sexta-feira, 20 de março de 2026

Sol em gotas

 Volto aqui depois de tantos anos para uma pequena contribuição ético-político-ecológica à comunidade de mães e de bebês: me manifestar a respeito da decisão de alguns pediatras de que o sol faz mal.

Soube por uma amiga recém-mãe, quando perguntei se estava saindo para tomar sol com o bebê. Ela disse que agora não pode mais. Achei engraçado: "O que aconteceu? Acabou-se o resto da camada de ozônio?". E agora minha filha de 12 anos pertence a um "antigamente" em que os bebês tomavam banho de sol.

Como boa cientista, fui fazer uma breve pesquisa pra entender a base científica disso. Não achei nenhuma recomendação do Ministério da Saúde, mas só da Sociedade Brasileira de Pediatria, com argumentos completamente vagos como "os riscos são maiores que os benefícios" e "a pele do bebê não tem proteção natural contra o sol até os seis meses". Coisa tirada do sovaco.

Nenhuma reflexão sobre os riscos de enfurnamento da mãe, de isolamento, de solidão, por medo de "queimar", "desidratar" ou expor o bebê a câncer de pele. Nesse raciocínio, o sol é reduzido a uma fonte de vitamina D, que pode ser substituída comodamente por um suplemento. Nenhuma referência aos efeitos do sol sobre o humor, sobre a integridade da saúde, e sua relação com os melhores espaços de socialização para mães e bebês: praças, parques e espaços naturais. Como se as mães fossem loucas a deixar seus bebês torrando na laje sob um sol de meio-dia.

Uma atitude de controle sobre os corpos que despreza a tradição, a intuição e o bom senso materno. Despreza todos os mecanismos naturais de desenvolvimento humano em integração com a terra. O shopping virou um lugar mais seguro para bebês do que a rua, e a farmácia uma fonte melhor de nutrição.

Tive o privilégio de criar minhas filhas numa cidade-jardim, em contato com o vento, com a terra, com a areia, com os insetos, com as plantas, desde o dia em que nasceram. Sempre ficaram protegidas pelas copas das árvores em horários de sol mais intenso, e sempre livres para a luz do dia no início da manhã, no fim da tarde e no inverno. E eu tive o privilégio de estar muitas horas por dia ao ar livre, encontrando vizinhos e vivendo a maternagem comunitária.

As corporações seguirão fazendo seu trabalho de controle e de promoção dos seus produtos, e eu continuarei fazendo o meu, que é de subversão, para a proteção das minhas filhas e do planeta em que meus netos vão nascer. 

Paz a todas as mães nas praças, parques e praias!

  


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Como escolher livros para crianças?

(post originalmente publicado por mim em http://literaturanocolo.blogspot.com.br/)

Esta é a pergunta que eu mais ouço quando digo que pesquiso literatura infantil. Pais e mães relatam que não sabem como selecionar um bom livro para seus filhos nas livrarias. Quando falo que tenho um blog sobre o assunto, buscam aqui recomendações, ou "dicas" de livros. De fato, faço aqui o que chamei de crítica literária amadora (ou semi-amadora, ou semi-acadêmica) de livros infantis. Por aí é possível que meus leitores encontrem algo de interesse. Afinal, é função da crítica despertar o desejo do contato direto com a obra.

Mas minha escrita é lenta e espaçada, e cobre muito pouco do universo de obras literárias para crianças disponíveis no mercado, nacionais ou traduzidas. Quem vier aqui encontrará mais uma reflexão sobre as obras que propriamente indicações de compra.

"Eu queria uma lista", disse a mãe de um colega da minha filha. É evidente que existe uma quebra na mediação da leitura. De maneira geral, não há adultos leitores para legarem às crianças este hábito, como se diz, que prefiro chamar de amor pela literatura. É difícil transmitir aos nossos filhos, netos, alunos, sobrinhos etc. algo que nos falta, que não é exatamente nosso métier. (Esta é uma reflexão que ultrapassa a literatura: que herança cultural e afetiva temos para legar aos nossos descendentes? Habilidades artesanais, sabedorias, dons artísticos, intuições? Ou estamos só pagando contas?)

Uma boa maneira de começar é buscar os livros de que você gostava quando era criança. Muitos ainda podem ser encontrados. Mary e Eliardo França (coleção Gato e Rato), Ziraldo, Ruth Rocha, Ana Maria Machado, clássicos como Lúcia já vou indo, de Maria Heloísa Penteado...

Se suas memórias de leitura se perderam num abismo, pois bem, façamos as listas. Se nos sentimos incapazes de julgar um bom ou um mau livro, honesto aquele que busca indicações com quem tem mais repertório.

Desnecessário que eu apresente aqui uma seleta própria de livros infantis. Há muitas instituições que fazem isso. Sugiro, portanto, algumas fontes onde os adultos podem procurar títulos já triados, e evitar gastar dinheiro com os maus livros:

- A Revista Crescer divulga anualmente uma lista com os 30 melhores livros. Trata-se de uma instituição com fins lucrativos, que tem no júri vários nomes ligados a editoras. Ainda assim, não é uma seleção que se despreze, e é um bom começo para quem não tem ideia do que comprar.

- A Fundação Nacional do LivroInfantil e Juvenil (FNLIJ) é uma excelente referência. Além dos livros premiados em várias categorias, a FNLIJ tem o selo Altamente Recomendável, mais uma lista de livros que deveriam compor bibliotecas infantis. Os jurados são pessoas experientes no ramo. 

- O Programa Nacional Bibliotecada Escola (PNBE), que distribui (distribuía? continuará distribuindo?) livros para escolas públicas, divulga em seu site os títulos que compõem os acervos, por nível de ensino. A seleção tem sido feita pelo Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale), da UFMG, por professores extremamente competentes. É só ver o que o governo comprou e comprar igual.

As listas, acervos, prêmios fazem um recorte nesse universo tão heterogêneo que é o mercado editorial infantil. Escolher livros a partir daí, quando não se têm muitas referências próprias, é um caminho. E que os adultos tomem tempo para ler junto com as crianças, e assim ir preenchendo esses vazios da memória.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Minha vida dupla



Ontem, no fim do dia, fui a uma palestra. As meninas ficaram em casa com o pai. Aquele momento de suspensão, de quebra na minha rotina rigorosa, me deixou perplexa. Onde eu estava, e quem eram aquelas pessoas?

Pesquisadores envolvidos até os cabelos com a carreira. Falavam de coisas que eu entendia, e nas quais eu via sentido. Foi essa a profissão que eu escolhi. Mas era como se aquele ritmo me fosse impossível de atingir.

Quando estou fazendo alguma tarefa braçal, como lavar a louça ou picar cenoura, penso na vida que levo – a vida que eu pedi a Deus. Levanto às 6h para arrumar as meninas para a escola. Às 7h e pouco elas saem com o pai. Fico então até às 8h por conta da casa, período em que lavo louça, estendo roupas, deixo o almoço pré-pronto. Depois, vou estudar. Às 12h termino o almoço, e então quando elas chegam da escola é o Deus-nos-acuda. Servir prato, trocar de roupa, varrer chão, e de novo a eterna louça. Fico com elas toda a tarde, e só posso reclamar mesmo do trabalho que dá a comida.

Ontem eu tinha de sair depois da janta pra palestra. Queria que o marido ficasse só por conta das crianças, sem nenhuma bagunça pra arrumar. Enquanto elas brincavam de bonecas no corredor, estendi a roupa de todo dia (que agonia) varri e passei pano no chão da cozinha, deixei a louça lavada. E fui.

Voltei pra casa pensando: como eu vou conseguir chegar aonde meus colegas vão chegar? Como conseguir compensar as minhas limitações? "As crianças vão crescer", o marido diz. Sim, já estão crescendo. A flexibilidade aumenta, mas precisamos continuar disponíveis.

Só quem tem uma família pra cuidar sabe a loucura que é. A gente pode tentar empregada, babá, escola integral, mas no mínimo teremos de administrar tudo isso. E se a empregada que dorme já entrou em extinção – e a mensalista está na lista das profissões ameaçadas –, colocar a casa em ordem depois da última refeição do dia é uma tarefa inevitável, mesmo pra quem tem alguém todos os dias.

Como eu disse, vivo a vida que pedi a Deus. Passo bastante tempo com minhas filhas, consigo acompanhar a vida delas. Ao mesmo tempo, estou construindo uma carreira que é minha vocação e que me dá prazer – e que, espero, se mostre mais flexível que meu antigo trabalho, para que eu sempre tenha o tempo necessário pra família. Não tenho patrão e sou responsável pela minha própria disciplina. Em suma, sou livre.

Mas o ritmo é outro. A mãe que ousa carregar os filhos sempre caminhará mais devagar. O que nos salva é a obstinação. Caminhamos devagar, mas não paramos.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Como plantar árvores em centros urbanos

Das três coisas que dizem que todos devem fazer antes de morrer, acho que plantar uma árvore é a mais complicada. Mais que ter um filho e escrever um livro.

Pra quem tem um quintal, vá lá. Uma chácara, melhor ainda. Mas pra quem mora em apartamento, em centros urbanos, a coisa não é assim tão simples.

Por melhores que sejam as intenções de quem resolveu colocar uma mudinha cuti-cuti de ficus próxima à calçada, a pobre árvore vai acabar sendo sacrificada quando não puder mais com suas raízes debaixo do cimento. Onde plantar, que espécie plantar, como e quando plantar... tudo isso exige um planejamento danado.

Estou há meses querendo porque querendo plantar uma árvore por aí. Alguns amigos meus já puseram frutíferas em áreas gramadas próximas aos prédios onde moram, experiências legais. Meu irmão também já fabricou, da semente, mudas de pau-ferro que foram plantadas por ocasião do nascimento dos filhos. Na época, ele tentou pegar alguma espécie de autorização com o governo local, mas parece que isso não existe. Então fica uma iniciativa individual, que pode ser muito bem sucedida ou pode resultar em galhos entrando pelas janelas ou cobrindo postes.

Este ano perdemos nove árvores em volta do parquinho da minha quadra e a vontade de plantar novas mudas veio ainda mais forte. Por falta de grana pra fazer o serviço por conta própria, acatei os conselhos de outros pais da vizinhança e segurei minha impaciência, esperando pela ação da administração do DF. E aqui compartilho uma experiência muito bacana, que pode ajudar quem estiver incomodado com a arborização deficiente da região onde mora.

Depois de fazer a solicitação à empresa responsável pela arborização de Brasília - e de amolar bastante pra apreciação urgente da nossa demanda -, eles mandaram um funcionário aqui pra fazer a vistoria. Ele indicou os lugares ideais e as espécies adequadas para plantio e liberou as mudas pra nós no viveiro. Eles poderiam nos colocar no plano de arborização da cidade e fazer o serviço completo, mas teríamos de esperar a nossa vez. Então, pra acelerar o processo, assumimos a tarefa do plantio, contratando um jardineiro.

Pra quem quer plantar árvores na cidade e não sabe começar, sugiro entrar em contato com a empresa de arborização do município e conferir se a sua região está incluída no plano anual de arborização. Se não, pode-se fazer uma solicitação de vistoria e pedir a inclusão. Se sim, tendo uma galera envolvida na vizinhança, pode-se tentar essa parceria, a comunidade assumindo o plantio. Assim, garante-se que as espécies são adequadas para o local mas passa-se à frente da morosidade habitual do serviço público.

Outra alternativa é, em vez de plantar mudas, cuidar das mudas que já estão plantadas. O governo planta, mas não rega. Quando vem uma estiagem, muitas vezes a plantinha não aguenta - ou, se aguenta, sofre muito e demora a se desenvolver. Eles também não isolam as mudas, apenas escoram com uma estaca. Quando vem o cortador de grama, pode danificar o tronco da planta.

Quando a comunidade cuida, faz uma cerquinha em volta, molha a muda em períodos de muito sol e pouca chuva, as mudas têm muito mais chance de se tornarem árvores adultas. Pra quem não sabe por onde começar, eis um bom caminho.







quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Em novo endereço

Agora estou aqui, falando de literatura: http://literaturanocolo.blogspot.com.br/

sábado, 7 de março de 2015

Filhofobia

Diz-se que, nos velhos tempos, em cidades pequenas e tranquilas, as crianças saíam para brincar sozinhas aos cinco anos. Eram muitas, muito mais crianças que adultos, brincando juntas, com espaço pra correr, árvores para subir. A assistência do adulto não era tão necessária; elas se criavam.

Daí vêm as cidades grandes, os perigos, dar a mão para atravessar a rua, ter de ficar o tempo todo de olho na criança, o medo da violência. E a falta de opções de lazer adequadas, crianças em apartamentos pequenos, áreas públicas insuficientes. Muitas vezes é necessário pegar o carro para ir a um parque. Ter filhos ficou mais trabalhoso, mais caro, mais complicado, e com isso as pessoas têm cada vez menos filhos.

Ter filhos hoje significa brincar com eles, pois nem sempre há outras crianças por perto. Quando as há, cabe ao adulto acompanhar a brincadeira, mais de perto ou mais de longe, conforme a idade e a maturidade da criança. Por questões de segurança física, mas também por questões de segurança emocional. O coleguinha do parquinho muitas vezes é um desconhecido; não é aquele vizinho da cidade pequena, que a criança via todos os dias, que era quase um primo. Às vezes eles formam vínculos, e o coleguinha nunca mais aparece. Coisas de cidade grande. Mas é sabendo disso que nos tornamos pais.

Então a gente é pai, e daí vem uma preguiça enorme de ser pai. Porque também nós não sabemos mais brincar, subir numa árvore, enterrar o pé na areia, cantar enquanto empurramos o balanço. Aí vem o pai, a mãe, e empurra distraidamente o balanço enquanto manda um whatsapp. Olha pra tela, enquanto a criança olha pro nada, apática, ou tenta chamar a atenção do adulto de alguma maneira. Ou então o pai, a mãe, senta num banco do lado de fora do parquinho e fica touchscreenzando, enquanto a criança se vira dentro do parquinho. "Mãe, me empurra no balanço?"; "Pai, me ajuda a subir nesse brinquedo?" "-Vai naquele outro que você consegue ir sozinha."

As babás, as mães, os pais que estão dentro das grades, ao lado de suas crianças, acabam cuidando como podem da criança desassistida. Porque a criança desassistida, que sabe que o adulto que a levou ao passeio não vai dar a atenção que ela deseja, sempre pede atenção dos outros adultos. Esses que, a criança desassistida observa, estão efetivamente cuidando das suas crianças.

Às vezes não tem jeito: a criança desassistida cai, leva um tombo, ou quer sair pra passear com o colega que tem cuidador. Daí a mãe, o pai do celular, olha com aquela tromba, levanta o traseiro do banco como se pesasse uma tonelada, e vai se arrastando pra dentro das grades, buscando a primeira oportunidade para cair fora.

Em parquinhos, em restaurantes. Genitores que parece que têm uma preguiça enorme de cuidar dos filhos. E deixam os moleques soltos pros estranhos cuidarem. Ou não.

Considero que o celular por si só já foi uma desgraça pra interação pai-filho. O celular com internet, whatsapp e o escambau, uma desgraça maior. O que será de uma geração de crianças criadas por adultos abobalhados que não conseguem tirar o olho de uma tela? Parece uma alergia coletiva às crianças, e que belo refúgio nós encontramos!

Quando formos cuidar das crianças, melhor desligar o celular - ou pelo menos o wifi.

 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Um Brasil diferente para as nossas crianças

Todos estão a par da situação calamitosa que vive o estado de São Paulo com relação à água. E não só São Paulo, mas todo o país sofre as consequências climáticas da depredação da natureza.

Sem mais blá-blá-blá, mãos à obra:

Existe um movimento para levar ao congresso um projeto de lei de iniciativa popular contra o desmatamento. Para assinar a petição, é só preencher o formulário.



Tudo está muito bem explicadinho no Guia do Mobilizador, que pode ser acessado por aqui. Nada de conversa fiada de que precisamos plantar na Amazônia para não morrermos de fome. Precisamos, sim, da regulação térmica da floresta pra termos chuvas e não morrermos de fome.

Desmatamento Zero Já! Queremos nossas chuvas de volta!


terça-feira, 16 de setembro de 2014

Einstein não fazia prova sábado

Sempre me antecipo. Gosto de conversar com adolescentes, porque logo (10 anos não são nada quando se tem filhos) minhas filhas serão adolescentes também. Outro dia peguei de conversa a filha de uma amiga. Está no segundo ano do ensino médio e faz prova todos os sábados.

- Quer dizer, tia. Quase todo sábado. No fim do período – ela me explicou: agora são cinco períodos de um mês e pouco, em vez dos quatro bimestres do meu tempo –, no fim do período a gente tem um sábado de folga.
- E pra quê isso, Mari?

- Ué, tia. É porque eles não querem cancelar a aula pra ter prova durante a semana.
- Mas pra quê tanta prova?

- É porque são cinco avaliações por ano. E são muitas matérias.
- Mas não dá pra colocar tudo num sábado só por mês?

- Não tia! A gente só consegue fazer três provas de cada vez.
- Sinceramente, Mari... você acha que precisa disso?

- Não, tia. Não precisa.

Mariana é boa aluna, alegre, responsável. Vai à igreja todos os domingos de manhã, de modo que não tem uma manhã sequer livre para, sei lá, ir ao clube, dormir até mais tarde, tomar a fresca.

Quando cursei o ensino médio, minhas aulas começavam às 7h15 e iam até 12h45. Agora eles entram às 7h e saem às 13h, com a diferença que têm dois intervalos de 15min em vez de um só. De todos os modos, o período diário cresceu em 15min. “Isso quando não tem o sétimo horário, tia!”. Todas as semanas eles têm um dia com horário estendido.

Fico me perguntando qual o objetivo de tudo isso. Einstein não fazia prova sábado. Einstein não estudava em escola bilíngue. Einstein não foi alfabetizado aos 4 anos de idade.
Quais os resultado de uma carga horária de estudos sempre crescente? Os jovens estão ficando mais inteligentes? Mais humanos? Mais preparados para lidar com os problemas sociais que vão estourar nas suas mãos? Aptos a desenvolverem mecanismos para a sustentabilidade do planeta? Para que tenhamos água daqui a 20 anos? Aptos a construírem um país menos desigual, menos violento, menos injusto?

Nada me convence de que essa corrida escolar não é senão um estapeamento coletivo pra ver quem chega primeiro. Seu filho tem te estudar na escola X, com a maior carga horária da cidade, para não ficar pra trás. Para ter um emprego melhor, para ter sucesso pessoal, para ter dinheiro. Não existe qualquer preocupação com a coletividade, com o jovem enquanto um servidor social, um colaborador ativo na construção de uma sociedade livre, pacífica e justa.
Fazer prova todo sábado serve somente (se é que serve) a mim, enquanto adversário do outro. Quem estudar mais, passa.

É urgente questionar, mais uma vez, nosso sistema escolar. É urgente visitarmos a nós mesmos e sondarmos as motivações que nos levam a escolher esta ou aquela atividade para os nossos filhos. Não digo que haja opções; nem sempre as há. E pode ser que, daqui a dez anos, minhas filhas estejam todas fazendo prova aos sábados. Mas que eu não desista de ensinar a elas, todos os dias, que não estamos aqui para nós mesmos, e que não somos ninguém senão na nossa relação com o outro.

Isso nunca é cedo pra ensinar.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Discutindo a formação de leitores: onde estão as mães?

Estudando para minha dissertação, estive analisando a última edição da pesquisa Retratos da Leitura do Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro. O dado que mais me chamou a atenção foi que, pela primeira vez, as mães deixaram de ser a figura mais influente nos hábitos de leitura dos indivíduos, tendo sido superadas pelos professores.

Não se aprende mais a ler em casa. Ler, não no sentido de ser alfabetizado, de decifrar uma sequência de códigos gráficos; mas de tornar-se leitor, leitor de literatura, da "arte das palavras", como define Ana Maria Machado.

Quando saem da escola, conclui a pesquisa, os jovens param de ler. Ou passam a ler muito menos, sobretudo quando falamos em literatura. Sobrevive apenas a leitura de jornais, revistas e internet. Quando não tem ninguém mais mandando ler, não se lê mais.

Interessante que, mesmo com essa conclusão, a maior parte dos especialistas que comentam a pesquisa menciona que seus resultados são muito importantes para conduzir políticas públicas e para auxiliar professores e gestores de escolas a delinear projetos para a penetração da leitura do Brasil. E as mães, onde estão?

Claro, se olharmos para o país pelo nível macro, veremos todas as questões decorrentes do desequilíbrio de renda e da precariedade econômica de muitas famílias. Mães que trabalham fora o dia todo, que estão cada vez menos em contato com as crianças e que têm pouca relação com os livros.

Mas parece que as mães não têm nada a ver com isso. Que são apenas uma vítima do sistema. E que, portanto, não são um caminho relevante para que enfrentemos o problema do baixo número de leitores no Brasil. É claro que existem iniciativas nesse sentido, como o programa "Mãe, lê pra mim", que distribuiu em São Paulo 4 mil livros para mães em comunidades carentes. E nós, mães blogueiras, também conhecemos o programa do Itaú Cultural que tem distribuído há alguns anos livros infantis para qualquer um que se cadastrar.

Mas penso que seja a hora de convocar as mães a fazerem algo por seus filhos, por suas famílias, sem esperar que o Governo ou a escola façam por ela. Porque estamos incorporando a ideia de que o papel de criar nas crianças o "hábito" da leitura é da escola. E não é. É meu. É da mãe, é do pai, é da vó, é da família. Não faltam livros; as bibliotecas públicas estão nos municípios mais remotos, o acervo do PNBE é absolutamente espetacular. Faltam mediadores que tenham gosto pelo livro.

O comediante Louis C.K., na série Louie, faz uma piada aparentemente de péssimo gosto em uma reunião de pais e mestres em que se discute uma crise na escola, e o que fazer para melhorar a instituição. Ele não entende o rebuliço e comenta: "School is supposed to suck". Claro, uma afronta a todos os pais e educadores que têm lutado por um ambiente escolar prazeroso, criativo e livre para nossas crianças.

Mas a piada traz algo de importante para nossa reflexão: queiramos ou não, a escola está historicamente associada à obrigação, ao dever, enquanto que o lar dá a ideia de prazer, de liberdade, de lazer. Por menos tradicional que seja a escola, ali os deveres são mais frequentes que em casa. Por mais que se goste da escola, existem horários, existem obrigações, existe um esforço maior do que o que é exigido no seio da família. E aí está o pulo do gato.

Embora a escola tenha um papel importantíssimo em cultivar o hábito da leitura, é muito mais difícil para ela desenvolver o gosto pela leitura que para uma mãe. A leitura no colo, com atenção individual que os professores dificilmente podem dar, com tempo para a contemplação, para a pausa, para a repetição, encontra ambiente muito mais favorável em casa.

Mas é necessário que a mãe esteja lá. Que haja tempo, muito tempo. E se isso é uma questão social, política, econômica, também é uma questão individual, das minhas decisões, da minha vontade, do que estou disposta a abrir mão para estar com meus filhos. E se para a população carente o buraco é mais embaixo, eu não tenho desculpa.

A leitura de livros em papel me parece uma tradição que está se perdendo. Embora estejamos falando da palavra escrita, a leitura começa como parte da tradição oral, da contação de histórias, da leitura em voz alta antes de dormir. É algo que tem de ser passado de geração em geração, no seio da família.

Essa tarefa tem sido delegada para a escola, que tem se mostrado incapaz de fazer resistência aos apelos mercadológicos das propostas passivas de estímulo aos alunos, menos desafiadoras e mais aquietadoras das numerosas crianças em sala de aula. É necessário trazer a leitura também para fora da escola, como parte da rotina de lazer, do tempo livre. É necessário resgatar o prazer da leitura compartilhada, humana, o lado relacional da leitura.

Só aí se criarão memórias afetivas fortes o suficientes para sustentar a leitura individual, silenciosa, contemplativa, sem hipertextos, botões ou luzes.



quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Ela vai dormir fora

Uma mala pequena e jeitosa, com uma fita cor-de-rosa atada à alça. Embalo em sacos transparentes os conjuntos de roupas que ela mesma escolheu. As roupas de frio tiveram de ir em outros sacos, maiores, todos cor-de-rosa. Ela vai saber, as roupas de frio nos sacos rosas. Tudo identificado com marcador permanente.

Todos os anos, a igreja promove um "acampadentro" para as crianças a partir de cinco anos. Chegam sexta à noite e ficam até domingo de manhã, duas noites amontoados em colchões no chão, dormindo tarde, comendo cachorro-quente e crescendo na fé. Cinco anos, só ano que vem. Mas achei que Emília poderia aproveitar a programação diurna.

- Posso trazê-la durante o dia, para ela participar de algumas atividades?
- Não é bom que as crianças fiquem chegando e saindo...

Murchei. Só ano que vem então.

- ...mas você pode inscrevê-la. Ela fica, não fica?

Inscrevê-la? Para dormir e tudo? Mas ela ainda não tem cinco anos...

- Outras crianças da idade dela vão participar também.

Ora, claro que ela fica. Foi só olhar pra ela, que me acompanhava. Os olhos brilhando, o sorriso de orelha a orelha, e a cabeça subindo e descendo, fazendo que sim. Eu disse que ia pensar.

Não precisei de muito tempo para decidir. Mando um feijão para substituir o estrogonofe, o cachorro-quente ela já está acostumada a comer sem a salsicha. E a hora de dormir... bem... domingo ela capota às 19h. Resolvido, ela vai.

Desde então, contagem regressiva. Faltam três dias para o acampadentro! Dois dias! E é amanhã.

Fecho a mala, tão linda, tudo organizado de modo que ela possa se virar - que ela sabe se virar. O potinho com X para xampu, com C para condicionador. Duas toalhas, uma para o chuveiro e outra para o banho de mangueira. Pantufas para não sujar as meias na hora de dormir. E nem precisa de mais recomendações.

Beijo na mamãe e até domingo!

terça-feira, 27 de maio de 2014

Alfabetização precoce: qual o problema?

Esta semana topei com um texto que muito me emocionou, do escritor, ilustrador e pesquisador Ricardo Azevedo. Azevedo conta suas primeiras experiências literárias, não com textos escritos, mas com imagens. Eram livros que ele encontrava na estante dos pais e folheava, bebendo daquelas imagens, sem compreender nada daquelas letras, ainda indecifráveis, que acompanhavam as ilustrações.

As imagens ficaram em suas lembranças, indeléveis. Pensando bem, talvez eu também tenha gravadas na memória muito mais lembranças visuais que verbais ou sonoras. Se tento me lembrar de uma frase, um verso de um poema, qualquer coisa textual que me tenha marcado na primeira infância, nada me vem que não tenha sido repetido muitas e muitas vezes ao longo da vida.

Cheiros, lembro também dos cheiros. O cheiro de esgoto e peixe podre que tem Fortaleza. Não tinha quatro anos completos quando saí de lá, mas guardo alguns quadros. A casa e seus espaços, as colunas redondas, as camas de alvenaria pintadas de verde. A vez em que quis tirar uma foto de dentro de um cesto de peixe, e o odor que me fez mudar de ideia assim que entrei.

As palavras, os sotaques, se foram. Talvez acabem aparecendo por aqui, ou revivendo quando trato com minhas filhas.

Ao ler o depoimento de Azevedo, pensei: "ele se lembra tão bem dessas imagens! Quantos anos será que tinha?" Não podia ser uma criança tão pequena, pra guardar uma memória tão viva. Azevedo se lembra de quando ainda não sabia ler.

Então algo estalou em mim. A partir do momento em que lemos as palavras, não lemos mais as imagens da mesma forma. Não precisamos mais adivinhar a história que as ilustrações contam. E não precisamos mais perguntar, buscar o adulto, aquele mediador que torna a leitura afetuosa. Quanto antes a criança lê sozinha, antes ela se liberta da leitura compartilhada. Bastante conveniente num tempo em que tudo o que queremos é que as crianças dispensem nossa assistência o quanto antes.

E pensei que gostaria que minhas filhas se lembrassem dos dias em que eram analfabetas. Que em seu analfabetismo, aprendam a ler as imagens. Que não as vejam apenas como decoração, mas apreendam seu potencial estético e narrativo. Que as imagens ainda emocionem. Ainda contem, ainda provoquem.


E pensei que gostaria que minhas filhas se lembrassem dos dias em que eu lia por elas. Que guardassem em suas células a música da minha voz, o calor do meu colo, o odor da minha respiração.

Elas terão toda a vida para lerem sozinhas os códigos da nossa escrita. Que, por enquanto, sejam ágrafas. E sejam todas sentidos: olhos para fotografar, ouvidos para beber o som, pele para sentir o outro, nariz para aspirar minha voz, e boca para perguntar. 

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Relato de parto da Ana

A cabeça dela na minha mão. “É tão pequena”, eu disse. Descia, voltava um pouco. Com umas três ou quatro forças, anunciei: “Nasceu a cabeça!”. A parteira pediu calma antes que eu continuasse fazendo força para fazer nascer o corpinho.

“Agora, o Rafael vai receber seu bebê”, disse a parteira. Eu, mesmo com o tronco voltado para frente, numa posição em que certamente ela sairia por trás, pensei: “Até parece”.

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Dia 24 de julho. Às vésperas de completar 39 semanas, começo a perder o tampão. É dia de consulta com a parteira. A cabeça do bebê ainda está flutuando, mas minhas filhas sempre nasceram dentro das 24h seguintes à perda do tampão.

Vamos todos jantar fora, Rafael, eu e as meninas. Chegamos em casa exaustos, e marido tem a brilhante ideia de assistir à final da Libertadores. Vou dormir. Levanto à meia-noite, ele ainda está na sala. Prorrogação, pênaltis, e não consigo dormir até que ele venha pra cama, já mais de meia-noite e meia.

Às 4h do dia 25, acordo com contrações intensas, a cada 8 minutos. Peço ajuda pro Rafael, que mal consegue se manter acordado. Me sinto sozinha, a cabeça cheia de coisas: precisamos encher a piscina, preciso que o Rafael pressione minhas costas, mas ele dorme. Ligo pra doula, pra amiga (que também é doula) que prometeu cuidar das meninas durante o TP e pra fotógrafa. Logo descubro que minhas parteiras estão atendendo outro parto, e que a doula oficial também terá de atender outra pessoa que estava, aparentemente, com o TP mais avançado. O sol nasce, e meu TP vai embora. Mando todo mundo embora. “Vão descansar, depois eu chamo vocês.”

Dia 25 de julho. O TP não foi embora de fato, continuo com contrações ritmadas, só que agora um pouco mais espaçadas. Acho que não fui mesmo feita pra parir de dia. Emília vai pra escola, Margarida dorme e Rafael e eu conseguimos dormir um pouco pela manhã. Recoloco as ideias no lugar, me acalmo. É uma chance de recomeçar.

Depois do almoço, vamos fazer um piquenique no parque com minha amiga doula, a filha dela e as minhas. Já sinto vontade de vocalizar durante as contrações, que ainda estão a cada 9 minutos mais ou menos.

Perto das 17h o cansaço começa a bater. Vamos pra casa, colocamos as meninas pra dormir bem cedinho, 19h.

Não consegui mais dormir de fato, mas deu pra descansar até umas 22h, quando, com as contrações já mais intensas e bem ritmadas, entrei no chuveiro, eu e a bola. Não acompanhei as horas, não cronometrei as contrações. Achei que estava na hora de chamar todo mundo e pedi pro marido ligar. Ele hesitou, não sabia se estava na hora mesmo, já que eu tinha tido um TP que foi embora, mas a parteira ouviu meu gemido pelo telefone e insistiu em vir logo.

Lá pelas 22h30, 23h eu acho, estavam todas aqui – parteira, parteira auxiliar, amiga-doula-babá e a fotógrafa, que chegou um pouco depois das outras. Minha doula oficial não pôde vir, estava em outro parto; mas como eu tinha mais duas doulas em casa (a fotógrafa também era doula), não foi problema. Aliás, disseram que eu não precisava de doula nenhuma. Se ocuparam com a piscina enquanto eu permanecia sozinha no chuveiro.

Estava tudo muito fácil. Eu cantava, como fiz no parto da Margarida, mas desta vez consegui continuar cantando por muito mais tempo. Eram músicas de louvor ao meu Deus. Às vezes mesmo durante as contrações eu conseguia continuar cantando, claro que com uma entonação bem diferente. Às vezes eu parava de cantar e vocalizava um gemido longo. Gritar, eu não gritava. Também não precisava de ninguém pra me ajudar com a dor (que nem dava pra chamar efetivamente de dor, tão bem eu a estava administrando). Convidei o Rafael pra entrar no box mais pra me fazer companhia (ou para que eu fizesse companhia a ele). Conversávamos, ríamos, era bom. Quando a coisa começou a apertar um pouco mais, pedi que ficasse atrás de mim, pressionando minhas costas. “Mas sem interromper o fluxo de água do chuveiro, viu?”

De repente, comecei a urrar e fazer força. Assim, naturalmente, sem que eu tivesse tido aquela sensação de que não ia acabar nunca, sem que eu me sentisse cansada. Não me senti cansada em nenhum momento durante este parto – diferente de quando Margarida nasceu, quando eu tive de deitar entre as contrações; e bem diferente de quando Emília nasceu e eu quase apaguei no expulsivo. “A piscina já está pronta?”, perguntei. Estava. Me enrolaram num roupão, perguntaram onde estavam meus chinelos. “No tanque. Estão imundos de terra, por causa do passeio de hoje à tarde.” Fui até a sala descalça mesmo, meu piso é de madeira, aconchegante.

A água estava uma delícia, mas não era funda como eu esperava. O que me deu de alívio foi uma pausa um pouco maior entre uma contração e outra, mas não por muito tempo. Era a hora de pirar. “Ai, agora tá doendo!”.

Essa parte foi insana. Clamei pelo sangue de Jesus, pedi a Deus que não me deixasse só. Pensei – só pensei: “Onde eu fui amarrar minha égua? Cadê minha cesárea?”. No meio disso tudo, a piscina furou, a água começou a vazar, todos tentando resolver a questão, inclusive o Rafael. “Ei, tem gente demais resolvendo isso! Vem alguém aqui ficar comigo!”. Marido obedeceu. Entre as contrações (se é que existia entre as contrações) ele procurava outra posição que não fosse atrás de mim: “NÃO TIRA AS MÃOS DAS MINHAS COSTAS! É pra ficar com as mãos aí o tempo todo!”. Marido obedeceu.

Daí já surtando, perguntei pra parteira: “Cadê esse bebê?”. “Olha aí”, ela respondeu. Cabe notar que, como no parto da Margarida, não tive nenhum exame de toque. Eu sabia que o bebê estava baixinho pela posição do coração na ausculta, quase na minha sínfise púbica. Mas não sabia sequer se eu já estava totalmente dilatada. Coloquei dois dedos lá embaixo, e quando estava no segundo nó dos dedos senti uma coisa dura. “É a cabeça”. E aí eu não tirei mais a mão de lá, só queria fazer força e colocar meu bebê pra fora.

Daí comecei a senti uma coisa diferente, parecia um balãozinho partido em dois. Era a bolsa, que rompeu na minha mão. Com uma ou duas contrações, a cabeça já começava a sair. E assim como foi com minha segunda filha, eu mesma recebi minha caçula.

Momento para nunca mais esquecer. Seu corpo no meu, cheio de vérnix. “Deixa eu ver se é você mesma”. E ri. “Taíza, você errou!”. Era ela. Ana.

+++

Taíza, minha amiga-doula-babá, que no último trimestre da minha gestação começou a achar que era um menino, foi acordar as crianças. Emília, ferrada no sono. Margarida, acordadíssima e rindo na cama. Emília me apareceu com a maior cara de fascínio do mundo e cortou o cordão, como havíamos prometido que faria. E aí se seguiram aqueles momentos gostosíssimos do pós-parto imediato: sanduíche delicioso preparado pela parteira, avaliação gentil do bebê sobre um cobertorzinho aquecido, muito chamego nas filhas mais velhas. E na avaliação da mamãe ganhei de presente um períneo íntegro (ou levemente “ralado”, nas palavras da parteira auxiliar).

Aninha nasceu à 01h05 do dia 26 de julho de 2013, pesando 3,525kg e medindo 50cm.



Salmos 126

1. Quando o SENHOR restaurou a sorte de Sião, ficamos como quem sonha.
2. Então, a nossa boca se encheu de riso, e a nossa língua, de júbilo; então, entre as nações se dizia: Grandes coisas o SENHOR tem feito por eles.
3. Com efeito, grandes coisas fez o SENHOR por nós; por isso, estamos alegres.
4. Restaura, SENHOR, a nossa sorte, como as torrentes no Neguebe.
5. Os que com lágrimas semeiam com júbilo ceifarão.
6. Quem sai andando e chorando, enquanto semeia, voltará com júbilo, trazendo os seus feixes.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Parteira: profissão serviço

A diferença entre uma assistência obstétrica padrão e uma assistência humanizada está no coração. Médicos e médicas, enfermeiras obstetras e parteiras humanizados vão além de um mero acompanhamento clínico protocolar. Importa o relacionamento pessoal entre profissional de saúde e paciente, importam as experiências da família que está sendo acompanhada, importam não apenas os resultados clínicos do parto (se bem que esses tendem a ser bem melhores quando a assistência é humanizada), mas também a satisfação da mulher, do casal, do bebê, da família. E aí é impossível não falar em amor. Difícil misturar profissionalismo com amor, mas é o que é. E é o que funciona.

No dia seguinte ao parto, tive uma intercorrência que me assustou um pouco. Liguei pra minha parteira, ela veio na hora. Como estava na dúvida sobre o que era exatamente, ligou pra parteira auxiliar e pra minha médica. Tudo parecia bem, mas como eu tinha ficado nervosa, ela me ligou mais tarde pra ver como eu estava. No dia seguinte (ontem), minha médica me ligou e se ofereceu pra passar aqui e me ver. Minha médica acompanhou todo o meu pré-natal e ficou de sobreaviso caso eu precisasse ser transferida para o hospital. Mas não foi ela que assistiu meu parto, e não recebeu nada por isso. Ainda assim, veio voluntariamente me fazer uma visita domiciliar. Estava tudo bem, foi uma visita rápida, mas que fez toda a diferença para que eu ficasse tranquila. Profissionais humanizados se importam com a nossa tranquilidade.

Ontem estava pegando uma calcinha e lembrei da parteira auxiliar mexendo nas minhas gavetas e procurando "uma calcinha preta grande". Parteiras nos vestem, nos secam os cabelos, mexem na nossa gaveta de calcinha. Assim que Ana nasceu, tive fome. Minha parteira foi à geladeira e preparou um delicioso sanduíche pra mim. Eu me satisfaria com um pão com requeijão, mas ela preparou um sanduíche com salada e tofu, bem temperadinho.

São gestos, pequenos, mas significativos. No parto de uma amiga, soube que minha médica secou os óculos dela, que estavam molhados e embaçados pela água do chuveiro.

Óbvio que não preciso nem falar das doulas, cujo métier é justamente a ternura. Mas o que me impressiona nesses profissionais, médicos e parteiras, de formação científica, inteligentes, cautelosos, aptos para lidar com intercorrências, aptos a conduzir uma transferência para o hospital, no caso das parteiras, e a executar uma cirurgia salvadora, no caso dos médicos, é a sua humildade. Humildade para aprender com as gestantes que acompanham, crescer e mudar. Humildade para não se achar importante demais para "perder" seu tempo em uma visita a uma puérpera inquieta. Humildade para ajoelhar-se e calçar uma meia em uma parturiente, como um servo faria com sua Senhora. Humildade, enfim, para servir.

Dou graças a Deus pela assistência que tive e sigo tendo. É um privilégio sem tamanho. Estar cercada de amor durante a gestação, o nascimento e as primeiras semanas de um bebê é grande parte do que me deu coragem para chegar até aqui.

Obrigada a todas as pessoas que têm nos acompanhado, e que a graça de Deus recompense esse amor.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Nasceu Ana!

Salmos 126

1. Quando o SENHOR restaurou a sorte de Sião, ficamos como quem sonha.
2. Então, a nossa boca se encheu de riso, e a nossa língua, de júbilo; então, entre as nações se dizia: Grandes coisas o SENHOR tem feito por eles.
3. Com efeito, grandes coisas fez o SENHOR por nós; por isso, estamos alegres.
4. Restaura, SENHOR, a nossa sorte, como as torrentes no Neguebe.
5. Os que com lágrimas semeiam com júbilo ceifarão.
6. Quem sai andando e chorando, enquanto semeia, voltará com júbilo, trazendo os seus feixes.


Hoje, à 1h05, Deus nos deu Ana, um pequeno milagre. Nossa gratidão é imensa.

Obrigada a todos que oraram por nós e por esta criança. Que Deus nos torne dignos da tarefa que Ele nos confiou.

Lia, Rafael, Emília e Margarida (e agora, Ana).

(fotos e mais detalhes em breve)

segunda-feira, 20 de maio de 2013

As últimas de Emília

Da Margarida não vou falar porque passei manteiga nela, botei uma maçã na boca, assei no forno e comi na janta. Ô, mas que dá vontade...

Margarida ainda não fala, e Emília há tempos vem falando como adulto, então as pérolas têm rareado. Mas ultimamente ela soltou umas que eu tive de registrar.

Ela anda numa fase girlie total. Tudo rosa, só gosto de meninas, não gosto de meninos, mamãe, eu não gosto do papai porque ele é homem e coisa e tal. Daí ela me chega:

- Mamãe, quando eu crescer, vou casar com o fulano.
- Ah, é? O fulano lá da sua escolinha?
- É.
- Ele é legal, né?
- É.
- E me diga uma coisa: ele sabe que vai casar com você?
- Ele fala todo dia que gosta de mim.
- Ah, é? Que legal... ...mas então quer dizer que agora você também gosta dos meninos?
- Não, só do fulano.

+++

Margarida e Emília brigando pela garrafinha da Minnie. Na jogada, a garrafinha preterida - a da Moranguinho. Emília, com todos os argumentos do mundo, põe fim à discussão:

- Margarida, olha só. Você tem blusa da Minnie e chinelo da Minnie. Você tá toda vestida de Minnie. Eu não tenho nada da Minnie, só essa garrafinha. Então você vai ter que aprender a gostar da Moranguinho.

+++

Emília veste uma blusa com uma menininha estampada e uma flor de aplique, super amassada. Ela apalpa a flor e grita pra empregada:

- Ô fulanaaaaaa!
- Oi!
(e aí ela começa a falar com educação)
- Sabe, essa blusa, quando ela sujar e precisar lavar, aí você passa essa florzinha aqui, porque ela está meio fechadinha, olha.

Juro que não fui eu que mandei ela dizer isso.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Quando o vínculo acontece - Guest post

QUANDO O VÍNCULO ACONTECE
Respeito à espontaneidade do binômio mãe-bebê

Que cada mãe e cada bebê são únicos todos nós sabemos. Que a relação entre eles é algo espetacular, também.
Mas, mesmo trabalhando e convivendo intensamente com estas e outras questões relacionadas à maternidade, hoje me peguei refletindo profundamente sobre este espetacular relacionamento, e percebi o quanto que ele é cercado de mistérios.
Defendemos o vínculo espontâneo, o parto natural, o contato pele-a-pele desde o nascimento, o aleitamento materno, a criação com apego.
Levantamos a bandeira contra a cesareana desnecessária, o desmame precoce, a terceirização dos cuidados.
Entendemos que há muitos rituais e costumes impostos por nossa sociedade ocidental, utilitarista e materialista, e que estes costumes e rituais tiram a leveza e a espontaneidade da maternidade.
Entretanto, entre tantas certezas sobre o que é bom para a criação do vínculo e de um relacionamento saudável para a mãe e seu bebê, ainda restam muitos mistérios.
Quando este vínculo se forma é um deles.
Aliás, o grande mistério, nem é quando o vínculo se forma. É o que é normal.
O normal é ter uma mãe apaixonada por seu bebê ainda na barriga? Chamá-lo pelo nome, imaginar como ele será quando nascer, atribuir a ele, ainda feto, personalidade e especular reações intrauterinas?
Ou o normal é se apaixonar pelo bebê ao olhar para ele pela primeira vez? Naquele momento maravilhoso de “quase-transe”, quando, num passe de mágica, toda a dor do parto desaparece junto com um choro fino e a sensação tátil de um corpinho pele quente e úmido que é colocado sobre seu peito?
E se eu disser que não senti este tão-grande-maravilhoso-espetacular vínculo durante minha saudável gravidez nem durante meu tranquilo e espontâneo parto natural?
E se eu confessar que, nos primeiros dias e meses, o bebê era apenas um bebê que precisava de cuidados, de ser amamentado, limpo e embalado?
Por que o vínculo só veio depois?
Procurando por respostas, entre o consultório do meu terapeuta e minhas livrarias prediletas, encontrei muitas opiniões.
Há muito escrito sobre isto. Pediatras, educadores perinatais, psicólogos, mães e toda a espécie de curiosos escrevem sobre a maternidade. Blogs, então, são inúmeros. Aliás, depois de toda esta revolução blogosférica materna, é difícil não encontrar soluções para seus dilemas maternais.
Mas hoje, depois de uma profunda reflexão sobre os últimos eventos no relacionamento entre eu e ele, juntei os retalhos das idéias construídas entre idas e vindas às páginas dos best sellers maternos contemporâneos, e construí minha própria conclusão sobre este misterioso vínculo.
Olhando para meu bebê, e percebendo o olhar dele fixado em meus olhos, meu coração se acelerou. “Que coisa maravilhosa” – pensei. “É isto. É isto o vínculo. Como é bom sentir isto, como é bom se sentir apaixonada por um bebê!”  E então me senti uma completa idiota: “Como pude não sentir isto desde que o senti mexendo na minha barriga pela primeira vez?”
Hoje, meu bebê fez 11 meses. E é com saudosismo que me lembro de tantas emoções maravilhosas que ele me trouxe. E me orgulho de ter aberto minha vida para a maternidade. E de ter aceitado de peito aberto as situações inesperadas a que fui exposta, quando decidi ter filhos.
Quando decidi -- aliás, decidimos -- ter filhos, nos abrimos para a história que iria acontecer a partir daí. E ela aconteceu.
E hoje eu entendo que, a maneira como se formou o vínculo com nosso bebê de 11 meses, foi profundamente influenciada pelas situações acontecidas antes da chegada dele.
A gestação, parto e despedida de um bebê anencéfalo, dois meses antes de novamente engravidar de um bebê que, saudável, viveria mais que quarenta minutos, foi uma história verdadeira, que marcou nossos corações para sempre.
Bem, esta foi a minha história. Nossa história. A história do meu vínculo com meu bebê de 11 meses não poderia não ser influenciada pela história de meu vínculo com sua irmã mais velha, que partiu rapidamente minutos após ter nascido.
Assim como eu, cada mulher tem a sua própria história. Sua história de amores, de gênero, de prazeres e desprazeres. O vínculo? Este depende.
Depende de muita coisa.
Mas ele vem. Ah, se vem...
E nós, como agentes de apoio a mulheres nesta vivência fantástica da maternidade, o que mais podemos fazer, se não incentivar práticas saudáveis para a construção de uma relação mais afetiva, feliz e prazerosa entre mães e bebês?

Por Quésia Villamil.
Médica obstetra do Instituto Nascer.

Mãe de Esther Villamil, que teve anencefalia e viveu 40 minutos e Paulo Villamil, que teve apenas uma orelha torta e vive intensamente cada dia de seus 11 meses
.
Autora do livro "Os últimos quatro meses: Diário da gravidez de um bebê com anencefalia"

Belo Horizonte, 27 de abril de 2013.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Carros - mães de três ou mais, me ajudem!

Quem achava que mãe de terceira viagem sabia tudo, se enganou. Sempre existe um meandro desconhecido na maternidade, à medida que a prole vai aumentando. E o meandro em questão é o transporte.

Como colocar 3 cadeirinhas em um carro? Lembrando:

1) Ou o carro tem de ser largo o suficiente para que caibam as três cadeirinhas lado a lado (tenho um Logan e não cabe; meu sogro tem um Corolla, mais largo, e não cabe) ou tem de ter uma terceira fileira de bancos.
2) Tem de haver cinto de três pontos disponível para prender todas as cadeirinhas - o que não é o caso da maioria dos carros, que no meio só têm cinto abdominal.
3) No caso de carros com três fileiras de bancos, é necessário que sobre algum porta-malas, se não fica impossível viajar. A maioria é ou banco, ou porta-malas.
4) Ainda no caso de carros com três fileiras de bancos, a terceira fileira tem de ser acessível o suficiente pra gente colocar uma criança e afivelar o cinto.

Lembrando ainda que não estou trabalhando, logo não tenho grana pra bancar uma 4x4 cabine dupla. Tem de ser um carro que custe até R$60mil, no máximo.

Em agosto deste ano terei duas crianças em idade de cadeirinha e uma no bebê conforto. Quando o/a caçula for pra cadeirinha, Emília ainda terá 4 anos e meio, então ainda precisará usar a cadeirinha.

Até agora, me parece que a Dobló é a única opção, já que é o único carro que ainda fica com algum porta-malas quando colocamos os bancos adicionais. Mas se alguém tiver outra sugestão, please, me ajudem! Se não, só de Mercedão!




terça-feira, 19 de março de 2013

O que toda gestante deveria saber sobre a translucência nucal

Quando as pessoas conhecem minhas escolhas sobre pré-natal e parto - fazer só os exames necessários, não saber o sexo do bebê, ter o parto em casa -, muita gente supõe que, digamos, não cuido da minha gestação. Depois que Margarida nasceu, uma prima minha perguntou se fizemos tudo sozinhos (sem assistência). Nesta gravidez, já me perguntaram se eu tomei ácido fólico, se faço ecografia... até se estou tendo algum acompanhamento pré-natal já me perguntaram. Não fico brava, não - até porque grávida de 3a viagem já aprendeu a não se irritar com essas coisas. Mas existe um estereótipo sobre quem sai do esquemão.

Sou daquelas bem certinhas, que vai ao GO antes mesmo de engravidar e faz um checkup geral para ver se está tudo certo. Antes de liberar, tomei meu ácido fólico. Demorei a ter um diagnóstico de gravidez porque, sinceramente, não faria diferença nenhuma. Eu estava com todos os meus exames em dia, tomava ácido fólico, me alimentava bem, não bebia, não usava drogas, não praticava fisiculturismo. Então, fui empurrando o Beta com a barriga, quase que literalmente.

Choca um pouco as pessoas que eu só faça uma ecografia, a morfológica do 2o trimestre (com 22, 24 semanas, por aí). Mas garanto a vocês que não vou matar meu bebê por causa disso (e minha GO também garante). Ecografia não previne malformação fetal. Incrível, não é mesmo?

Existem, de praxe, três ecografias que são recomendadas para mulheres com uma gestação normal: aquela primeira, pra identificar se a gestação é tópica (dentro do útero) e estimar a idade gestacional; a translucência nucal; e a morfológica do 2o trimestre. Caso haja alguma indicação (sangramento, crescimento anormal da altura uterina, pouca movimentação fetal, etc.), poderão ser indicadas outras ecografias.

Por que eu faço a morfológica do 2o trimestre? Nessa idade gestacional, já pode ser verificado se o bebê tem alguma condição que requeira um atendimento especial no nascimento (uma malformação cardíaca, por exemplo). Isso melhora os resultados perinatais.

Por que não faço aquela eco no comecinho? Porque confio na minha DUM. Contudo, se alguém tiver ciclo irregular ou medo de uma gestação ectópica, é bom fazer.

E por que não faço a translucência? Agora, sentem, que lá vem a história.

Na minha primeira gestação, a médica me explicou (corretamente) que esse exame estimava a probabilidade de o bebê ter alguma síndrome cromossômica, embora não seja conclusivo. Eu perguntei: "E se tiver, o que eu vou fazer?" Ela disse: "nada, mas é bom pra ir se preparando". Aceitei o argumento e fiz. Deu normal.

Ocorre que, o que eu não sabia, é que esse exame é muito mais limitado do que eu pensava. Conheço três amigas próximas que tiveram translucência muito alterada e bebês normais. E o bebê da secretária da minha obstetra teve transluência normal e nasceu Down.

Tá, mas e daí? Não é só fazer outro exame pra confirmar?

A única maneira definitiva de saber se o bebê tem alguma síndrome cromossômica é fazendo um exame que se chama biópsia de vilo, ou amniocentese. Uma agulha é inserida na cavidade do útero para coletar uma amostra de líquido amniótico, a partir da qual será feito o cariótipo do bebê. Normal é 46XX ou 46XY (23 pares).

Estima-se que a amniocentese tenha uma taxa de morbidade fetal de 1%. Após o exame, a mulher tem de ficar alguns dias de repouso pra diminuir as chances de perda fetal.

Mas como eu sou muito louca e podicrê... eu jamais me submeteria a esse risco.

E tem mais. Convênio não paga. O SUS faz, mas demora um mês. Que tal esperar um mês pra saber se seu bebê vai nascer vivo? E isso depois que o delicadíssimo médico da ultra te disse que ele tem 1% de chance de sobreviver?

Mas, claro, você pode pagar. Para resultados em 30 dias, custa X. Para resultados em 15 dias, custa 2X. Para resultado em uma semana, custa 10X. É um mercado, e ninguém se dá conta.

"Mas eu fiz a TN, deu tudo normal...." Glória, glória, a da Emília também. Mas a da minha amiga não deu. E ela passou maus bocados nos 12 dias em que esperou o resultado da biópsia. Não vou entrar em detalhes para não expor a intimidade dela, mas não recomendo isso pra ninguém. E ela é só uma das três que eu citei.

E não nos esqueçamos do acompanhamento que vamos receber. Os médicos têm extrema dificuldade para lidar com mulheres que carregam fetos malformados. Decida carregar e parir um e veja a cara do seu obstetra. O apoio emocional nessas horas é muito escasso, especialmente vindo dos médicos. 

Os gráficos de resultados da translucência nucal são alimentados com dados de um banco mundial. A maioria dos fetos que apresentam translucência até 2,5mm são normais. Passando disso, vai aumentando a incidência de síndromes. Mas se 95% dos bebês com translucência 4mm, digamos, têm uma síndrome, o que isso significa pra uma mulher que teve este resultado? Nada, a não ser que ela faça a biópsia.

O que eu recomendo às grávidas:

- que se informem sobre a translucência nucal, e vejam o que significam seus resultados;
- que se informem sobre a biópsia de vilo e avaliem se estariam dispostas a passar por ela caso tenham uma translucência alterada.
- que pensem no que fariam caso tivessem um bebê sindrômico. Se aborto não é uma opção pra você, aí eu recomendaria fortemente que sequer começasse esse tipo de investigação.

Eu diria: só faça a TN se 1) você estiver disposta a passar pela biópsia de vilo e 2) se você é daquelas que precisa saber, ou se jamais levaria adiante uma gestação com um feto malformado.

E é por isso que eu não faço. Repetindo: ecografia não previne - nem corrige - malformação. Ecografia também dá (muito) resultado equivocado. E, finalmente: não sei se fomos preparadas pra lidar com esse tipo de dor numa esfera tão abstrata. Uma coisa é você ter um filho morto nos braços; outra é você ter uma barriga linda, um bebê que se mexe e cujo coração bate, e receber a notícia de que ele não vai viver. E que não há nada pra fazer a respeito.

Acredito na liberdade de escolha, uma escolha esclarecida e informada. O direito de saber, mas também o direito de não saber. Especialmente porque, neste caso, saber não vai salvar o feto.

E acredito também no acolhimento à mulher e à sua dor. É muito mais fácil receber de um médico um conselho para ler e se informar sobre as sídromes, junto com o contato para a clínica de aborto, que uma palavra de consolo ou de esperança.

E, por fim: um pouco mais de amor na nossa assistência obstétrica.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Um, dois, três... e haja farinha!

Pelo visto ninguém entendeu a indireta de ontem. Vamos tentar outra: este blog se chama Um, dois, três, saco de farinha! E agora faz jus ao nome. Quem sabe um dia a gente passa pro quatro, cinco, seis, saco de feijão?

E vejam que chique, acabei de criar um slogan pro meu blog:

Saco de Farinha: gestando e lactando since 2009.

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