicamos um mundo melhor pros nossos filhos, mas muitas vezes esquecemos de legar filhos melhores pro nosso mundo.

Valorizar a maternidade não é uma atitude simplesmente feminista, que beneficia só as mulheres que deram à luz ou adotaram crianças. É valorizar os pais, os filhos, e este mundão que amanhã vai ser habitado por essas crianças de hoje - que na família vão encontrar a primeira base para se tornarem bons cidadãos. A criança amada, bem cuidada, que tem no lar sua segurança, tem muito mais chances de se tornar um adulto equilibrado. É menos violência, menos corrupção, menos violações aos direitos humanos. Enfim, pra mim, o único caminho pra fora do subdesenvolvimento.

E como valorizar as mães? Como bem diz a imagem aí em cima, certamente não é com uma rosa no dia das mães. A prorrogação da licença maternidade por mais 60 dias (projeto empresa cidadã, que, infelizmente, ainda não é adotado por todo o mercado), por exemplo, é uma medida.

Mas jogo algumas ideias um pouco mais ousadas, caso algum parlamentar caia aqui por acaso.

- direito à redução de jornada de trabalho de 40h para 20 a 35h/semanais, conforme a opção da mãe e com remuneração proporcional, após o término da licença maternidade. (Por que esse tudo ou nada? Por que ficamos muitas vezes forçadas a nos decidir entre passar o dia longe dos nossos filhos ou não trabalhar?).
- obrigatoriedade da presença de salas de ordenha em empresas que tenham um número mínimo de funcionárias em idade fértil.

Um dia a gente chega lá, se Deus quiser. Enquanto isso, a gente pede a Deus pra não enlouquecer.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Nosso jeito de ser mãe

Sabe aquela máxima: “Mãe é tudo igual, só muda o endereço”? Pois é. Mais ou menos.

Agora que virei mãe, percebo melhor a forma como cada uma cuida de seus filhotes. Uma é mais solta, tranquilona. Não se preocupa muito com horários enquanto a criança estiver bem, e não dá tanta bola praquelas curvas de desenvolvimento. Outra é sistemática, com uma rotina certinha, e arranca os cabelos quando alguma coisa sai do esquema.

Uma mãe decide trazer seu filho ao mundo por meio de uma cirurgia, porque assim se sente mais confortável e assim manda seu coração. Outra escolhe o caminho da natureza, e faz de tudo para que seu bebê saia por parto normal. Uma opta por fazer isso sob o efeito de anestésicos, porque assim terá mais tranquilidade. Outra decide encarar a dor e crê que isso é o melhor para todos.

Algumas mães são mais protetoras, e estão sempre por perto para garantir que seus pequenos estejam bem. Outras são mais relaxadas e aceitam que os filhos têm mesmo de se machucar para descobrir as coisas.

Tem aquelas mães rueiras, que adoram sair e viajar e levam os rebentos consigo aonde vão. E tem aquelas caseiras, que preferem manter os pimpolhos num ambiente mais calmo e familiar.

Essa mãe, quando o filho tosse ou dá um espirro, espera e observa antes de tomar alguma atitude. Aquela liga logo pro pediatra ou sai correndo pro pronto-socorro.

Não, mãe não é tudo igual. Mas o que faz de nós MÃES, mas mães mesmo, não apenas biológica ou legalmente, mas mães de verdade, é que fazemos das tripas coração para dar o melhor pros nossos filhos. Do nosso jeito, mas do melhor jeito que sabemos.

Essa é uma homenagem a todas as mães que, do seu jeito torto, são sempre para os seus filhos as melhores mães do mundo!

(E à melhor de todas: a minha, é claro!)

+++



Luzia

4 cesarianas não eletivas, algumas babás, poucas e boas escolinhas. Trabalhou por um tempo meio período e depois tempo integral, até se aposentar aos 46 anos com os filhos adolescentes. Desenvolveu conhecimentos práticos em doenças e homeopatias, inventou várias músicas sem sentido. Costurou roupas para nós e as nossas bonecas e sempre cortou nossos cabelos. Deixava meu irmão dormir pelado no berço e nos ninava em pé, balançando. Furou paredes, fez um projeto de reforma da cozinha. Foi atrás de apartamentos pros filhos já crescidos e me liga sempre.

Diz ela que é saudade da Emília. Mas eu sei que é de mim.

(Mãe, foi mal o black power, mas foi a melhor foto da família toda que encontrei...)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Peladona do sexto andar

Essencial para a maternidade e a paternidade é... criatividade. Quando seu filho está alimentado, descansado e aparentemente sem dor, mas mesmo assim insiste naquele chorinho irritado – que tende a ir crescendo se você não tomar providências –, a gente tem de usar a imaginação.

Recentemente descobrimos algumas coisas que acalmam Emília nessa fase de desenvolvimento. Primeiro, chocalho. Tchuc, tchuc, tchuc, e ela pode até chegar a rir. Mas nenhum cristão consegue ficar chacoalhando o brinquedo pra sempre. Alguém conhece um chocalho auto-chacoalhável?

Depois, barulho de água. O mais prático é ligar a torneira. Muitas vezes ela para de chorar e até dorme. O problema é o desperdício de água, daí pensei em comprar uma daquelas fontes zóing zóing.

Às vezes a água não funciona, normalmente quando o choro está muito alto e ela não consegue parar pra escutar. Aí a gente tenta o espelho. Ela se emociona com tanta beleza e vai se acalmando.

E ultimamente, nos fins de tarde mais turbulentos, a gente tenta o momento peladona. Porque às vezes ela se acalma com a água e o espelho, mas é só tirá-la do banheiro pra ela voltar a reclamar. Quando está recém-mamada, não dá pra dar banho (o banho é tiro e queda pra acalmar).

Aí eu tiro roupa e fralda e a coloco sobre um colchonete desses de fazer abdominal, forradinho com uma fralda ou um cueiro. Ela tem muitas roupinhas lindas, mas nada mais lindo do que aquele corpinho nu, perninhas pra lá, perninhas pra cá. Aí ficamos nós três, conversando, fazendo massagem e enrolando até o leitinho assentar pra podermos dar o banho.

“Estou apaixonado, apaixonado estou
Pela dona do primeiro andar
Pela dona do primeiro andar
Peladona... do primeiro andar.”
(A dona do primeiro andar, Originais do Samba)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Para Patrícia

Este post é para agradecer a Pat pelo lindo presente que ela me deu ontem. Com todo o carinho do mundo, escreveu um post pra mim com dicas preciosas sobre a vida de uma recém-mãe. Tenho de reproduzir o texto aqui pra garantir que ele não se perderá. Obrigada, Pat! Você é um amor. (Ah, e pra quem não conhece a Patrícia, passem lá no blog dela e conheçam a linda Mariana).

A Lia está chegando na reta final da gravidez. Período de ansiedade, acho que das maiores que há na vida. Eu, pelo menos, ansiava pelo desconhecido. Como seria ser mãe? Minhas dúvidas não eram filosóficas. Eram práticas. Eu saberia trocar fraldas? Conseguiria amamentar? Saberia cuidar de alguém 24 horas por dia? Eu seria boa mãe, no sentido prático da coisa? Porque instinto maternal eu nunca tive muito não... Nem nunca fui muito fã de crianças, assim no genérico. Gostava (e gosto) de crianças específicas. Das minhas sobrinhas e dos meus afilhados e de uns sobrinhos emprestados (e agora uns virtuais) e é só. Daí a dúvida. No final da gravidez encasquetei que não queria mais que Mariana nascesse. Que ficasse na minha barriga, que lá eu sabia o que fazer. Mas, claro, ela nasceu e me considero uma boa mãe. De novo, não no sentido filosófico, mas no sentido prático mesmo. Me saí melhor do que esperava no setor da puericultura. Soube trocar fraldas com facilidade. Amamentei sem problemas. Soube dar banho de primeira, sem ajuda nem nada. E me virei bem de uma maneira geral. Penei em alguns momentos, mas hoje tudo está muito mais fácil. Um ano e quatro meses de experiência devem valer alguma coisa.E assim, na qualidade de amiga virtual, quero presentear a Lia com o pouco que aprendi nesse que foi o período mais intenso, mais cansativo e ao mesmo tempo mais prazeroso de toda a minha vida:

1. É fato que você vai dormir pouco. Mas a gente se acostuma a dormir menos. Juro. Antes da Mariana nascer eu dormia 10, 12, horas seguidas. E hoje, mesmo dormindo a metade disso, fico inteira no outro dia. O corpo se acostuma.
2. Nenhum bebê é igual dois dias seguidos. Sábio conselho da minha mãe. Hoje não dorme, amanhã dorme. Hoje está de mau humor, amanhã tudo volta ao normal. Hoje come à beça, amanhã não come nada. E por aí vai. Então não vale à pena se desesperar por pouco.
3. Nas horas de desespero (muito choro, muita cólica, muito cansaço) mentalize o mantra: vai passar. Porque passa, viu?
4. Faça back up das fotos. Perdemos TODAS as fotos da Mariana do nascimento até os seis meses, incluindo maternidade e batizado. É. Deu pau no computador e não tínhamos back up. Conseguimos recuperar algumas com minha mãe e meu irmão, mas quase tudo se foi. Cuidado!
5. Talvez o primeiro mês seja fácil para você. Mas se não for – e para mim não foi - garanto que assim que se passarem os primeiros trinta dias, tudo parece que se ajeita. Não sei o que acontece, mas com um mês tudo melhora.
6. Ouvidos de mercador para os palpites. Basta você ser mãe para todo mundo saber mais do que você. Não esquente, não sofra com isso, finja que aceitou e siga sua vida. Desconsidere até mesmo esses meus palpitinhos, se não te servirem de nada!
7. O pediatra não é Deus. Não é porque ele disse que você tem que seguir 100%. Eu escuto e filtro. Faço o que bem entendo muitas vezes e tem dado muito certo.
8. Siga a sua intuição. Acima de tudo e de todos. Costuma dar mais certo que qualquer outra coisa.
9. E last but not least, prepare-se: O maior amor do mundo te espera, bem aí na sua barriga!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Test drive

Como disse ontem, no último sábado fui visitar a Luíza, filha de amigos muito queridos. Ela fazia um mês naquele dia. Minha amiga, a Clarissa, está sozinha com o bebê desde que a mãe dela voltou pra sua cidade, umas duas semanas atrás. O marido está trabalhando. Como ela não curte a ideia de babá, está se virando – e muito bem – sozinha.

Eu, toda cheia de cerimônias, querendo ser fiel ao livrinho de regras: não visitar antes de um mês, não ficar mais de meia hora, não mexer no bebê. Mas a Clarissa é tão tranquila e estava tão necessitada de gente pra conversar e pra dar uma mãozinha com a Luíza que a visita foi completamente diferente do que eu imaginei.

Começou tudo conforme o protocolo: cumprimentei minha amiga, entreguei o presentinho, fui ao banheiro lavar as mãos e só depois disse oi pra Luíza, sem pegar nela e sem chegar muito perto. Fomos para o sofá, onde a Clarissa deixou o bebê enquanto fazia alguma outra coisa (ela não é um polvo, vocês entendem bem a situação).

Depois de poucos segundos, a Luíza começou a fazer uma carinha ruim, abrir a boca, espremer os olhos e franzir a testa, numa clara mensagem: “vou abrir o berreiro se ficar aqui”. Percebendo a iminência do choro (olha lá o instinto materno aflorando, minha gente!), comecei a esfregar as costas dela e dizer: “calma, calma, mamãe já vem”. Ela deu uma acalmada, mas logo se indispôs de novo como que dizendo: “legal, mas vocês não vão me enganar com esse carinho mixuruca”. Aí a Clarissa: “Pega ela, Lia!”. Meu Deus. Todas as poucas vezes em que peguei bebês na minha vida, eles começaram a chorar na mesma hora. E essa então, com um mês apenas e prestes a cair em prantos. Expliquei a ela que eu não sabia fazer aquilo, que não levava jeito. “Pega, Lia, é facinho. Vai dar tudo certo, vai lá”. Ela me passou tanta segurança – não de que ia dar certo, mas de que ela não ia me matar se desse errado – que arrisquei. Tomei cuidado para não deixar a cabecinha sem suporte e acomodei aquele pacotinho no meu braço. E não é que ela melhorou o humor instantaneamente? Pra ela ficar ainda mais feliz, levantei e comecei a sacudi-la. Dancei com ela, e quando sentava ficava tremendo as pernas pra manter o movimento. Ela cochilou gostoso, aquele soninho leve.

Ocorre que ela não estava realmente com sono, e todas as vezes em que eu parava de agitá-la, ela abria os olhos e, tcharan!, o que ela queria fazer? Mamar no meu peito!! Foi muito bonitinho. Ela raspava as unhinhas na minha blusa, tentando inutilmente achar um mamilo. Abria a boca, dava cabeçada no meu peito. O melhor que conseguiu foi abocanhar meu braço. “Clarissa, acho que ela quer mamar”. “Quer não, Lia. Ela acabou de mamar. Ela quer só sugar mesmo. Vou dar a chupeta pra ela não se irritar.” Eu, super natureba, querendo salvá-la da chupeta com funchicórea, tive a maior vontade de dar meu peito. Mas aí era perder completamente a noção, né? Daí tive outra ideia: continuar sacudindo, já que o ataque voraz só acontecia quando a gente parava. E resolveu, ela ficou bem satisfeita. Mas depois de uma meia hora que eu estava com ela no braço, minha amiga ficou com pena de mim e deu a chupetinha. E continuei com ela mais alguns minutos, quando foi a vez do meu marido fazer o test drive. E deu certinho. Ela não chorou um segundo durante a 1h30 que passamos por lá. A Clarissa até sugeriu: “Você não quer vir todos os dias?”.

Fiquei tão feliz com a visita que não parei de pensar nisso até hoje. Percebi que sou perfeitamente capaz de ser mãe. E já estou com saudades da Luíza...



E olha ela querendo mamar no meu peito...

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