Segue a terceira e última parte do meu relato de parto. Amanhã vou fazer umas considerações finais e responder a alguns comentários.
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E lá estávamos nós na sala de parto. Chama o anestesista. Ele quase não consegue aplicar a injeção, de tão curto que é o intervalo entre as contrações. Um senhor simpático. Perguntou pelo nome da criança e disse: “Conhece a música da Emília? É bem antiga, vocês não devem conhecer.” Aí começamos a cantarolar juntos : “Quero uma mulher que saiba lavar e cozinhar/ e que de manhã cedo me acorde na hora de trabalhar/ só existe uma, e sem ela eu não vivo em paz. Emília, Emília, Emília, não posso mais.” E a médica: “Que horror!”
E aí as pernas começam a formigar e a dor vai embora. “Tá dando certo?”, eu perguntava pra médica. “Já deu certo. Agora ela desce!”
Então percebi que as contrações estavam diminuindo. A equipe estranhou. “Você só não está sentindo a dor”, disse alguma enfermeira. “Mas as contrações não continuam?”. Continuavam, mas bem mais fracas e com menos frequência. Eu tinha certeza, e insisti que alguma coisa deveria ser feita. Parece que isso não era pra acontecer. Mas, enfim, tanta coisa no meu parto não era pra acontecer... então manda a ocitocina! Dizem que a ocitocina causa uma dor insuportável. Eu não senti nada disso porque estava anestesiada. Nem tchuns. Simplesmente as contrações retornaram ao ritmo de antes e eu pude voltar a empurrar.
Vai pra cama, vai pro chão, vai pra cadeira, de quatro, de cócoras. E o tempo foi passando. “Só mais um pouquinho, só mais essa! Comprido, comprido, comprido!”. Afe, Jesus. E nada dessa menina sair. “Estou vendo a cabeça!”, anuncia a médica. “Você quer ganhar ela como? De cócoras? No chão ou na cama?” “Do jeito que sair mais rápido!!”. E fomos pro chão. Mas depois de uns 20 minutos de últimas contrações, me botaram de volta na cama pra não forçar as pernas.
Alguém da equipe disse que eu tinha de empurrar não sei como, e a médica respondeu: “Não, ela está empurrando direitinho. Tem alguma coisa prendendo o bebê. Parece que é um ossinho que ela tem no quadril. Mas agora já era. Cesariana agora ia ser cesariana de português, porque a cabeça já está no canal.” Ah, como gostei de ouvir isso, mesmo já quase sem forças! Sei lá, preferia Emília entalada no canal à possibilidade de uma cirurgia.
E aí a médica começou a fazer altas manobras lá embaixo, e senti a Emília girando pra esquerda. Vi as costas dela passando pelo meu umbigo. Enquanto isso, o Rafael está lá embaixo, vendo a cabeça da Emília, o corte, a movimentação das mãos da médica. E eu empurrando. Aí vi que as enfermeiras estavam tentando empurrar minha barriga pra baixo. Minha vontade? Ajudar a empurrar também! Precisavam de alguém mais forte, e chamaram um homem. Outra coisa que dizem que é um horror: esses homens que empurram sua barriga. Pois eu achei ótimo. Tudo o que me ajudasse a fazer ela descer era super bem vindo. E não senti nenhuma dor. Falando em dor, nessa altura do campeonato minha analgesia em pequena dose já tinha ido pro espaço. Eu só não sentia mesmo o corte lá embaixo. Mas as dores das contrações estavam de volta. Eu recitava o pai nosso, virava a cabeça de um lado pro outro, e teve uma hora em que quase perdi a consciência. Abri os olhos e vi toda aquela gente em volta de mim. Demorei alguns segundos até perceber onde estava. Aí avisei: “Pessoal, estou apagando!” Aí me deram um negocinho de oxigênio pra pôr no nariz e me explicaram que agora estava acabando mesmo. Será? Tirei minhas últimas forças não sei de onde, comprido, comprido, comprido, e não sei depois de quantas contrações mais, senti a cabeça dela saindo. Dei uma bizoiada e vi a médica cortando o cordão com o corpinho dela ainda lá dentro. E onde estava o cordão? Isso mesmo, enroladinho no pescoço. Em seguida fiz uma forcinha de nada e senti o resto do corpo saindo. Já tinham posto o paninho no meu peito pra eu recebê-la, mas antes que eu me desse conta, vi ela sendo levada.
Não ouvi choro nenhum. E eu dizia: chora, minha filha, chora! Mandaram o Rafael acompanhá-la, e eu fiquei lá, sendo costurada. Um tempinho depois ouvi um choro e perguntei se era ela. Disseram que era.
Não sei quanto tempo passou até eu receber aquele pacotinho todo embrulhado nas mantas do hospital. Inchadinha, com a cabeça cônica. Fazia um barulhinho chiado com o nariz. “Tá ouvindo este barulhinho?”, perguntou a pediatra. “Ela aspirou um pouco de mecônio, que entrou nos pulmões. Nós já fizemos a drenagem, mas ela vai ter de ficar um tempo na UTI, em observação. Provavelmente amanhã ela poderá subir pro quarto.” Beijei minha filha, me despedi dela. Foi tudo muito rápido. Depois é que soube que quem me entregou a Emília foi o Rafael, e que ele me chamou várias vezes até eu olhar pra ele. Não me lembro. Pra mim, tinha sido uma enfermeira.
E foi assim o meu parto. Passei mais alguns minutos na sala de recuperação, subi pro quarto com a certeza de que minha filha ficaria bem e feliz que ela tinha nascido. Olhei a pulseirinha que me puseram no braço. Horário de nascimento: 20h32.
No dia seguinte, às 11h, fui à UTI amamentá-la. Às 14h fui outra vez, e depois disso mandaram a Emília pro quarto. Recebi alta no terceiro dia, quinta-feira, e ficamos no hospital até o dia seguinte, quando ela foi liberada. Quiseram mantê-la mais um dia em observação por conta do fator sanguíneo (ela herdou o sangue do pai, A+. Sou O-). Queriam ver se não dava icterícia. Não deu. Saiu de lá branquinha, branquinha.
No dia do parto e um pouco mais tarde, pensei no próximo filho. Tive medo de ele não virar pra esquerda. Tive medo de meu canal ficar rígido outra vez. Tive medo do mecônio. E alguns dias depois eu já tinha decidido: no próximo, vamos de normal outra vez. E vamos tentar de novo fugir das intervenções. Um dia eu chego lá!
18, meu amor!
Há 5 semanas