quinta-feira, 28 de abril de 2011

Por que (não) desmamar II – Mitos e fatos

O texto de ontem foi emocional, falei do que sentia. Hoje, deixo algumas informações mais técnicas para ajudar as mães a fazerem escolhas conscientes e decidirem (ou não) pelo desmame dos seus filhos com autonomia.

Listei motivos comuns pelos quais o desmame é rotineiramente aconselhado e explico, com base na literatura, os equívocos de cada um:

1) A criança não aceita outros alimentos, ou não come o suficiente.

Com nossos conhecimentos atuais, o mais prudente é começar a oferecer outros alimentos aos seis meses. Algumas crianças comem alegremente e, provavelmente, algumas precisam deles de verdade. Mas dizemos “oferecer”, e não “enfiar”. A criança é livre para comer ou não. Muitas crianças de peito não querem nem provar qualquer outro alimento até os oito ou dez meses, ou até mais. Estão perfeitamente saudáveis e felizes, seu peso e tamanho são normais, seu desenvolvimento psicomotor é excelente... mas recebem o suficiente com o peito e, portanto, não querem mais nada.

Isso produz não pouca inquietação nas mães de lactentes entre seis e doze meses, mais ou menos. Seus filhos mal “beliscam” alguma coisa (uma mordida de banana aqui, um miolo de pão acolá, um macarrão mais pra frente) além do peito. Sempre se escuta algum comentário gentil: “Sua Laura ainda não come nada? Pois você tinha que ver minha Jéssica, como ela gosta de cereais com leite”.

Quem ri por último ri melhor. As crianças de peito demoram a aceitar outros alimentos, mas quando o fazem costumam desprezar as papinhas industriais e os alimentos triturados e se lançar à comida de sua mãe. No começo do seu segundo ano, a criança de peito costuma comer lentilhas com linguiça, omelete de batatas e sanduíches de presunto, tudo isso a colheradas e mordidas com sua própria mãozinha.


Mi niño no me come (Meu filho não come). Carlos González, pediatra espanhol.
(Tradução minha).

Lembrando que, muitas vezes, achamos que a criança está comendo pouco quando, na verdade, ela está comendo exatamente o que precisa.

Se a criança está mamando no peito, três refeições por dia com alimentos adequados são suficientes para garantir uma boa nutrição e crescimento, no primeiro ano de vida.

Guia Alimentar para Crianças Menores de Dois anos, Ministério da Saúde.

2) A criança não está ganhando peso ou crescendo adequadamente.

Se uma criança amamentada não estiver crescendo adequadamente no segundo ano de vida, os esforços devem concentrar-se na melhoria da qualidade nutricional e quantidade dos alimentos complementares e não na interrupção da amamentação (Bentley et al., 1997). Essa sugestão é reforçada com o estudo feito em Bangladesh onde as crianças desnutridas não amamentadas além do primeiro ano tiveram um risco seis vezes maior de morrer, quando comparadas com as amamentadas (Briend e Bari, 1989).

Guia Alimentar para Crianças Menores de Dois anos, Ministério da Saúde. (grifo meu)

3) Se amamentada por muito tempo, a criança pode desenvolver dependência excessiva da mãe, problemas psicológicos e sexuais.

O período natural de amamentação (sem a influência da cultura), segundo diversas teorias, seria de 2,5 a sete anos. Estudos etnográficos sugerem que, antes do uso disseminado de leites não humanos para crianças, elas tradicionalmente eram amamentadas por três a quatro anos, época em que as crianças usualmente deixam de amamentar quando lhes é permitido alimentar-se de acordo com a sua vontade (Dettwyler, 1995). A OMS recomenda que a amamentação seja praticada até os dois anos ou mais (World Health Organization, 1995a).

Guia Alimentar para Crianças Menores de Dois anos, Ministério da Saúde.

Quando a psicóloga da creche soube que Maribel estava dando o peito a seu filho de dezesseis meses, chamou-a para lhe explicar que se não o desmamasse imediatamente, seu filho seria homossexual. (...)
Como Maribel persistiu em sua “perigosa” atitude, a psicóloga ligou para sua casa para falar diretamente com seu marido e adverti-lo sobre o dano que sua esposa estava fazendo ao filho de ambos.

Nossa sociedade, tão compreensiva em outros aspectos, é muito pouco compreensiva com as crianças e com as mães. Esses modernos tabus poderiam ser classificados em três grupos:
- Relacionados ao choro: é proibido dar atenção às crianças que choram, pegá-las no colo, dar-lhes o que pedem.
- Relacionados ao sono: é proibido fazer as crianças adormecerem no colo ou lhes dando o peito, cantar ou niná-las para que durmam, dormir com elas.
- Relacionados à amamentação: é proibido dar o peito em qualquer momento ou em qualquer lugar, ou a uma criança “muito grande".

Quase todos eles têm uma coisa em comum: proíbem o contato físico entre mãe e filho. Pelo contrário, são muito apregoadas todas aquelas atividades que tendam a diminuir dito contato físico e aumentar a distância entre mãe e filho.
(...)

Ainda que alguns tentem justificar essas recomendações dizendo que é para que “a mãe descanse”, o certo é que nunca te proíbem nada cansativo. Ninguém diz: “Não limpe tanto, que a criança se acostumará a ter a casa limpa”, ou “Ele vai servir ao exército e você vai ter de ir junto para lavar a roupa dele”. Na realidade, o proibido costuma ser a parte mais agradável da maternidade. (...)

Todos esses tabus e preconceitos fazem as crianças chorarem, mas também não tornam os pais mais felizes. A quem satisfazem, então? Talvez a alguns pediatras, psicólogos, educadores e vizinhos que os propagam? Eles não têm o direito de lhe dar ordens, de lhe dizer como você deve viver sua vida e cuidar de seu filho. Muitas famílias sacrificaram sua própria felicidade e a de seus filhos no altar de preconceitos sem fundamento.


Bésame Mucho. Carlos González, pediatra espanhol.
(Tradução minha).

4) Os dentes do seu filho estão nascendo. Hora de desmamar.

O único inconveniente de dentes na amamentação são as mordidas que eventualmente podem ocorrer. Aconteceu comigo, e nós superamos essa fase.

No mais, a lactação protege a arcada dentária de deformidades que possam ser causadas por chupetas ou mamadeiras. O peito sacia a necessidade de sucção, dispensando a chupeta, e a necessidade de oferecer outros líquidos pela mamadeira. Uma criança de seis meses, que deve começar a receber outros alimentos, está apta a beber num copinho de treinamento ou mesmo num copo normal, com auxílio. Recém-nascidos, e até pré-maturos, são capazes de beber de um copinho de café.

No mais, a primeira dentição não é chamada de dentes de leite à toa.

5) Você engravidou, então tem de desmamar.

Já falei sobre isso aqui e aqui.


Por hoje é só. Amanhã encerro mais esta série de posts sobre aleitamento com um Manifesto em defesa da amamentação.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Por que (não) desmamar

A ideia do desmame pode surgir em vários momentos do aleitamento: quando o bebê começa a comer outros alimentos, quando nascem os dentes, quando a criança passa a acordar infinitas vezes à noite e só volta a dormir no peito, quando ela faz um ano, quando você engravida, quando nasce o segundo filho... A proposta pode vir do pediatra, do obstetra, da babá, da sua mãe, da sua sogra, da sua vizinha. Ou pode vir de você mesma.

Passei por todas as etapas acima (com exceção do nascimento do segundo filho) e sigo amamentando. Além disso, minha produção de leite sofreu uma brusca diminuição nesse segundo trimestre de gestação. Por conta disso, as mamadas de Emília passaram a se estender por mais de meia hora. E parece que não alimentam muito. E meus mamilos estão extremamente sensíveis. Motivos de sobra pra desmamar.

Não fosse...

...não fosse o fato de que Emília não deixa? Não. Minha filha, voluntariamente, parou de pedir o seio na volta da escola. Agora ela pede “mnão” (banana). Em alguns dias, ela mama só de manhã e à noite, antes de dormir. Fins de semana e feriado, quando passa o dia comigo, costuma pedir um pouco mais, normalmente pra ajudar nas sonecas. Mas eu sei que, se eu quisesse, com jeitinho eu poderia desmamá-la em questão de semanas.

Então, o quê? Por que não desmamar?

Para uma boa parte das mães, o desmame é um período doloroso, tanto pra ela como para o bebê. Em muitos casos, a criança se recusa a ser desmamada, chora, passa a ter dificuldades para pegar no sono. A mãe sofre junto, determinada a fazer aquilo que ela acha certo, mas, no fundo, insegura quanto a essa decisão. “Mas ele já tem mais de um ano. O leite materno não tem mais nenhuma função”. “Mas ele não come nada por causa do peito!” “Mas ele só dorme no peito.” “Mas você não consegue fazer nada, não pode viajar, está presa.” Motivos e mais motivos. Fora argumentos de que o aleitamento prolongado faz mal à criança, que deixa dependente, gera problemas sexuais e psicológicos – asneiras que não têm a menor base científica.

Certa vez, quando disse que amamentaria até quando eu e Emília desejássemos, alguém me perguntou: “Ué? Mas ela não vai querer sempre?” A resposta é não. A maioria das crianças vai deixar o peito voluntária e naturalmente, no tempo delas, sem traumas. Uma ou outra talvez queira mamar além dos 3 ou 4 anos, mas são minoria. Entre os 2 e os 3 anos, o interesse pelo seio vai diminuindo paulatinamente, a menos que a mãe force a continuidade do aleitamento. Nesse período, não recusar, mas não oferecer o seio, além de trocar o momento das mamadas por outras atividades (historinhas, lanches interessantes, chamegos e carinhos) serão medidas suficientes para um desmame tranquilo.

Grande parte dos desmames são difíceis porque a mãe e/ou a criança não estão prontas. Aí o processo vira uma guerra, um estresse.

Esses dias, com Emília no colo, grudada no meu peito, percebi uma coisa muito simples: não desmamo porque não tenho a menor vontade.

Todas as vezes em que a ideia “desmame” passou pela minha cabeça foi para me justificar perante os outros Eu respondo, a cada pergunta sobre a continuidade do aleitamento: “A OMS recomenda no mínimo dois anos”; “As contrações uterinas causadas pela sucção do bebê são mais fracas que as de um orgasmo, então não há, a priori, problemas para o feto”. Mas, de mim para mim, se não houvesse questionamentos, eu sequer pensaria nisso.

E eu não amamento por causa da OMS, mas por causa do meu coração. A OMS serve apenas para me defender diante da opinião pública.

Notei que eu não me vejo nesse processo de desmame. Isso pra mim é algo distante, não necessariamente no tempo, mas na minha visão. É como o desenvolvimento da criança: sei que em breve Emília estará formulando frases, mas hoje ela fala umas dez palavrinhas e essa é ela. Emília tem poucos cabelos, fala dez palavras e mama no peito. Amanhã? Amanhã será outro dia, e eu vivo o hoje.

Amamento porque sinto prazer. Amamento porque minha filha sente prazer. Amamento porque, no meu âmago, sinto que estou vivendo o momento que me foi reservado pra viver agora. Amamento porque a primeira infância da minha filha não vai voltar.

Amamentem, desmamem, mas ouçam sempre o seu coração. E não se agridam.

+++

Para completar, um fragmento extraído do livro No seio do nascimento (Au Coeur de la Naissance: Témoignages et réflexions sur l'accouchement - Lysane Grégoire e Stéphanie St-Amant). É o relato de uma mãe que foi separada do seu filho logo após o seu nascimento e que se arrependeu de tê-lo desmamado precocemente:

Amamentei cinco meses e tive muita dificuldade para parar. Continuo muito irada. Quero lutar contra tudo aquilo. Não sei ainda onde está o meu lugar, mas penso muito nisso. Vou encontrá-lo. Amamentei Jules apenas cinco meses, sem ter ao redor de mim nenhum exemplo de aleitamento mais longo. Pensava até que era impossível. Eu me violentei para parar, como se fosse inconveniente continuar. Isso machucou a nós dois. Penso realmente que a amamentação curava as feridas desse nascimento, que tornou muito difícil para nós dois o estabelecimento de vínculos. Mas teria sido necessário mais tempo. Depois do fim do aleitamento, me dei conta progressivamente de que alguma coisa não ia bem entre nós, que não me sentia sua mãe com facilidade, que eu fugia dos momentos de solidão com ele, me remetendo muito ao Arnaud (eles dois criaram uma relação muito forte). A tomada de consciência disso e o tempo passado com ele ajudaram a apaziguar e a criar relações mais fortes, mas ainda me arrependo desse aleitamento encurtado por ignorância, por preocupação com o olhar dos outros e por falta de escutar minhas necessidades profundas e as dele.(Stéphanie C.)
Tradução minha.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Fotos

Dia desses estava eu com o Rafael organizando as fotos de Emília pra deixar os álbuns dela prontinhos antes de nascer o segundinho e o caos se instalar completamente nos nossos arquivos fotográficos. Comprei uns álbuns lindos, outros nem tanto. Descartei os feios e disse ao Rafael:

- Podemos usar esses para colocar fotos onde Emília não aparece. Tem algumas...
- Fotos sem Emília? Pra quê a gente tirou fotos sem Emília?
- Eu estava me perguntando a mesma coisa...

sexta-feira, 15 de abril de 2011

De novo eles... os nomes.

Quem me acompanha há muito tempo talvez se lembre do drama que foi pensar em um nome de menino para um bebê cujo sexo só descobrimos ali pelo 6º mês, e que felizmente acabou nascendo menina e ganhando o único nome a respeito do qual eu e o Rafael sempre estivemos de acordo: Emília. (Relembrando: aqui, aqui e aqui).

Eis que me vejo novamente embarrigada, e desta vez não vamos querer saber o sexo (já dava pra desconfiar por este texto aqui). E o único nome consenso já foi usado.

Me dá uma preguiça enorme procurar nomes bonitos para discutir com o Rafael porque ele não gosta de nada. Até o nome que ele mesmo tinha escolhido pro caso de ser um menino, o único que ele aceitava, começou a ficar em dúvida. Ó-meus-sais.

Pensei então em fazer uma mini-lista com dois ou três nomes legais de cada sexo, com ordem de preferência, e bater o martelo depois de ver a carinha do bebê. Mas, não: ele diz que pós-parto é muito perigoso pra escolher nome, que a gente fica alterado pelo momento, pela ocitocina, prolactina e tals, e que a gente tem de decidir antes.

Os critérios são os mesmos da outra vez: nomes brasileiros, cuja grafia não gere dúvidas (“com z ou com s?” “com h ou sem h?”), que não estejam na moda e, obviamente, que sejam bonitos. Se combinar com nossos sobrenomes, melhor ainda.

O problema não é a falta de nomes. Temos muitos nomes lindos na lista. Mas está difícil fechar (põe a culpa no marido!). Dia desses li numa lista de e-mails da qual eu participo a seguinte frase: “Nome de filho a gente não escolhe. Descobre.”

Vem, nominho, vem...

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Ão e mnã

Emilinha é mesmo lusófona. A primeira palavra que ela pronunciou perfeitamente foi “pão”. Logo em seguida veio o mamão, depois a mão e, a nova moda: o não.

Esse “ã” nasal, que os hispano-hablantes, os anglófonos, enfim, a maioria dos gringos penam tanto para pronunciar, sai com naturalidade da boca dos nossos brasileirinhos.

E ela gosta tanto de falar os “ãos” que sai por aí repetindo sem propósito: “pão, pão, pão, pão...” Mesmo que esteja com a boca cheia de pão.

A mão, ela pede quando está sentada na cadeirinha do carro. Estica a mãozinha dela e solicita a minha. Depois segura com a maior cara de satisfação e muitas vezes dorme assim. Também pede mão quando resolve que não quer caminhar sozinha, quando quer andar um pouco mais rápido, quando tem uma rampa ou um degrau no caminho, quando quer nos levar pra algum lugar...

E o não? Ah, o não... Como essa palavrinha parece dar prazer!

- Emilinha, dá um beijo no auau (de pano).
- smack!
- Agora dá um abraço.
- Não (balançando a cabeça pros lados).

O engraçado é que algumas palavras que parecem bem fáceis, como banana (ela sabe falar muito bem o “ba’ e o “na”), ela prefere falar ao seu modo. Mnãmnãmnã... ad eternum. É a “palavra” preferida.

Ela acorda, mama, depois pede “esxê” (descer), depois “mão”, depois nos leva pra cozinha recitando “mnãmnãmnãmnã....”

terça-feira, 12 de abril de 2011

A mãe que eu quero ser

Por falta de inspiração, não participei da blogagem coletiva que aconteceu semana passada sobre a maternidade possível. Mas depois de ler os posts, acabei me inspirando e rabiscando algumas reflexões.

Às vezes tenho a sensação de que esquecemos a quem temos de prestar contas. Ficamos tão aborrecidas com os comentários e palpites, com tantas opiniões diversas, que quando relatamos nossa real maneira de ser fica até parecendo rebeldia.

Só que a gente nunca deveria ter de dar satisfação a ninguém, em primeiro lugar. Porque não são os “outros” que temos de agradar. Até porque os “outros” são um grupo tão heterogêneo, tipo gregos e troianos, que é simplesmente impossível agir de forma a ser aprovada unanimemente.

Temos de pensar quem são os principais interessados na nossa maneira de maternar: sim, eles, os nossos filhos. É a eles que devemos prestar contas, a eles devemos agradar. Que fique claro que não estou falando de agrado no mau sentido, em querer fazer todas as vontades do filho independente de aquilo ser bom pra ele. Mas, sob o nosso julgamento imperfeito, temos a missão de fazer tudo aquilo que acreditamos ser melhor para nossos filhos, mesmo que nos dê mais trabalho.

Se nós errarmos querendo fazer o bem, com amor legítimo e responsabilidade, nossos filhos nos perdoarão. Nasci de uma cesárea sem explicação (apesar de minha mãe não ter escolhido), usei chupeta, e fui desmamada aos 9 meses (um recorde de aleitamento nos anos 80) porque minha mãe não queria mais acordar à noite. E eu, apesar de ter escolhido outros caminhos para minha filha, acho minha mãe simplesmente a melhor mãe do mundo. Por quê? Porque eu sei que ela me ama.

Se eu soubesse – e um filho sempre sabe – que ela me desmamou por egoísmo, seria muito mais difícil.

Agora, os outros... os outros não vão querer saber se a sua intenção foi das melhores. Os outros não perdoam, porque na relação de observação da vida alheia não há amor.

Eu diria que o principal componente para uma boa maternidade é a entrega. Não deveríamos ter filhos para sermos servidas por eles, para que eles nos amem, para que dêem sentido à nossa vida, para que nos adeqüemos aos modelos sociais ou para que eles cuidem de nós na velhice. Deveríamos ter filhos para amá-los. Ponto. Para servi-los, para estarmos à disposição deles enquanto precisarem, e para deixarmos que sigam seus próprios caminhos quando for a hora. E, sim, para voltarmos a ficar sozinhas um dia.

Eu sugeriria um exercício (inventado pelo meu pai, com adaptações): pense em tudo aquilo que VOCÊ acha certo no que diz respeito à sua atuação como mãe, sempre colocando o bem do seu filho em primeiro lugar. Escreva num caderno. Agora, obedeça ao caderno. Difícil? Impossível.

Não precisamos nos remoer de culpa quando errarmos. Mas a culpa, na medida certa, tem o papel de nos alertar de que algo está errado, e o melhor remédio pra ela é se arrepender, pedir desculpas e mudar de rumo (se tratar de uma situação contínua) ou tentar não repetir o erro (se for uma situação pontual). E reparar o dano feito, se isso for possível. E, finalmente, se lembrar de que nosso filho é o referencial pras nossas atitudes, e que é só dele que precisamos receber aprovação.

Seja a mãe que você pode ser. Mas sempre tentando ser a mãe que você quer ser.

domingo, 10 de abril de 2011

Action painting - e depois ela vai pra guerrilha...

Porque um verdadeiro artista não se detém nos limites da tela...

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sexta-feira, 8 de abril de 2011

A multiplicação do amor

Muitas mães se questionam se conseguirão amar o segundo filho tanto quanto amam o primeiro. Ao mesmo tempo, depois que o segundo nasce, ele normalmente parece tão bem amado que dele dizem que “se cria sozinho”.

E como isso? Como é que uma criança que já nasce dividindo a atenção pode parecer tão alegre, tão segura de si, tão satisfeita com o que recebe?

É porque o amor, ao contrário das coisas físicas, tem a propriedade de aumentar quando se divide.

Pensemos assim: qual criança se sentirá mais feliz: aquela que vê que seus pais se amam ou aquela que percebe sérios conflitos entre eles? Emília acha a maior graça quando vê eu e o Rafael nos beijando. Ela dá um sorriso que só pode ser de aprovação: “Muito bem, se amem”. Porque esse amor acaba chegando a ela.

Quando estamos gestando um segundo filho, as explosões de amor pelo primogênito nos fazem sentir tão bem que só podem também dar prazer àquela criança que está no ventre. As risadas que uma criança pequena nos arranca, as gracinhas que nos fazem suspirar... é muita endorfina!

Deve ser por isso que os segundinhos costumam ser tão bem resolvidos. Linda missão essa de ser irmão mais velho.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O pão de queijo e o bolo II – no que deu

Depois do conflito por causa do cardápio da creche, resolvemos levar as receitas dos bolos e do pão de queijo ao pediatra da Emília pra pedir sua opinião. Apesar de ter estudado tudo o que eu podia sobre alimentação infantil, confesso que não estava 100% segura quanto à necessidade de restringir totalmente esses lanchinhos, que acontecem por volta de 2x por semana.

Confio bastante no nosso pediatra no que diz respeito à alimentação, porque ele é bem radical nesse sentido: amamentação em livre demanda e exclusiva até os 6 meses, depois continuada até pelo menos 2 anos, sem a necessidade de dar à criança qualquer outro leite nesse período; recomendação de não usar sal e açúcar – apesar de aceitar sal em pequenas quantidades, ou “o tempero da casa”, como ele mesmo diz –, total restrição a alimentos industrializados ou com muitas quantidades de açúcar, sal ou gordura. Pra um pediatra que chama iogurte de “porcariada”, imaginei que se ele olhasse as receitas e as considerasse aceitáveis, seria carta branca pra eu autorizar Emília a participar desses lanches com os colegas. E assim foi.

Os bolos contêm até 7g de açúcar por porção. A porção máxima diária recomendada pelo Ministério da Saúde para crianças de 1 a 2 anos é uma colher de sopa – o que dá 15g, segundo o Dr. Pediatra. Então estamos dentro.

Quanto ao leite de vaca presente no pão de queijo, ele disse que com essa frequência (2x por mês) e em quantidade pequena não haveria problemas, já que Emília nunca deu qualquer sinal de intolerância à lactose (sempre consumi leite de vaca normalmente, desde que ela nasceu). Então decidimos por liberar os bolos e o pão de queijo e manter as restrições ao açúcar no suco, à carne (filosofia nossa) e às comidas de festinhas, cujos ingredientes nós desconhecemos. Acho que ficou um bom equilíbrio.

Ontem Emília comeu bolo pela primeira vez, estreando com o sabor milho. Mas eles também deram uma espiga de milho cozido pra ela, como de praxe (não tem espiga de milho na salinha dos pequenos, mas eles abrem exceção pra Emília porque ela come o milho direto no sabugo e faz a maior festa), então ela comeu um pouco de cada. E parece que não estranhou o bolo, porque é puro milho, eu já comi – parece uma pamonha menos doce e menos oleosa.

Continuo sem achar que essas “restrições” estavam diretamente relacionadas às mordidas, mas preferi conversar com o pediatra a respeito da possibilidade de eliminá-las porque eu precisava ter certeza de que elas realmente faziam sentido. Se considerássemos que haveria malefícios à saúde e aos hábitos alimentares de Emília, eu não autorizaria. Mas agora estou tranquila – só com um pouco de medinho de que agora ela peça pra comer bolo de chocolate com cobertura e pão de queijo industrializado. Mas a gente se vira.

Viu, gentes, eu nem sou tão chata assim. É flexibilidade com esclarecimento e responsabilidade!

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Parir é correr o risco de ser transformada

Uma das grandes dificuldades que encontro ao escrever sobre parto no blog é: como expor meu ponto de vista, falar daquilo em que meu coração acredita, compartilhar o que dizem as evidências científicas, sem ofender quem pensa diferente? Como defender o direito das mulheres de vivenciarem um parto sem violência sem parecer xiita? E como respeitar mulheres que optam por uma cirurgia ou por um parto medicalizado sem banalizar esses procedimentos?


Recentemente topei com um texto que me pareceu perfeito ao lidar com essas questões, e trago aqui a tradução que fiz dele. Não preciso dizer mais nada.


(Se alguém quiser reproduzir o texto, fique à vontade. Só não esqueça de citar a referência bibliográfica e o nome da tradutora).


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Parir é correr o risco de ser transformada

Isabelle Brabant


Certo dia eu lia um depoimento na internet: uma mulher contava sua experiência de dor escrevia que ela “se rendeu” à anestesia após 32 horas de trabalho de parto. Ela expressava seu sentimento de derrota em relação ao seu desejo de parto natural, ao mesmo tempo em que louvava a intervenção que ela, a princípio, quis evitar. Esse relato me perturbou: pareceu-me ver aí uma triste confusão entre um projeto legítimo de fato e uma decisão legítima de fato, num contexto bem preciso. Quando se está em sua própria história de parto, o objetivo do jogo não é ser contra ou a favor da anestesia. Ela pode vir a ser útil, ou até salvadora, como quando uma mulher em trabalho de parto há 30 horas se sente exausta! Essa anestesia tardia, vinda após horas de caminhada, de esforço, de coragem, não diminiu nada do trabalho extraordinário que essa mulher realizou, e tudo o que ela descobriu ali permanece um tesouro precioso.

Todos os nascimentos são extraordinários, na medida em que têm o poder de nos transformar completamente. Inúmeras mulheres descobriram no parto uma oportunidades de “realização de si”, que elas têm razão de querer compartilhar conosco. Aliás, eu tive o privilégio de assistir a momentos de abertura, de abandono à vida, de instantes mágicos de ternura e emoção que é absolutamente imperativo fazer conhecer. Mas se é bem verdade que ela oferece essa oportunidade extraordinária, a chegada de uma criança é também um evento muito complexo, que agitará mais que uma vida. A criança que nasce “atravessa”, literalmente, sua mãe, vem ao encontro de seu pai, de seus irmãos e irmãs, e essa encruzilhada de caminhos encerra às vezes obstáculos ou mesmo provas. Se essa realidade não é reconhecida, corre-se o risco de alimentar uma certa visão do “parto perfeito”, no qual tudo se desenrola na mais completa harmonia. Se essa imagem idílica se torna um objetivo, se o parto é colocado no domínio do sucesso, então as mulheres estão condenadas a “não conseguirem”, a se sentirem “desqualificadas” por não terem conhecido a apoteose da felicidade que elas se prometeram viver.

O que há de fabuloso num parto é essa oportunidade de viver intensamente alguma coisa, não a garantia de chegar a isso. Tenhamos cuidado ao impor um modelo de parto ou de experiência. Depois de nos livrarmos com grandes esforços do modelo estritamente médico, da “curva de dilatação perfeita”, não criemos uma “curva da realização de si”, que teria por conseqüência dividir as mulheres em dois terrenos: as que tiveram anestesia e as que não tiveram. Mantenhamo-nos afastadas desses ideais de performance. Pouco importa que haja “sucesso” ou “fracasso” sob tal ou tal aspecto da experiência do nascimento. Permaneçamos ligadas ao que aprendemos com essa experiência, àquilo ao qual abrimos a porta em nossa vida, o que nos maravilha, nos toca, o que nos muda.

Não podemos senão ser tocadas pela beleza do que viveram algumas mulheres que escrevem seus relatos de parto natural, que testemunham de sua experiência positiva. Mas tenhamos cuidado para que, aos olhos e aos ouvidos daquela que recebe esse relato e que viveu coisas mais difíceis, isso não soe um pouco idílico demais, excessivamente orientado para o “sucesso” de um sonho que ela mesma não pôde realizar. O que descaracterizaria a ideia inicial: um nascimento, quando temos o coração aberto, é extraordinário, pouco importa como aconteceu.

Quando me lembro do meu primeiro parto, sob muitos pontos de vista, alguém poderia dizer que foi bastante abominável: fui raspada, sofri lavagem... e todo o resto. Achei que essas práticas não faziam nenhum sentido, e em seguida decidi que faria qualquer coisa para que isso mudasse. Mas isso não me impediu de viver um evento absolutamente extraordinário, que me transformou profundamente: o nascimento de minha filha!

Sem querer dizer que não há nada de grave em sofrer uma anestesia ou uma cesariana, sem querer banalizar nada, é importante recolocar as circunstâncias de cada nascimento em seu devido momento. É claro, podemos ter arrependimentos ou decepções. Evidentemente, é benéfico poder expressar esses arrependimentos e decepções. Mas também é necessário ser capaz de ver o potencial transformador que há em cada nascimento, qualquer que seja seu desenrolar. É às vezes um trabalho de luto, de cura, com certeza. Através desse processo, por vezes doloroso, podemos também reencontrar nosso bebê, a acolhida que, na hora do nascimento, não pôde estar à altura dos nossos sonhos, mas que podemos felizmente recriar no vínculo que é tecido no dia-a-dia.

É preciso respeitar o que cada mulher descobre, no ritmo em que ela se descobre, e dar outra vez o valor ao invisível que pertence àquele momento, àquele nascimento. Não é apenas aquilo do qual podemos nos gloriar que conta (sem anestesia ou sem episiotomia...). Ao contrário, o que conta realmente é o que aconteceu no interior de cada pessoa, o que fez sentido pra ela e que vai esclarecê-la na maneira como vai viver com seu filho, o que vai inspirá-la, lhe dar coragem para os dias em que ela precisará. É tudo isso que realmente importa.

De maneira inversa, não é porque uma mulher vive seu parto numa casa de parto ou em casa que ela será grandiosa ou maravilhosa. As mulheres, e muitas vezes os seus companheiros, estão ávidos pelo “parto perfeito” e é normal sonhar com isso. As parteiras também estão ávidas pelo “acompanhamento perfeito”, mas é muito raro que tudo seja “perfeito” ou “ideal”. O que me leva continuamente a me perguntar: qual é o objetivo, exatamente, se não é o de viver algo que, aqui, agora, encontra eco no interior de si, algo que faça sentido? (...)”


Trecho extraído do livro Au Coeur de la Naissance: Témoignages et réflexions sur l'accouchement. (Lysane Grégoire e Stéphanie St-Amant) Tradução: Lia Miranda


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Esta tradução é uma homenagem à Cíntia, pelo seu um ano de mãe da Beatriz. Parabéns, querida!

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