Volto aqui depois de tantos anos para uma pequena contribuição ético-político-ecológica à comunidade de mães e de bebês: me manifestar a respeito da decisão de alguns pediatras de que o sol faz mal.
Soube por uma amiga recém-mãe, quando perguntei se estava saindo para tomar sol com o bebê. Ela disse que agora não pode mais. Achei engraçado: "O que aconteceu? Acabou-se o resto da camada de ozônio?". E agora minha filha de 12 anos pertence a um "antigamente" em que os bebês tomavam banho de sol.
Como boa cientista, fui fazer uma breve pesquisa pra entender a base científica disso. Não achei nenhuma recomendação do Ministério da Saúde, mas só da Sociedade Brasileira de Pediatria, com argumentos completamente vagos como "os riscos são maiores que os benefícios" e "a pele do bebê não tem proteção natural contra o sol até os seis meses". Coisa tirada do sovaco.
Nenhuma reflexão sobre os riscos de enfurnamento da mãe, de isolamento, de solidão, por medo de "queimar", "desidratar" ou expor o bebê a câncer de pele. Nesse raciocínio, o sol é reduzido a uma fonte de vitamina D, que pode ser substituída comodamente por um suplemento. Nenhuma referência aos efeitos do sol sobre o humor, sobre a integridade da saúde, e sua relação com os melhores espaços de socialização para mães e bebês: praças, parques e espaços naturais. Como se as mães fossem loucas a deixar seus bebês torrando na laje sob um sol de meio-dia.
Uma atitude de controle sobre os corpos que despreza a tradição, a intuição e o bom senso materno. Despreza todos os mecanismos naturais de desenvolvimento humano em integração com a terra. O shopping virou um lugar mais seguro para bebês do que a rua, e a farmácia uma fonte melhor de nutrição.
Tive o privilégio de criar minhas filhas numa cidade-jardim, em contato com o vento, com a terra, com a areia, com os insetos, com as plantas, desde o dia em que nasceram. Sempre ficaram protegidas pelas copas das árvores em horários de sol mais intenso, e sempre livres para a luz do dia no início da manhã, no fim da tarde e no inverno. E eu tive o privilégio de estar muitas horas por dia ao ar livre, encontrando vizinhos e vivendo a maternagem comunitária.
As corporações seguirão fazendo seu trabalho de controle e de promoção dos seus produtos, e eu continuarei fazendo o meu, que é de subversão, para a proteção das minhas filhas e do planeta em que meus netos vão nascer.
Paz a todas as mães nas praças, parques e praias!